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Correio Braziliense

Novo método anti-HIV substitui pílula diária por tratamento semanal

Pesquisa apresenta forma de aplicação de medicamentos, ainda em teste pré-clínico, que promete facilitar o tratamento e reduzir os efeitos colaterais nas pessoas infectadas com o vírus da Aids


postado em 09/01/2018 14:20 / atualizado em 09/01/2018 14:18

Imagens mostram o remédio em formato de estrela: capacidade para entregar até 6 drogas gradualmente no organismo do paciente(foto: Divulgação)
Imagens mostram o remédio em formato de estrela: capacidade para entregar até 6 drogas gradualmente no organismo do paciente (foto: Divulgação)

Um dos principais desafios para tratar a síndrome de imunodeficiência adquirida (Aids) é o fato de os próprios pacientes não aderirem à terapia antirretroviral (TARV). O tratamento é imprescindível para reduzir a morbidade e a mortalidade relacionada ao vírus HIV, mas os obstáculos são muitos: além do estigma que sofrem ao revelar que têm o vírus, os pacientes precisam tomar uma grande quantidade de comprimidos por dia e combinar várias drogas, que causam muitos efeitos colaterais. O tratamento ainda exige o cumprimento de horários rigorosos e alterações na alimentação para evitar desconforto.

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Um estudo publicado pela revista científica Nature Communications, nesta terça-feira (9/1), descreve um modelo inovador de tratamento contra o HIV, ainda em fase de teste pré-clínico — com aplicações apenas em suínos —, que foca exatamente no dilema da não adesão dos pacientes ao modelo convencional.
 
Durante as pesquisas iniciais, a equipe constatou, por meio de ensaios clínicos, que apenas cerca de 30% dos pacientes seguem os planos diários de dosagem, o que complica a eficácia do remédio.
 
O novo método, desenvolvido por pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital (BWH), ligado ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), ajuda a resolver esse problema ao exigir que o paciente ingira uma só pílula semanalmente. O composto, então, permanece no estômago ao longo de vários dias, liberando os medicamentos prescritos gradualmente. 

Segundo o gastroenterologista e engenheiro biomédico Giovanni Traverso, um dos autores da pesquisa, "esses sistemas de liberação lenta de dosagens são iguais ou melhores do que as doses diárias atuais para tratamento de HIV". 

As fases do medicamento no estômago do paciente: bons resultados no tratamento contra o HIV e em pessoas que estão em risco constante de exposição ao vírus(foto: Reprodução)
As fases do medicamento no estômago do paciente: bons resultados no tratamento contra o HIV e em pessoas que estão em risco constante de exposição ao vírus (foto: Reprodução)

 
Estrela contra o HIV 

 
O projeto, iniciado em 2016, consiste em uma cápsula que, ao entrar em contato com os líquidos presentes no estômago, se desdobra em uma estrutura no formato de uma estrela grande o suficiente para não passar pelo piloro, uma abertura que faz a conexão entre o estômago e o intestino delgado.
 
O formato da droga permite ainda que os alimentos continuem passando livremente pelo sistema digestivo. “Os braços proporcionam rigidez e a cápsula contém polímeros (macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores) e outros materiais para permitir que a droga se difunda lentamente”, afirma o estudo. As cápsulas são projetadas para, depois da liberação total do fármaco, se desintegrarem em componentes menores que podem passar pelo trato digestivo.

O médico infectologista Valdez Madruga, que é coordenador do Comitê HIV/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), vê com otimismo a busca por tratamentos desse tipo. "É um sistema interessante de ação, mesmo que ainda em fase tão inicial. Ele consegue entregar até seis tipos de drogas diferentes por semana. Isso, quando for testado em humanos, vai representar um grande avanço para quem vive com a doença", analisa. 

 
Redução dos efeitos colaterais  

 
Segundo Valdez Madruga, esquecer o horário de tomar o remédio é um fator recorrente e há casos em que os pacientes simplesmente se cansam de tomar tantas drogas. Mas, em sua opinião, o maior avanço da nova técnica seria a redução dos efeitos colaterais, que interferem muito na qualidade de vida do paciente.
 
"É o caso daquele paciente, por exemplo, que sabe que o tratamento causa diarreia ou tontura e tem um compromisso para ir. Ele deixa de tomar o remédio naquele dia, para não passar por um constrangimento e não interromper o compromisso", explica.

O infectologista destaca que, quanto menos o medicamento interfere na rotina da pessoa, mais fácil é a adesão e, consequentemente, mais eficaz é o remédio. "Outro agravante é que, ao não tomar o remédio, o vírus adquire resistência. Estudos já demonstraram que, quando o paciente não tem um nível regular da medicação no sangue, o vírus se multiplica rapidamente e desenvolve uma mutação. Essas mutações acabam causando a resistência ao remédio que o paciente já usa e também a outros medicamentos da mesma classe que poderiam ser usados."

Risco constante de infecção

 
A formulação oral menos invasiva também mira outro desafio: evitar a contaminação de pessoas que estão em risco constante de exposição ao vírus. Os cálculos deles apontam que a redução de doses diárias para uma semanal pode melhorar a eficácia do tratamento preventivo em aproximadamente 20%. As projeções do tratamento em um modelo de transmissão de HIV na África do Sul mostraram, segundo os pesquisadores, que entre 200 mil e 800 mil novas infecções podem ser prevenidas nos próximos 20 anos. Cientistas da empresa Lyndra, que contribuiu para o estudo, trabalham agora para realizar um ensaio clínico usando o medicamento em seres humanos.

O diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, afirma que a implementação mais ampla dessas abordagens "são necessárias para acabar com a pandemia do HIV." A previsão é que a nova técnica também seja adaptada ao tratamento de outras doenças. Com a forma como eles projetaram os braços poliméricos da cápsula, é fácil trocar as drogas que são acopladas a ela, porque, segundo o estudo, o sistema central permanece o mesmo. A equipe também trabalha na produção de cápsulas que poderiam permanecer no corpo por períodos de tempo ainda mais longos.
 

Antirretrovirais disponíveis no SUS

 
Os tratamentos antirretrovirais surgiram na década de 1980. Eles não matam o HIV, mas ajudam a evitar o enfraquecimento do sistema imunológico, por isso, o uso é fundamental para aumentar o tempo e a qualidade de vida do paciente. No ano passado, o Ministério da Saúde ampliou a oferta do antirretroviral dolutegravir no tratamento de todos os pacientes com HIV no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A expansão representou um avanço nos tratamentos anteriores, já que a droga é considerada um dos melhores tratamentos para a Aids no mundo, com alta potência e um nível muito baixo de efeitos colaterais. 

De acordo com a pasta, a substância era receitada, desde o início do ano, para novos pacientes soropositivos, e também para as pessoas que tiveram efeito colateral com a efevirenz — medicação usada até então —, que totalizava cerca de 100 mil pessoas. A expectativa que todos os infectados com HIV possam ser medicados com o remédio até o fim de 2018.

Segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 842.710 casos de Aids no período de 1980 a junho de 2016. Nos últimos cincos, o país tem registrado uma média de 41,1 mil novos casos anuais. Em relação à mortalidade, de 1980 até dezembro de 2014, foram identificados 303.353 óbitos cuja causa básica foi a Aids. Houve uma redução de 5% nos últimos anos, passando de 5,9 óbitos por ano por 100 mil habitantes, em 2006, para 5,6 óbitos em 2015.

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