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Correio Braziliense

Pesquisadores fazem bloqueio genético para a surdez

Os resultados do uso desse método renovam a expectativa quanto ao desenvolvimento de tratamento em humanos


postado em 21/12/2017 06:00

 

Quase metade de todos os casos de surdez tem uma raiz genética e as opções de tratamento são bastante limitadas. Para mudar esse cenário, pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, utilizaram uma técnica de edição para eliminar uma mutação do DNA que “sabota” a audição. Os cientistas usaram o CRISP-Cas9, método que consegue cortar genes indesejados. A intervenção rendeu os resultados esperados. A mutação que causa surdez foi eliminada nos animais, o que evitou a perda de audição das cobaias. Publicados na última edição da revista Nature, esses achados podem resultar em uma técnica de tratamento com início ainda na infância.

 

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Os autores do estudo destacam que a alteração de genes foi explorada como técnica para tratar a surdez genética não apenas devido à falta de opções para enfrentar o prolema de saúde, mas também pela forte promessa de resultados concretos. “Embora os fatores genéticos contribuam para quase metade de todos os casos de perda de audição, as opções de tratamento para surdez genética são escassas. Desenvolvemos uma abordagem de edição de genoma pois acreditamos que essa tecnologia pode chegar a uma posição dominante, trazendo eficácia no tratamento desse problema de saúde quando sua origem é hereditária”, explicaram os autores no estudo, liderado por David Liu, pesquisador da Universidade de Harvard.

Uma das mutações que causa a surdez está presente em um gene chamado de Tmc1. A cópia extra dessa peça genética, apelidada pelos especialistas de Beethoven, provoca a perda das células ciliadas do ouvido interno (a parte mais profunda), que são as encarregadas de detectar o som. A diminuição dessas células ao longo do tempo provoca a perda progressiva de audição, levando à surdez grave, tanto em humanos quanto em camundongos.

Em busca de uma maneira de eliminar Beethoven, os cientistas escolheram uma técnica de edição genética bastante explorada na área médica, chamada de CRISPR-Cas9. A Cas9 é uma enzima que atua como tesoura molecular, cortando o DNA e desativando um gene. Os cientistas explicam que direcioná-la apenas para a cópia maléfica de Tmc1 é um processo complicado, porque as duas se diferem por apenas uma letra de DNA. Para evitar problemas, os autores do estudo usaram uma metodologia diferente, eles embalaram Cas9 e seu RNA — um guia durante o processo de corte do gene — em uma espécie de pacote engordurado, que desliza dentro das células, evitando que a enzima fique “vagando” e causando problemas.

Com o uso da técnica de aplicação, os cientistas injetaram CRISPR na parte mais profunda dos ouvidos de filhotes de camundongos com a mutação de Tmc1. O método obteve sucesso, pois permitiu que Cas9 atingisse Beethoven e desaparecesse logo em seguida, sem prejudicar o gene original. Após oito semanas, os pesquisadores observaram que as células ciliadas dos animais tratados se assemelhavam às de animais saudáveis. Já as dos camundongos não tratados estavam danificadas e escassas.

Os pesquisadores também mediram a capacidade auditiva dos ouvidos internos dos ratos, por meio de eletrodos nas cabeças dos animais, que monitoraram a atividade das regiões cerebrais envolvidas na audição. Em média, após quatro semanas, os ouvidos tratados conseguiram captar sons de 15 decibéis, número bastante superior aos ratos que não foram submetidos à terapia. “Nós observamos maiores taxas de sobrevivência de células capilares, o que mostra como a perda auditiva foi evitada”, destacaram os autores no trabalho.

Na infância
Os pesquisadores acreditam que mais pesquisas são necessárias para realizar o mesmo procedimento em humanos, mas adiantam que o tratamento poderia ser mais eficaz durante a infância, impedindo uma perda maior e irreversível das células ciliadas. “O pensamento convencional no campo é que, uma vez que você perdeu suas células ciliadas, é difícil recuperá-las”, detalhou Liu em um comunicado à imprensa. “Esperamos que esse trabalho resulte no desenvolvimento de uma cura para certas formas de surdez genética nas pessoas”, complementou o autor.

Gustavo Guida, geneticista do Laboratório Exame, em Brasília, também se mostrou otimista quanto ao uso da técnica desenvolvida pelos cientistas em seres humanos. “A perda auditiva e a perda visual, principalmente quando combinadas, são muito frequentemente provocadas por doenças genéticas, degenerativas, com mutações com um mecanismo muito similar à dos camundongos”, frisou o especialista, que não participou do estudo.

O geneticista considerou o estudo americano vitorioso por ter utilizado a técnica de edição de DNA de forma eficaz. “É um dos melhores exemplos do desenvolvimento da tecnologia CRISPR. E interessante também por que uma parte considerável das perdas auditivas humanas ocorre por mutações em poucos genes, bem conhecidos, indicando uma aplicação muito mais rápida para a técnica, e mais segura, sem a necessidade de manipulação de embriões, por exemplo”, opinou Guida, que não participou do estudo.

Na avaliação do especialista, o uso da tecnologia pode ser expandido para o tratamento de outras enfermidades. “Ela é a primeira técnica de edição gênica com segurança razoável desenvolvida, e que pode ser facilmente desenhada para aplicação em novas doenças. As propostas anteriores envolviam manipulação viral (uso do vírus para terapia), e eram extremamente específicas, necessitando um longo processo de desenvolvimento para cada tratamento diferente”, destacou.


Palavra de especialista

Esperança de cura

“Quando o compositor Ludwig van Beethoven percebeu que sua audição estava falhando, aos 32 anos, ele escreveu para seus irmãos: ‘como as folhas do outono murcham e caem, então minha própria vida se tornou estéril’. Embora a causa da surdez de Beethoven seja desconhecida, há muitos exemplos de perda de audição na vida adulta que estão ligados à herança de alterações de DNA. Dois séculos mais tarde, técnicas para evitar formas hereditárias de surdez estão finalmente se aproximando de implementação na área clínica, dado o crescimento do uso de engenharia genética. Embora Beethoven nunca tenha ouvido sua famosa Oda a la Alegria, estamos chegando mais perto do dia em que indivíduos com mutações causadoras de surdez poderão ser tratados por meio da edição de genes, e, dessa forma, a perda auditiva poderá ser evitada.”

Fyodor Urnov, pesquisador do Instituto de Pesquisa Científica Altius, nos Estados Unidos, em um artigo opinativo publicado na revista Nature



Talento preservado

Ludwig von Beethoven foi um compositor alemão que perdeu a audição progressivamente, entre os 20 e os 50 anos. Por não ter nascido surdo, ele possuía uma memória auditiva exemplar, que lhe permitiu dar continuidade ao seu trabalho mesmo após depois de não ouvir mais. A Nona sinfonia, sua obra mais conhecida, foi desenvolvida pouco antes da morte do compositor e declarada patrimônio mundial da Unesco em 1827.

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