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Correio Braziliense

Ciência avança em tratamento contra câncer de cérebro com vírus inativos

O trabalho publicado na Science Translational Medicine aposta na imunoterapia, abordagem que foi tratada com bastante entusiasmo quando ganhou força, no início desta década


postado em 21/09/2017 06:00 / atualizado em 21/09/2017 07:01


Um dos tipos de câncer mais letais, com índices de óbito em cinco anos estimados em 75% (adultos) e 99% (crianças), o glioma de alto grau ainda é um desafio para os médicos devido, principalmente, à sua localização no cérebro, que dificulta a cirurgia de retirada do tumor. Isso deixa a ação clínica dependente da quimioterapia tradicional e da radioterapia, que têm sucesso limitado. Dois estudos publicados ontem em importantes revistas científicas, a Science Translational Medicine e a Nature, propõem novos esquemas de tratamento que, se confirmados, poderão aumentar a sobrevida dos pacientes. Os experimentos, feitos em animais, baseiam-se em avanços na compreensão da ação do sistema imunológico contra a doença.
 

O trabalho publicado na Science Translational Medicine aposta na imunoterapia, abordagem que foi tratada com bastante entusiasmo quando ganhou força, no início desta década. A ideia é lutar contra o tumor usando vírus inativos que, uma vez no organismo, desencadeiam uma resposta imunológica. Nos últimos dois anos, muitos pesquisadores têm apostado nessa linha para o tratamento do glioma, com alguns resultados promissores, mas ainda em fase inicial, e outros frustrantes.

Agora, a equipe liderada por Matthias Gromeier, professor de neurocirurgia da Universidade de Duke, investigou não só a eficácia da terapia no sentido de atacar e matar as células malignas diretamente, mas tentou elucidar o mecanismo por trás da resposta imunológica duradoura que inibe a volta do crescimento do tumor. “Nós temos uma compreensão geral de como os poliovírus modificados funcionam, mas não os detalhes mecanísticos nesse nível”, diz Gromeier, que desenvolveu o tratamento e é coautor do artigo. “Isso é um ponto de extrema importância para nós. Conhecer os passos que acontecem para gerar uma resposta imune vai nos permitir racionalizar e decidir se e quais outras terapias fazem sentido em combinação com a imunoterapia para melhorar a sobrevida do paciente”, diz.

O oncologista Igor Morkbeck, da unidade de Brasília do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-libanês, explica que a atuação do sistema imunológico no combate a determinados tipos de câncer depende da capacidade do organismo de identificar a presença do tumor. “Quanto mais inflamado o tumor, melhor a atuação. Mas, muitas vezes, o câncer cresce sem aparecer. A ideia da imunoterapia é retirar a máscara que o deixa invisível”, diz. Já tem algum tempo que se descobriu que um dos meios de fazer isso é bloquear um receptor celular que impede a ação dos linfócitos — importantes células de defesa do corpo. “É bonito na teoria, mas, na prática, funciona em poucos casos e, muitas vezes, a resposta não é duradoura”, diz.

Por isso, a necessidade de se avançar nas pesquisas de imunoterapia. A segunda geração de estudos dessa técnica visa identificar as células mais eficientes para reconhecer o tumor e, a partir disso, desencadear uma resposta imunológica que, além de matar o câncer, impeça (ou ao menos retarde) seu recrescimento. 

Testes em humanos


Apesar do insucesso de muitas pesquisas, o oncologista não descarta que o tratamento proposto pela equipe de Matthias Gromeier traga bons resultados. Especialista em biologia do câncer, Gromeier demonstrou, em laboratório, que um tipo de poliovírus chamado PVSRIPO mata as células malignas de glioma de alto grau e continua a promover a produção de células T, de defesa (Veja infografia). “Nós demonstramos como uma resposta imune efetiva é induzida depois da imunoterapia com poliovírus. Mostramos que esses vírus estimulam uma resposta inflamatória no tumor e como isso eleva a função das células dendríticas, que são capazes de estimular respostas das células T, do sistema imunológico”, diz a coautora do trabalho, Smita Nair, imunologista e professora do Departamento de Cirurgia da Universidade de Duke.

Esses resultados foram obtidos, primeiramente, in vitro, com células de glioblastoma de alto grau. Em seguida, os pesquisadores repetiram os testes, inserindo células humanas de câncer de mama e de pele melanoma em ratos. Nos experimentos, eles puderam validar os achados feitos anteriormente. De acordo com Nair, com esse primeiro trabalho, já é possível avançar para estudos com humanos. “Estamos planejando pequenos estudos-pilotos com pacientes de melanoma e câncer de mama. Eles nos permitirão prosseguir para ensaios clínicos de fase 1”, acredita.

Proteína interrompida

Em um  experimento divulgado na  Nature, pesquisadores da Universidade Stanford, na Califórnia, relataram o fim do crescimento, em ratos, do glioma de alto grau ao privar o câncer de uma molécula naturalmente produzida quando as células cerebrais são ativadas. 
Há dois anos, um trabalho da equipe de Michelle Monje identificou químicos liberados pelas células cerebrais em resposta à atividade neural que faz esse glioma crescer. Um deles é a neuroligina-3, que ajuda os neurônios a se comunicar. Agora,   eles extraíram células tumorais de pacientes com subtipos da doença e as inseriram nos cérebros de rato normais e  sem o gene que produz a neuroligina-3.
Neste último, nenhum dos tumores cresceu substancialmente durante quatro meses e meio. Metade dos animais permaneceu estável depois de seis meses. Ao mesmo tempo, o câncer se desenvolveu consideravelmente nos ratos normais..
 
A equipe mostrou que, bloqueando a atividade da proteína com uma droga desenvolvida para tratar outros tipos de câncer, é possível reduzir a expansão de dois tipos de gliomas implantados no cérebro dos ratos. “Realmente é animador, porque podemos usar a inibição da ADAM10 como tratamento complementar à estratégia terapêutica que já estamos usando”, comemorou Monje.

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