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Correio Braziliense

Descoberta científica pode aumentar a eficácia de transplantes de medula

Pesquisa liderada por americanos mostra dois marcadores que podem ajudar a identificar as células-tronco mais eficientes na produção de células sanguíneas.


postado em 02/11/2017 06:00

O transplante de células-tronco é uma alternativa para restabelecer a função medular em uma série de problemas de saúde relacionados à função sanguínea, como leucemias, linfomas e anemias malignas. Para tornar o procedimento ainda mais eficiente, pesquisadores americanos identificaram um subconjunto específico de células-tronco que é exclusivamente responsável por “repovoar” todo o sangue e o sistema imunológico, após um transplante. Os achados foram vistos em um experimento com macacos e divulgados na última edição da revista americana Science Translational Medicine. Os investigadores acreditam que a descoberta pode ajudar a refinar um dos processos médicos mais importantes da área terapêutica.

 

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A célula-tronco hematopoiética (CTH) é responsável pela manutenção da produção dos diversos tipos de células sanguíneas: as hemácias, os linfócitos e os megacariócitos (dos quais se originam as plaquetas). Em procedimentos como o transplante de medula óssea, para fazer a coleta dessas células, os médicos buscam as CTHs que possuam um marcador chamado de CD34. Essa exigência garante que a produção de células sanguíneas ocorra no paciente que receberá o transplante.

No novo estudo, os cientistas encontraram mais dois marcadores envolvidos na eficiência das CTHs. “A população de células-alvo padrão para terapia de células-tronco é a das que possuem o marcador CD34. Mas usamos dois marcadores adicionais para distingui-las ainda mais das outras células-tronco do sangue”, explicou, em comunicado à imprensa, Stefan Radtke, um dos autores do estudo. Ele é pesquisador do Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores encontraram os novos marcadores ao realizar transplantes de medula em macacos. A equipe monitorou a atividade de centenas de milhares de células CTH nas cobaias. Nas observações, constataram que as CTHs com os marcadores CD34, CD45RA e CD90+ foram as mais bem-sucedidas na produção de células sanguíneas logo após o transplante. A equipe descobriu que essa subpopulação representava cerca de 5% de todas as células estaminais do sangue responsáveis pelo trabalho de recuperação inicial do sistema sanguíneo, realizado nos primeiros dias seguintes ao transplante. O número é bastante expressivo pelos cientistas.

O grau de importância dos novos marcadores foi reforçado quando os cientistas analisaram os animais, um ano depois, e encontraram fortes traços moleculares dessas células, indicando que o subgrupo se manteve como responsável pela manutenção contínua do sistema recém-transplantado. “Nossa capacidade de rastrear células sanguíneas individuais que se desenvolveram após o transplante foi fundamental para demonstrar que essas são realmente células-tronco extremamente importantes”, reforçou Jennifer Adair, coautora do estudo e professora na Universidade de Washington (EUA).

Os autores destacam que a descoberta dos novos marcadores acaba com uma suspeita antiga da área médica. De acordo com os investigadores americanos, antes acreditava-se que vários subtipos de células-tronco do sangue estariam envolvidos em diferentes tarefas, permitindo que um novo sistema sanguíneo pudesse se recompor. “Essas descobertas vieram como uma surpresa. Pensamos que existiriam vários tipos de células-tronco do sangue que assumiam diferentes papéis na reconstrução de um sistema sanguíneo. (…) Essa população faz tudo”, declarou Hans-Peter Kiem, também autor do estudo e pesquisador do Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson.

Refinamento necessário

Eduardo Flávio Oliveira Ribeiro, coordenador de Hematologia do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Hematologia (SBH), destaca que os achados internacionais são interessantes e abordam uma necessidade bastante visada por especialistas. “O estudo trata exatamente daquilo com o que lidamos no nosso dia a dia: maneiras de otimizar o uso de células-tronco. Chamamos de processo de mobilização a essa etapa na qual buscamos as células com o CD34. Para realizar o transplante, é preciso uma quantidade considerável de células desse grupo. Mostrando um subgrupo ainda mais específico, é possível otimizar o processo e aumentar as chances de eficácia”, destacou o especialista, que não participou do estudo.

Ribeiro ressalta que o refinamento da coleta das células proporcionaria uma melhora de todo o processo terapêutico. “Caso esse trabalho avance, o que eu prospecto para o futuro seria a capacidade de purificar esse enxerto. Isso faria com que os pacientes se recuperassem mais rápido. Quando realizamos o transplante e a produção das células sanguíneas se inicia no paciente, chamamos isso de 'pega'. Enquanto essa 'pega' não ocorre, ele se torna vulnerável a infecções. Quanto mais demora, mais ele tem chances de apresentar outros problemas. A otimização desse processo pode torná-lo menos sofrido e mais seguro”, reforçou o hematologista. Os autores pretendem dar continuidade ao estudo, e os planos futuros envolvem o mesmo tipo de análise em humanos, mas os cientistas ainda aguardam parceiros comerciais.

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