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Correio Braziliense

Quem são as 10 pessoas que mais impactaram o meio científico em 2017?

Revista Nature lista as 10 pessoas que mais impactaram positiva e negativamente o meio científico em 2017. Ranking não se limitou a cientistas. Há, por exemplo, um membro do governo Donald Trump e uma jovem que sobreviveu à leucemia


postado em 19/12/2017 06:57 / atualizado em 19/12/2017 07:14

Seja nos laboratórios, nos aceleradores de partícula ou nos tribunais, eles imprimiram o nome na história das inovações. Como todos os anos, a revista britânica Nature, uma das principais publicações científicas do mundo, elegeu os 10 nomes que mais fizeram diferença em seus campos de atuação. Novidades como a edição do genoma — técnica que já vinha sendo testada desde 2015, mas só agora tomou corpo — e descobertas como as ondas gravitacionais, previstas por Albert Einstein, porém, até então, somente uma teoria, não poderiam ficar de fora.

Contudo, a lista traz algumas surpresas. Nem todos ali são cientistas. Na verdade, um dos “10 mais” é uma menininha de apenas 12 anos. Seu feito? O maior deles: ela venceu a leucemia, inspirando uma nova e promissora classe de tratamento, a terapia Cart. Também longe dos tubos de ensaio, uma advogada norte-americana mereceu estar no rol da Nature, em reconhecimento a uma luta que tomou para ela desde a década de 1970: denunciar assédio sexual contra mulheres no ambiente acadêmico, mesmo que, para isso, seja preciso enfrentar instituições como Yale e Oxford.

Outra novidade na lista de 2017 é que nem todos que estão ali mereceram reconhecimento pelos benefícios ao desenvolvimento científico. Um dos nomes fez justamente o contrário, retrocedendo e praticamente acabando com a Agência de Políticas Ambientais dos Estados Unidos. “De comunicações quânticas e edição do genoma à ameaça de uma crise nuclear e o desmantelamento de proteções ambientais nos EUA, essa lista cobre os altos e baixos para a ciência e para cientistas em 2017”, explica Brendan Maher, editor de notícias da Nature. “Esses indivíduos deixaram uma marca indelével na ciência e não tenho dúvidas de que continuarão a impactá-la.”

(foto: Universidade de Harvard/Divulgação)
(foto: Universidade de Harvard/Divulgação)

1º lugar
David Liu, o “cirurgião químico”
Quem é: bioquímico do Instituto Broad



Lugares de destaque são com ele mesmo. Dos 1.641 estudantes de sua classe, na Universidade de Harvard, David Liu se formou em primeiro lugar. Agora, aos 44 anos, o californiano, filho de uma engenheira e de um físico aeroespacial taiuaneses, está no topo da ciência por ter aprimorado a tecnologia de edição do genoma Crispr-cas9, dispensando a necessidade de cortar pedaços do DNA. Considerado um avanço que poderá corrigir mutações genéticas, o método, porém, não é perfeito. Para consertar sequências das letras que são a base da construção dos genes, o Crispr-cas9 precisa recortá-las. Assim, corre-se o risco de novas mutações surgirem. Liu, porém, desenvolveu um novo conceito de edição, que corrige erros sem mutilar a estrutura de dupla hélice do DNA. A eficiência da técnica é 50% superior às demais.

Liu, que se autointitula um “cirurgião químico”, se considera um homem de hábitos simples, que, nas horas vagas, pilota (e projeta) aviõezinhos de brinquedo. Casado com uma química, ele tem uma história engraçada envolvendo a esposa. Autora do livro E l’uomo creò l’uomo: CRISPR e la rivoluzione dell’editing genomico (E o homem criou o homem: Crispr e a revolução da edição genômica), a bióloga italiana Anna Meldolesi define o trabalho do colega: “Com Liu, o Crispr passou de fantástico para formidável”.

(foto: Istituto Nazionale di Fisica Nucleare/Divulgaçao)
(foto: Istituto Nazionale di Fisica Nucleare/Divulgaçao)

2º lugar 
Marica Branchesi, a “fabricante de fusões”
Quem é: astrofísica da Universidade de Urbino Carlos Bo



Quando a primeira onda gravitacional foi detectada, em fevereiro de 2016, a ciência conseguia provar, pela primeira vez, a existência de ondulações no tecido do espaço-tempo, previstas por Albert Einstein há 100 anos. Desde então, o fenômeno, causado pela fusão de buracos negros, foi captado outras quatro vezes. Em agosto passado, novamente a onda foi detectada por 70 observatórios astronômicos de todo o mundo, com a observação de 3,5 mil cientistas (inclusive do Brasil). Dessa vez, a perturbação no tecido espaço-tempo foi causada pela fusão de duas estrelas de nêutron, um evento jamais testemunhado.

À frente das investigações, estava uma astrofísica italiana, Marica Branchesi, uma das colaboradoras do projeto Virgo, que opera o detector de ondas gravitacionais na cidade de Pisa. Apesar de um número imenso de cientistas estar envolvido na descoberta, ela tem um papel fundamental. “Marica tem sido a comunicadora-chave entre astrônomos e físicos”, ressalta Gabrietal Gonzáles, física da Universidade Estadual de Louisiana e ex-porta-voz do Virgo. Pesquisadores das duas áreas nem sempre conversam entre eles, o que coloca em risco o avanço das descobertas astrofísicas. Por conseguir unir físicos e astrônomos, a italiana de 40 anos é conhecida como “fabricante de fusões”.

(foto: Reprodução do Facebook)
(foto: Reprodução do Facebook)

3° lugar
Emily Whitehead, uma sobrevivente
Quem é: primeira criança a receber a terapia CAR-T



Ela tinha apenas 5 anos quando foi diagnosticada com leucemia linfoblástica aguda. Apesar de o índice de cura da doença em crianças ser de até 90%, a norte-americana voltou a ter o problema no ano seguinte. Com um transplante de medula marcado para 2012, novamente Emily sofreu um relapso, poucas semanas antes do procedimento. A leucemia era tão agressiva que os médicos acreditaram que já não havia o que fazer e recomendaram que a pequena fosse para casa.

Os pais de Emily, Tom e Kari, porém, não se contentaram com o prognóstico. Eles haviam lido algo sobre um tratamento ainda em teste, chamado CAR-T, que modifica geneticamente o sistema imunológico do doente para combater a leucemia. O casal conseguiu incluir a filha na fase 1 de um estudo clínico realizado no Hospital Pediátrico da Filadélfia e, assim, Emily se tornou a primeira pessoa no mundo a ter suas células de defesa treinadas para combater o câncer. Seis anos depois, a adolescente está com 12 anos e continua saudável. Na edição deste ano do maior congresso de hematologia do mundo, realizado em Atlanta, o CAR-T foi apontado como grande promessa para combater cânceres do sangue.

(foto: Saul Loeb/AFP)
(foto: Saul Loeb/AFP)

4º lugar
Scott Pruitt, o cético das mudanças climáticas
Quem é: administrador da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos



Dos muitos tropeços do presidente norte-americano Donald Trump, Scott Pruitt é um dos maiores. Formado em direito, o republicano de 49 anos é uma das poucas vozes que ainda se levantam contra a constatação científica de que os gases de efeito estufa são responsáveis pelas mudanças climáticas. Isso já seria péssimo vindo de um membro da administração pública. Mas é desastroso, considerando-se que Pruitt está à frente da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, a EPA, na sigla em inglês.

Logo após assumir o cargo, em fevereiro, restringiu ou suspendeu dezenas de regras ambientais que regulavam emissões, mineração e produção de resíduos perigosos para o ambiente. Na agência, demitiu cientistas de carreira e, no lugar deles, colocou empregados das indústrias poluentes que ele tanto defende. Pruitt não se importou — ao contrário, dizem que comemorou — com o corte de 40% no orçamento da EPA, proposto por Trump. A restrição financeira vai atingir diretamente o departamento de pesquisa, o que significará a demissão de mais cientistas. “Sabíamos que não teríamos uma administração de apoio à ciência, mas estou impressionada com as muitas formas criativas que ele encontrou para minar a ciência e os cientistas da agência”, diz Gretchen Goldman, do grupo de advocacy Union of Concerned Scientists.

(foto: Tengyun Chen/Divulgação)
(foto: Tengyun Chen/Divulgação)

5º lugar 
Pan Jianwei, o “pai da quântica”
Quem é: físico chinês e pesquisador da Universidade de Ciência e Tecnologia da China em Hefei



Ele levou a China à vanguarda da comunicação quântica de longa distância. Em junho passado, Pan anunciou ao mundo que havia batido o recorde de teletransporte quântico, mandando uma partícula eletromagnética, o fóton, desde um satélite em órbita, a 1,4 mil quilômetros, até a Terra. Em setembro, outro feito parecido saído de filme de ficção científica: o mesmo satélite foi usado para transmitir fótons de Pequim a Viena, gerando códigos encriptados que permitiram às equipes de cientistas que estavam nas duas cidades realizar uma videoconferência com total segurança. Com esse sistema, espera-se que hackers não possam atuar despercebidos.

O trabalho de Pan concentra-se, agora, no desenvolvimento da internet quântica: uma rede de satélites e equipamentos terrestres capazes de compartilhar informações em todo o mundo, com criptografias incapazes de serem reveladas. Aos 47 anos, o cientista é conhecido pelo otimismo e o entusiasmo, características que usa a seu favor para conseguir financiamentos para pesquisas. Ele está bastante confiante que o governo chinês bancará seu próximo projeto, orçado em nada menos que US$ 2 bilhões.

(foto: Nature/Divulgação)
(foto: Nature/Divulgação)

6º lugar
Jennifer Byrne, detectora de fraudes
Quem é: professora de oncologia molecular do Hospital Pediátrico de Westmead



Jennifer Byrne passa a vida analisando cânceres pediátricos e de adultos em nível molecular. Sua pesquisa de PhD mapeou perdas cromossômicas em tumores embrionários, de forma a identificar uma nova família de genes. À noite, enquanto o marido e os filhos assistem à tevê, a cientista tem outro hobby: localizar artigos científicos com erros ou fraudulentos. Seu trabalho de detetive da ciência já surtiu muitos efeitos. Diferentes revistas se retrataram da publicação de nove artigos, como resultado da investigação de Byrne. Sete apenas neste ano. Em outubro, ela e o especialista em tecnologia de informação francês Cyril Labbé lançaram um programa chamado Seek & Bastn para ajudar a detectar automaticamente problemas similares.

Embora muitos cientistas se desesperem com a quantidade de artigos plagiados ou fraudulentos que envergonham a literatura científica, poucos têm coragem de expor os colegas. “Byrne é motivada por sua crença de que a publicação de dados verdadeiros é primordial”, aponta Belinda Kramer, que trabalha com ela em Westmead. “Quando estiver no meu leito de morte, olharei para trás e realmente me sentirei orgulhosa”, diz a detectora de fraudes.

(foto: Nature/Divulgação)
(foto: Nature/Divulgação)

7º lugar
Lassina Zerbo, embaixador da paz
Quem é: secretário executivo da Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CBCTO)



Era um domingo de folga para Lassina Zerbo, mas ele foi acordado às 6h naquele 3 de setembro, com uma notícia assombrosa. Meia hora antes, o líder norte-coreano, Kim Jong-un, havia realizado seu sexto teste nuclear. Os dados sísmicos indicavam que, dessa vez, ele havia detonado a bomba mais poderosa já testada pelo país asiático, sacudindo a Terra com tanta força que houve um terremoto de magnitude 6,1. “Foi aterrador”, contou à Nature Zerbo, 54 anos, natural de Burkina Faso e secretário executivo da Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares.

À frente da organização que supervisiona testes nucleares em todo o mundo, Lassina Zerbo teve um ano difícil. Kim Jong-un e o presidente norte-americano, Donald Trump, trocaram ameaças cada vez mais agressivas, colocando um risco real de um conflito nuclear. Apesar dos desafios, Zerbo diz que não há nada mais gratificante que a associação entre ciência e diplomacia. Aos jovens, ele deixa um conselho: “A ciência tem de ser casada com a política para o mundo ser um lugar melhor”.

(foto: UNAM/Divulgação)
(foto: UNAM/Divulgação)

8º lugar
Víctor Cruz-Atienza, o “caçador de terremotos”



Em 19 de setembro de 1985, o México tremeu. Um terremoto de magnitude 8 devastou o país, especialmente a capital. Centenas de prédios construídos com alicerces frágeis desabaram, matando milhares de pessoas. Víctor Cruz-Atienza tinha 11 anos e vivia com os pais em uma casa de dois andares ao sul da Cidade do México. Embora todos tenham se salvado, aquela experiência o marcaria para sempre.

Atienza estudou geofísica e se especializou em falhas geológicas. Como chefe do Departamento de Sismologia do Instituto de Geofísica da Universidade Nacional Autônoma do México, desenvolveu modelos de comportamento de terremotos que se mostraram bastante precisos. Exatamente 32 anos depois do episódio que devastou seu país, um novo terremoto de magnitude 7,1, previsto por ele, voltou a atingir a Cidade do México. Dessa vez, porém, o número de mortos foi bem menor, principalmente porque as regras de construção civil ficaram mais rígidas após a tragédia de 1985. No mês passado, o geofísico começou uma colaboração com japoneses que resultou na instalação de instrumentos no fundo do mar, que devem predizer novos grandes terremotos e, assim, preparar melhor a população para enfrentá-los.

(foto: Nature/Divulgação)
(foto: Nature/Divulgação)

9º lugar
Ann Olivarius, veterana de uma luta
Quem é: advogada, processa responsáveis por abusos sexuais em universidades

 
 
Muito antes das campanhas de denúncia de abuso sexual, como a #MeToo, a advogada inglesa Ann Olivarius já havia comprado uma briga grande com instituições que, em princípio, inspiram sobriedade e respeito. Sem medo de enfrentar o tradicional meio acadêmico, ela lida, desde os anos 1970, com processos contra universidades, trazendo à luz casos de assédio e até mesmo estupro de alunas cometidos por professores. Em um dos mais emblemáticos, processou a Universidade de Yale, requerendo igualdade de gênero no campus.

Olivarius, 62 anos, trabalhou para muitos milionários, incluindo Goldman Sachs. Com dinheiro de sobra, ajudou a fundar um escritório de advocacia que luta contra abuso sexual infantil. Desde 1996, ela e o marido, o jornalista Jef McAllister, se tornaram porta-vozes de mulheres agredidas no meio acadêmico, perseguindo com ferocidade os algozes dentro dos tribunais. Neste ano, com a onda de denúncias na indústria de entretenimento e das comunicações, a veterana comemora muitas vitórias. “Acho que agora reconhecemos o problema. Uma vez que a sociedade reconhece isso, temos uma chance melhor de tentar resolvê-lo”, afirmou à Nature. 

(foto: Petra AH/Divulgação)
(foto: Petra AH/Divulgação)

10º lugar
Khaled Toukan, diplomata científico
Quem é: diretor do Síncrotron para Ciência Experimental e Aplicações no Oriente Médio (Sesame)

 
 
Ele conseguiu algo raro: colocar Israel, Irã e Autoridade Palestina na mesma sala, algo que só acontece nas reuniões da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas, em vez de conflitos, o que une esses e outros países do Oriente Médio sob o comando do jordaniano Khaled Toukan, 63 anos, é a ciência. O engenheiro é fundador e diretor de um projeto de cooperação internacional que une países rivais em torno de um campo de investigações — o de acelerador de elétrons — com grande potencial para inovações na medicina, na indústria farmacêutica e na agricultura, entre outros.

Apesar de tantos elementos apontarem para o insucesso da empreitada e de muitos céticos que duvidavam do Sesame, o projeto foi adiante. Toukan espera que a iniciativa seja um incentivo para novas colaborações entre países árabes. “Muitos não acreditaram que iríamos em frente. Mas agora é a hora. O Sesame é real.”

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