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Correio Braziliense

Aquecimento global tem afetado o metabolismo dos ursos polares

Com dificuldade para caçar,não conseguem a alta quantidade de energia necessária para o funcionamento do corpo e acabam morrendo de fome


postado em 02/02/2018 06:00

Os ursos polares têm gasto energético até 21% superior ao de bichos semelhantes: o valor é maior do que o estimado por especialistas (foto: Anthony Pagano/Divulgação)
Os ursos polares têm gasto energético até 21% superior ao de bichos semelhantes: o valor é maior do que o estimado por especialistas (foto: Anthony Pagano/Divulgação)


No fim do ano passado, uma imagem postada no site da National Geographic viralizou e comoveu o mundo ao mostrar um urso polar depauperado, magérrimo e com o pelo todo falho, tentando encontrar comida em um Ártico canadense derretido e inóspito para um animal que precisa do gelo para caçar, reproduzir e se deslocar. Agora, mais um estudo reforça que o aquecimento do planeta ameaça esses mamíferos de extinção. O trabalho, publicado na revista Science, mostra que o metabolismo dos ursos polares é diretamente afetado pelas mudanças climáticas.

 

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Segundo Anthony Pagano, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, nos Estados Unidos, e principal autor do artigo, embora o declínio nas taxas de sobrevivência desses animais associado ao aquecimento global já tenha sido alvo de muitas pesquisas, até agora, pouco se sabe sobre como isso influencia o funcionamento do corpo deles. “O que nós fizemos foi identificar os mecanismos fisiológicos que estão causando o declínio nas populações de ursos polares ao avaliar a necessidade energética desses animais e a frequência com que conseguem caçar as focas, que são a base de sua alimentação”, explica. O resultado, descrito no artigo, mostra que os ursos selvagens têm um metabolismo muito acelerado, o que exige uma recomposição energética alta. Com as alterações no habitat, eles não conseguem repor as calorias necessárias e acabam, literalmente, morrendo de fome.

Em períodos que duravam de oito a 11 dias, os pesquisadores da universidade e da U.S. Geological Survey (USGS) monitoraram o comportamento dos animais, inclusive a frequência das caçadas e a taxa de deslocamento. As medições foram feitas por meio de uma coleira com GPS, que também grava vídeo, colocada nos animais. Além disso, os cientistas fizeram, em animais cativos, testes de taxa metabólica em repouso (TMR), um exame que representa o gasto energético necessário para manter o corpo em funcionamento e em repouso. O estudo foi realizado na primavera, a principal temporada de caça desse animal.

Os resultados revelaram que o metabolismo do urso polar é 50% mais acelerado do que se imaginava e fica acima do de outros carnívoros com índice de massa corporal semelhante. Ou seja, para que o corpo desses mamíferos funcione plenamente, ele precisa de uma ingestão calórica muito alta porque, mesmo em repouso, gasta muita energia. Em termos percentuais, o urso polar tem gasto energético até 21% superior ao de outros ursos. “Isso, associado à baixa ingestão de presas marinhas ricas em gordura, resultou em um deficit energético em mais de metade dos ursos examinados”, diz Pagano.

O biólogo ressalta, ainda, que o TMR aferido refere-se ao estado de repouso e, na natureza, há um gasto de calorias muito maior. Principalmente quando, para encontrar alimentos, os ursos polares precisam se deslocar por áreas cada vez mais extensas, já que a comida está rareando em seu habitat. “A atividade e o movimento no mar congelado influencia fortemente as demandas metabólicas dos ursos polares”, explica Pagano.

De acordo com o biólogo, no Mar Ártico, as mudanças climáticas têm provocado “efeitos dramáticos”, forçando os ursos a se mover mais do que o normal e dificultado o acesso às presas. No Mar Beaufort, região da pesquisa, as camadas de gelo começam a se destacar do continente em julho, e os mamíferos movem-se para o norte na parte congelada, à medida que ela se retrai. Como os polos estão aquecendo e mais gelo derrete, os animais precisam se deslocar por distâncias muito maiores do que antes. Isso faz com que gastem mais energia no verão do Hemisfério Norte, quando, normalmente, se alimentam com maior frequência, até que o gelo volte para a porção continental, no inverno. Segundo Pagano, o fenômeno pode ser um importante fator para explicar a redução observada na condição física dos ursos polares e nas taxas de sobrevivência dos animais.

Perda de massa

No estudo, cinco dos nove ursos acompanhados no Ártico perderam massa corporal, significando que não estavam adquirindo alimentos suficientemente ricos em gordura para atender às demandas energéticas. De acordo com o biólogo, pesquisas anteriores tentaram estimar as taxas metabólicas desses carnívoros, assim como os gastos calóricos, baseados em algumas suposições sobre a fisiologia e o comportamento da espécie. Por exemplo, como eles são caçadores menos ativos — não saem perseguindo as presas, mas ficam à espreita delas, aguardando o melhor momento para capturá-las —, acreditava-se que isso pouparia as perdas energéticas durante uma caçada. Além disso, os pesquisadores especularam que, para economizar gordura, nas épocas de escassez de focas, o metabolismo do animal naturalmente ficaria mais lento.

Mas não foi nada disso que o estudo de campo constatou. “Na verdade, é o contrário. Os ursos têm demandas energéticas muito maiores do que imaginávamos. Eles precisam pegar muito mais focas”, diz Pagano. De acordo com ele, na primavera, o trabalho de capturar o alimento é relativamente mais fácil porque, nessa estação, as presas marinhas estão jovens. No inverno, elas já cresceram e, espertas, tornam penoso o trabalho de caçá-las.

Para o biólogo John P. Whiteman, do Departamento de Biologia da Universidade do Novo México, o trabalho de Pagano é inovador ao sair do campo das suposições e demonstrar, de fato, por que a população de ursos polares está em declínio. “Agora os custos energéticos podem ser modelados de maneira mais precisa”, observa. O especialista, que não participou do estudo, observa, porém, que é preciso aprofundar as pesquisas nesse sentido, fazendo medições metabólicas em todas as estações, especialmente no inverno, quando os ursos polares hibernam em períodos que variam de dias a semanas. “Não se sabe se há uma redução metabólica dependendo da estação do ano”, argumenta.

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