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Correio Braziliense

Nova substância promete avanços no tratamento contra o linfoma de Hodgkin

Combinada com quimioterapia, tratamento consegue atacar as células doentes do sangue sem comprometer as saudáveis. Voluntários submetidos ao tratamento experimental têm redução de 23% no risco de progressão do câncer ou morte


postado em 03/01/2018 06:00 / atualizado em 04/01/2018 10:54

Joseph M. Connors, autor do estudo: É a primeira vez que uma droga destinada a tirar proveito de uma característica biológica específica das células desse câncer é utilizada no tratamento inicial da doença(foto: Phil McCarten/ASH/Divulgação)
Joseph M. Connors, autor do estudo: É a primeira vez que uma droga destinada a tirar proveito de uma característica biológica específica das células desse câncer é utilizada no tratamento inicial da doença (foto: Phil McCarten/ASH/Divulgação)

Atlanta, Georgia (EUA) — No mundo, milhões de pacientes se beneficiam das mais recentes conquistas da medicina contra o câncer, embora a doença siga em avanço, com novas particularidades e alguns tipos mais resistentes aos tratamentos tradicionais. Para os médicos, drogas eficazes são primordiais para garantir o máximo de tempo livre de progressão da doença. Para quem tem carcinomas, a preocupação vai além: é essencial uma medicação que funcione, mas que seja tolerável. Mais de 30 mil pessoas reunidas na 59ª edição do Congresso da Sociedade Americana de Hematologia (ASH17), em Atlanta, acompanharam a divulgação de diversos estudos sobre novas terapias-alvo, que buscam justamente esse efeito: atacar o câncer em nível molecular, ou seja, atingi-lo diretamente sem prejudicar as células saudáveis do paciente.
Uma das notícias mais animadoras tem como objetivo o combate ao linfoma de Hodgkin (LH). De acordo com o autor do estudo Echelon-1, o diretor clínico do British Columbia Cancer Agency Center, em Vancouver (Canadá), Joseph M. Connors, os pacientes foram tratados com um conjugado anticorpo fármaco (ADC, na sigla em inglês), o brentuximab vedotin (BV), da Seattle Genetics. Associado a um tratamento quimioterápico, o anticorpo monoclonal se conecta diretamente aos receptores das células desse tipo de câncer (CD30) e passa a matá-las. É a primeira vez que uma droga destinada a tirar proveito de uma característica biológica específica das células desse câncer é utilizada no tratamento inicial da doença.

Os resultados representam um ganho importante, principalmente para pacientes que não respondem ao primeiro curso do tratamento, chamado de primeira linha. Os voluntários submetidos a testes com a substância tiveram redução de 23% no risco de progressão da doença ou morte, em comparação com aqueles que receberam o regime padrão inicial de tratamento. A maior vitória, segundo os especialistas, é o fato de a abordagem evitar a necessidade de terapia adicional e mais intensiva. “Os resultados do estudo representam o primeiro esforço bem-sucedido em mais de 30 anos para melhorar os resultados do tratamento de primeira linha em pacientes com LH avançado, sem aumentar a toxicidade da quimioterapia para níveis inaceitáveis”, disse Connors.

O tratamento padrão para o linfoma de Hodgkin não mudou desde a década de 1970. Hoje, aproximadamente 30% dos pacientes não respondem ao tratamento original. No estudo, 1.134 voluntários com a doença em estágio avançado e não tratada foram aleatoriamente selecionados para receber ABVD — o tratamento atual, que usa as drogas adriamycin, bleomicina, vinblastina e decarbazina — ou o BV associado a doxorrubicina, vinblastina e dacarbazina (AVD). Embora a segunda combinação tenha causado mais danos aos nervos, houve menos episódios de febre e neutropenia (baixo nível de glóbulos brancos). A combinação experimental retirou a bleomicina, que foi associada ao dano pulmonar e, às vezes, à morte. “Se esse novo regime for amplamente adotado, ele mudará o tratamento de primeira linha do LH avançado”, afirmou o especialista.

(foto: Arte/CB/DA Press)
(foto: Arte/CB/DA Press)

Alto custo é impasse ao tratamento

O oncologista e hematologista Daniel Tabak, do Rio de Janeiro, acompanhou a apresentação dos resultados e destacou que a imuno-oncologia, como é chamada essa especialidade, vem dominando todos os aspectos que certamente tomarão conta desse novo cenário contra o câncer no mundo. Ele também ressaltou que o brentuximab pode, potencialmente, substituir o tratamento existente, que conta com uma série de complicações. “Para o Brasil, o desafio é grande e precisamos, claro, ter alguns cuidados antes de implantar esse novo conhecimento. Mas é um grande avanço poder retirar e suprimir a bleomicina”, destacou.

Opinião semelhante é a do hematologista Guilherme Perini, do Hospital Albert Einstein, que ressalta que o valor da medicação será um impasse para o medicamento no Brasil. “O estudo é grande e bem-feito, mas ainda não vai ser tão fácil de incorporar à nossa realidade por conta de custos. Mas, em relação à toxicidade, o resultado é muito bom. A quimioterapia está ficando para trás”, analisou.

As reações adversas das medicações tradicionais são um dos grandes desafios da imuno-oncologia. A quimioterapia, por exemplo, é necessária na maioria dos tratamentos contra câncer, mas é extremamente agressiva ao doente, porque funciona matando células no corpo que estão crescendo e se dividindo rapidamente. A químio ainda não é capaz de distinguir as células doentes das saudáveis e acaba matando todas, um efeito por vezes devastador à imunidade do paciente.

As terapias-alvo, em contrapartida, neutralizam as características genéticas que tornam as células cancerígenas diferentes das normais, evitando que elas aumentem e se espalhem. Como essas intervenções são projetadas especificamente contra células de câncer, segundo os pesquisadores, elas geralmente têm efeitos colaterais diferentes e mais suportáveis.

Combinações promissoras

Outras pesquisas divulgadas na 59ª edição do Congresso da Sociedade Americana de Hematologia confirmaram o potencial dos anticorpos monoclonais no combate a cânceres de sangue de forma mais direcionada. Dois medicamentos de uso recente no Brasil e em outros países tiveram seus efeitos apresentados. O estudo intitulado Centaurus detalhou a ação do daratumumabe, da Janssen-Cilag Farmacêutica, no estágio inicial e assintomático do mieloma múltiplo, câncer de sangue incurável que ocorre quando os plasmócitos (células responsáveis pela produção de anticorpos) crescem sem controle na medula óssea. Essa terapia contra a doença, mais frequente a partir dos 60 anos de idade, é indicada apenas a pacientes que não respondem a tratamentos anteriores.

Também divulgado, o estudo Alcyone mostrou que o daratumumabe combinado com bortezomide, melphalan e prednisona conseguiu reduzir pela metade o risco de progressão do mieloma múltiplo ou de morte de pacientes recém-diagnosticados que não podem realizar transplante de medula. O daratumumabe é o único aprovado para o tratamento do mieloma no Brasil. Antes, o tratamento convencional era feito com quimioterapia, drogas antineoplásicas, administração de corticoides ou transplante de medula óssea.

O hematologista e chefe do Serviço de Hematologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Angelo Maiolino, ressaltou que os novos medicamentos estão revolucionando o combate ao mieloma. “E o daratumumabe realmente vai ser o padrão para o tratamento daqui em diante, principalmente na primeira recidiva do paciente. É uma droga fundamental”, afirmou. Diretora médica da Janssen Brasil, Telma Santos ressalta que a qualidade de vida do paciente é um fator cada vez mais considerado nos tratamentos oncológicos. “Não adianta você dar um remédio que vai massacrá-lo. Pode ser um remédio potencialmente eficaz, mas sem segurança, não adianta. Busca-se qualidade principalmente para um paciente politratado, ou seja, que já passou por várias linhas de tratamento.”

Sobrevida

A atualização do uso da substância ibrutinibe, da mesma farmacêutica, que é usada há pouco mais de três anos no tratamento de leucemia linfocítica crônica (LLC) e, desde 2016, para vários tipos de linfoma, também foi apresentada no congresso. Três estudos clínicos demonstraram resultados positivos contra o linfoma de células do manto e embasaram o uso precoce dele para doenças recidivantes (que retornam várias vezes) ou refratárias (que não respondem aos medicamentos). A mediana de tempo de sobrevida livre de progressão da doença foi de 33 meses.

Os estudos também sinalizaram que eventos adversos ocorridos no início do tratamento tendem a diminuir com o tempo e são menos comuns quando o tratamento é iniciado precocemente. O ibrutinibe funciona bloqueando a proteína tirosina-quinase de Bruton (BTK), que é responsável por manter a célula maligna viva. Outra vantagem da substância é que se trata de um antineoplásico oral, ou seja, pode ser administrada pelo próprio paciente em casa, o que o livra de uma internação. (JS)

* A repórter viajou a convite da Janssen Brasil

Palavras de especialistas

Hematologistas falam sobre a importância das terapias-alvo contra células de câncer, garantindo qualidade de vida para pacientes e com efeitos melhores já no tratamento inicial de doenças


“Não vou dizer que isso é uma tendência, mas o que é buscado e desenvolvido hoje é a possibilidade de um médico não tratar uma doença, mas ele tratar a doença daquele paciente. Por meio dos exames que você faz nele é que se tem acesso a diversos marcadores moleculares e, a partir daí, é que se consegue tratar aquele paciente com aquela doença específica e com substâncias-alvo.”

Gustavo Bettarello, médico hematologista do Grupo Acreditar e chefe da Unidade de Transplantes de Medula Óssea (TMO) do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF)


“Cada vez mais entra no balanço a questão da qualidade de vida do paciente, porque não adianta você dar um remédio que vai massacrar o paciente. Pode ser um remédio potencialmente eficaz, mas sem segurança não adianta. O tratamentos hoje passaram alvo, porque atacam uma específica mutação, alteração da célula. É qualidade principalmente para um paciente poli tratado, ou seja, que já passou por várias linhas de tratamento. Você não pode dar um tratamento a qualquer custo.”

Telma Santos, diretora médica da Janssen Brasil


“A mudança na qualidade de vida do paciente é uma coisa entusiasmante. Hoje a gente já está tratando câncer com comprimido, as combinações são quase todas livres de quimioterapia. Antes, a gente indicava transplante para a maioria dos pacientes (com mieloma). Hoje a gente indica para uma minoria. O tratamento é praticamente baseado na biologia: você vai guiando seu tratamento de acordo com ela, ou seja, não é mais um tratamento para todas as doenças, você vai pegando dados do paciente e, com base neles, vai montando o melhor tratamento.”

Guilherme Perini, hematologista no Hospital Albert Einstein

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