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Correio Braziliense

Cicatrizes do bullying: efeitos negativos podem perdurar por cinco anos

Os impactos são menores em jovens resilientes; por isso, pais devem estimular os filhos a desenvolver a habilidade de lidar com adversidades


postado em 29/10/2017 08:00

Bobagem, “mimimi”, excesso de sensibilidade, falta de palmada na infância... Essas são reações comuns a um assunto que está se mostrando cada vez mais grave. O bullying, longe de ser uma frescura, pode deixar marcas severas na saúde mental do adolescente. Estudos divulgados neste mês por diferentes instituições de pesquisa avaliaram o impacto das humilhações às quais crianças e jovens são submetidos e constataram, entre outras coisas, que os efeitos negativos podem permanecer por até cinco anos.

Para medir o tamanho do estrago que o bullying provoca nas vítimas, o pesquisador do departamento de psicologia e ciências da linguagem da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), Jean-Baptiste Pingault usou um banco de dados com 11.108 participantes. As informações sobre essas pessoas constam de uma longa pesquisa inglesa, o Estudo de Desenvolvimento Precoce de Gêmeos. A ideia de Pingault consistiu em verificar as associações entre as humilhações e a saúde mental dos jovens, e investigar se as consequências também teriam influência dos genes e do ambiente, tanto em gêmeos idênticos (que compartilham o DNA) vivendo na mesma casa, quanto em não idênticos (nem todos os genes são iguais), que também vivem no mesmo local.

Crianças e pais preencheram questionários. No início do estudo, quando indagados se sofriam bullying, os participantes tinham, em média, 12 anos. Aos 14, a mesma pergunta foi feita e, aos 16, os pesquisadores queriam saber sobre as dificuldades emocionais e mentais dos jovens. Depois de ajustar fatores que também contribuem para desencadear esses distúrbios, a equipe de Pingault constatou que o bullying tem participação no sofrimento mental dos adolescentes.

Passados dois anos da primeira entrevista, a ansiedade associada às humilhações persistiam. Eles ainda se queixavam de ansiedade, depressão, hiperatividade, impulsividade e falta de atenção, além de problemas de conduta. “Dois anos pode parecer pouco, mas na vida de um jovem, que está em pleno desenvolvimento, é muita coisa”, observa a psiquiatra Helena Moura, preceptora da residência em psiquiatria do Hospital de Base e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Cinco anos depois, quando os entrevistados estavam com 16 anos, esses impactos já não eram mais observados. Contudo, aqueles que haviam sofrido buylling aos 11 continuavam tendo pensamentos paranoides e desorganização cognitiva (condição caracterizada pelos pensamentos confusos). “Os efeitos prejudiciais do bullying mostram que é preciso fazer mais para ajudar crianças vitimizadas. Além das intervenções que buscam evitar a ocorrência de bullying, devemos também dar apoio às crianças que estão passando por isso, para ajudá-las em seu processo de resiliência no caminho da recuperação. Nossas descobertas destacam a importância de um suporte contínuo à saúde mental de crianças e adolescentes”, observa Jean-Baptiste Pingault.

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A capacidade de se recuperar de problemas é o que determina a forma como a vítima de bullying vai ser afetada por essa experiência, explica Sameer Hinduja, codiretor do Centro de Pesquisa em Cyberbullying da Faculdade Flórida Atlântica e coautor de um estudo sobre o tema publicado na revista Child Abuse & Neglect. “A resiliência é um potente fator protetivo, tanto para prevenir quanto para mitigar o efeito do bullying. Crianças resilientes são aquelas que, por uma variedade de motivos, lidam melhor com pressões e contratempos externos e são impactadas menos negativamente em suas atitudes e ações que os colegas menos equipados nesse sentido quando enfrentam esse tipo de vitimização”, afirma.

Estímulo

Segundo Hinduja, a resiliência é uma característica individual natural, mas que precisa ser nutrida por meio de incentivos sociais e fatores ambientais. Para testar se crianças resilientes de fato eram menos impactadas pelo bullying, a equipe de pesquisadores utilizou uma escala biossocial composta de 10 itens, que incluía frases como “Eu posso lidar com qualquer coisa que entre no meu caminho”, “Eu não me deixo vencer fácil pelo fracasso” e “Lidar com o estresse me deixa mais forte”. Essas questões, diz Hinduja, avaliam tanto a proteção conferida pela capacidade de reagir a intempéries quanto a habilidade recuperar o equilíbrio em face de uma adversidade.

O teste foi aplicado entre 1.204 jovens norte-americanos de 12 a 17 anos, e o resultado confirmou que a resposta individual ao bullying estava associada à resiliência das vítimas. Estudantes com alto grau de reação eram menos propensos a serem perturbados pessoalmente e online. Quando isso ocorria, eles tendiam a sofrer menos que os jovens com maior dificuldade de lidar com contratempos.

Para Hinduja, esse resultado serve de alerta a famílias, escolas e comunidades, que, segundo ele, negligenciam esse aspecto quando discutem o bullying. “Queremos que crianças aprendam e desenvolvam as habilidades necessárias para lidar com problemas. Contudo, raramente as ajudamos a se empenhar nesse sentido. Em vez disso, estamos sempre queremos protegê-las e isolá-las, quando deveríamos estar reforçando sua autoconfiança, habilidade de solucionar questões e autonomia”, ensina.

Polivitimização

Uma das consequências do bullying no ambiente educacional é a perda de confiança na escola, descobriu a especialista em prevenção em questões de saúde pública Bernice Garnett, da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos. Ela publicou um estudo no Journal of Child & Adolescent Trauma, no qual calculou o impacto da polivitimização — exposição a diversos tipos de hostilidade — no clima da escola, entre alunos do fundamental II e do ensino médio. Bullying, cyberbullying e assédio foram associados significativamente com decréscimo na percepção de segurança, conexão e igualdade no ambiente escolar. Todas essas questões têm relação direta com o desempenho acadêmico.

Da amostra de 2.589 estudantes, 43,1% sofreram ao menos uma forma de vitimização no colégio entre 2015 e 2016. Desses, 32% se disseram alvo de bullying, 21% de cyberbullying e 16,4% de assédio (definido como experiências negativas por causa da cor da pele, da religião, da nacionalidade, do gênero, da identidade sexual ou de deficiência). “Para cada forma de vitimização, o clima na escola cai vertiginosamente. Precisamos levar em conta que a vitimização é um conceito amplo, e passa por sérios ataques físicos a agressão verbal. Quando o bullying é motivado pela cor, identidade ou gênero do estudante, isso é, na verdade, discriminação”, diz.

De acordo com a pesquisadora, saber diferenciar os diversos tipos de violência sofrida na escola é importante para o direcionamento das políticas. “Programas de prevenção do bullying têm como foco ensinar os alunos a serem mais legais e terem mais empatia. Se um estudante está perseguindo alguém por causa de uma identidade que ele culturalmente foi ensinado a não tolerar, então, a conversa precisa ser diferente. É preciso fazê-lo pensar: ‘Ei, por que estou agindo assim? O que estou aprendendo em casa e na mídia, e como posso lidar com isso?’”, ensina.

Ambiente familiar é determinante

A escola e o ambiente virtual são os primeiros a serem responsabilizados pelo bullying, mas as famílias têm grande participação nesse problema. De acordo com uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), feita com 2.354 alunos de 10 a 19 anos em colégios públicos de Uberaba (MG), jovens que praticam ou são alvo desse tipo de violência geralmente vêm de famílias disfuncionais — aquelas envolvidas em muitos conflitos, em que o diálogo e a interação pouco acontecem. Já nos lares onde, além de funcionais, há regras estabelecidas e supervisão dos atos dos filhos, as crianças e adolescentes são menos propensos a praticar e a sofrer bullying.

O psicólogo Wanderlei Oliveira, professor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP e autor do estudo, diz que as pesquisas sobre bullying geralmente se concentram na escola e na relação entre alunos. “Temos de tirar essa ideia de que o bullying é uma questão da escola, porque existem outras variáveis, e a família é uma delas”, diz. Segundo o pesquisador, o ambiente familiar propício ao problema é aquele em que há violência física e/ou verbal, sem comunicação nem diálogo entre os integrantes. “O jovem não consegue romper com o ciclo da violência. Esse tipo de família gera uma dinâmica: é como se estivesse tudo bem praticar ou ser vítima de violência”, afirma.

De acordo com o pesquisador, uma das características familiares mais significativas associadas ao bullying é a falta de comunicação. “A vítima não tem condição de resolver sozinha, nem de pedir ajuda. É como o caso de Goiânia (do jovem que atirou contra colegas e deixou dois mortos): a escola não sabia, as famílias não sabiam, só os colegas sabiam. Nesse caso, o garoto não tinha a quem recorrer e a estratégia de resolução que ele pensou foi a de pegar a arma. É claro que quase nunca vai haver homicídios, mas é comum que as vítimas lidem com a situação se cortando ou desenvolvendo quadros de psicopatia”, observa.

Famílias disfuncionais não propiciam boas estratégias de resolução de conflitos adequadamente, afirma Wanderlei Oliveira. Dessa forma, também podem ser celeiros de praticantes de bullying. “Ao ter o exemplo em casa, o jovem entende que não tem problema fazer chacota, não tem problema usar violência contra os outros”, diz. “Temos de pensar o bullying de forma mais ampla. Enquanto ficarmos falando só de escola, muitas vítimas continuarão sofrendo caladas.”

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