Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Canto de pássaros muda com poluição sonora das estradas, aponta estudo

Pássaros podem mudar o canto devido à exposição aos ruídos das estradas, mostra estudo norte-americano. Segundo especialistas, o ajuste compromete condições essenciais de sobrevivência, como a demarcação de território


;A intenção dos pássaros ao modificar o canto é aumentar as chances de serem ouvidos;, explica Katherine Gentry, principal autora do estudo, publicado na revista Bioacoustics. Ela e colegas estudaram o canto do piui-verdadeiro, presente em grande parte dos Estados Unidos e também na Região Norte brasileira, em três parques nos arredores da cidade de Washington. Os cantos foram gravados em duas situações: locais nos quais o barulho das estradas era relativamente constante e locais em que as estradas eram fechadas semanalmente por um período de 36 horas.

A primeira conclusão foi a de que o canto das aves se tornava mais curto e havia aumento da frequência mínima, em resposta ao tráfego de veículos no local. ;Os ajustes nos cantos deixam o sinal mais fácil de se detectar, distinguindo-o do barulho ambiente;, explica Gentry. Ainda que as aves pudessem ser ouvidas mais facilmente, porém, os outros pássaros pareciam não responder tão bem ao canto modificado, comparado ao tradicional.

Também chamou a atenção dos investigadores o fato de que, logo que o barulho cessava, o canto do piui-verdadeiro voltava ao normal. A constatação, segundo Gentry, pode embasar políticas voltadas para melhorias no fluxo de pessoas em habitats naturais de aves, como o fechamento temporário de estradas nos fins de semanas. ;Temos várias opções, dependendo da severidade do barulho. São exemplos: sistemas de transporte público para diminuir a quantidade de veículos; barreiras feitas com vegetação grossa; restrições de alguns veículos, como caminhões ou motos; e redução dos limites de velocidade;, lista a pesquisadora. ;Medidas temporárias, como o fechamento de estradas, são particularmente úteis caso se queira diminuir o barulho pela manhã.;

Para Renata Alquezar, pesquisadora do Laboratório de Comportamento Animal da Universidade de Brasília (UnB), esta última medida, apesar do intuito de preservação das espécies, pode ter efeito contrário. ;Vale salientar que essas mudanças podem gerar um maior custo energético para as aves, gerando estresse;, ressalta. A especialista, que não participou da pesquisa, explica que os piuis-verdadeiros são aves suboscines, do mesmo grupo do bem-te-vi, conhecidos por ter um canto que não costuma variar muito naturalmente. ;O que sugiro é o investimento em aeronaves, carros, motos e caminhões que emitam menor ruído. E, claro, uma maior fiscalização sobre esses meios de transporte.;

Em Brasília

Alquezar também trabalha com os efeitos de ruídos urbanos sobre o canto de pássaros. No seu caso, o foco é o impacto dos barulhos de aeroportos nas populações de aves ao redor. ;Em rodovias, os principais geradores de ruído são caminhões e motos. Em aeroportos, aviões de carga e aviões de pequeno porte são os que produzem maiores níveis de ruído;, diferencia.

O trabalho da professora da UnB está em andamento, mas ela adianta a constatação de resultados semelhantes ao do estudo norte-americano. ;Focando em Brasília, posso dizer que tanto o ruído de aeroporto quanto o ruído de rodovias têm potencial para causar modificações no comportamento de canto das aves. O que também pude perceber é que áreas preservadas, que a princípio não deveriam sofrer esse tipo de impacto, estão sob grande pressão dos ruídos que produzimos. Podemos observar grandes rodovias em torno do Parque Nacional de Brasília e das Reservas do IBGE e do Jardim Botânico, além de diversas rotas de aeronaves passando por cima dessas áreas de preservação com pouca altitude, gerando mais ruído;, detalha.

A equipe da Universidade George Mason identificou mudanças similares em pardais de cor branca que viviam perto de São Francisco. Para eles, trata-se de um fenômeno recorrente e registrado em outros cantos do mundo. ;O padrão geral mostra que algumas espécies aumentam as frequências mínima e máxima do canto, reduzem a duração do canto, cerca de 10 a 15 minutos mais cedo do que o normal, e apresentam níveis de estresse variáveis ;mais alto e mais baixo, em diferentes espécies;, complementa a especialista brasileira.

* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza

;Podemos observar grandes rodovias em torno do Parque Nacional de Brasília e das Reservas do IBGE e do Jardim Botânico, além de diversas rotas de aeronaves passando por cima dessas áreas de preservação com pouca altitude, gerando mais ruído;

Renata Alquezar, pesquisadora do Laboratório de Comportamento Animal da Universidade de Brasília