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Correio Braziliense

DNA pode interferir na forma como zika age nas mães e nos fetos

Pesquisadores da USP identificam genes ligados ao desenvolvimento do sistema nervoso que se expressam distintamente em bebês com microcefalia. A descoberta sinaliza que o DNA pode interferir na forma como o zika vírus age nas mães e nos fetos


postado em 03/02/2018 08:00

A síndrome congênita é um dos maiores problemas gerados pelo zika durante a gestação, pois pode provocar alterações no cérebro que afetam o desenvolvimento do feto, como a microcefalia. Pesquisadores brasileiros investigam se existe uma raiz genética capaz de explicar por que a complicação não acomete todas as grávidas infectadas pelo vírus. Em um levantamento com bebês, descobriram uma série de genes relacionados a uma maior suscetibilidade à má-formação neural provocada pela infecção. Os achados foram publicados na última edição da revista britânica Nature Communications e podem contribuir para estratégias de prevenção à doença.

Segundo a equipe de investigadores, a estimativa é de que de 6% a 12% das gestantes infectadas pelo zika terão bebês nascidos com a síndrome. “Isso foi algo que nos chamou a atenção desde o começo. Nem todas as mães eram afetadas por esse problema. Com isso, tentamos descobrir se existia um fator de risco maior em quem sofreu com a microcefalia ou um fator de proteção naquelas que não foram afetadas”, conta ao Correio Mayana Zatz, uma das autoras do estudo e professora de genética da Universidade de São Paulo (USP).

Os pesquisadores analisaram 91 bebês, afetados e não afetados pelo vírus e de diversos estados brasileiros, na tentativa de entender melhor a ação do vírus durante a gravidez. Do grupo, selecionaram nove pares de gêmeos para um estudo mais aprofundado. Segundo Zatz, os gêmeos fornecem informações únicas e necessárias para descobrir se uma determinada enfermidade tem uma causa ambiental ou genética. Dos nove pares selecionados, dois eram casos de meninas monozigóticas (idênticas, com o mesmo componente genético) e os quatro bebês tinham sido afetados pelo zika. Sete casos eram de gêmeos dizigóticos (distintos geneticamente). Desses, um par era concordante (os dois afetados pela doença), e os outros eram discordantes (apenas um afetado pela doença).

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Os cientistas analisaram amostras sanguíneas de três pares de gêmeos discordantes e reprogramaram as células para se tornarem células-tronco pluripotentes, que têm o potencial de se transformar em qualquer outra célula do corpo. Esse material se transformou em células neuroprogenitoras, que dão origem aos neurônios. Em laboratório, os pesquisadores infectaram os três pares com o zika e notaram diferenças em relação ao desenvolvimento do vírus. “Nos três casos, o vírus se replicou mais nas células dos bebês afetados pela doença. Uma destruição maior de células também foi registrada”, conta Zatz.

Depois das constatações, os cientistas saíram em busca de um componente genético que explicasse a diferenciação. Para isso, analisaram toda a sequência de genes dos nove pares de gêmeos e de outros 10 bebês que desenvolveram a síndrome do zika e faziam parte do grupo inicial. A equipe não encontrou um gene principal que explicasse a diferença.

Porém, em uma segunda análise de RNA — que difere da análise de DNA por não mostrar como os genes são, mas como se expressam —, os investigadores descobriram mais de 60 genes cuja expressão era diferente nos bebês afetados pela doença, quando comparados às demais crianças. Dos genes identificados, três eram responsáveis diretamente pelo desenvolvimento do sistema nervoso.

A equipe destaca que as diferenças genéticas foram notadas sem eles terem expostos as células ao vírus, o que mostra que, se os bebês afetados pelo zika não tivessem tido esse contato na gestação, eles não teriam desenvolvido a microcefalia. “Isso mostra que, realmente, existe uma suscetibilidade genética. Fazendo um paralelo, seria o mesmo que ter a variabilidade para o diabetes. Se a pessoa não ganhar peso, tiver uma boa alimentação e se o fator ambiental não for desfavorável, ela não vai desenvolver o problema”, compara a autora.

Pioneirismo


Os cientistas brasileiros ressaltam que a pesquisa se destaca por ter sido a primeira a utilizar células de bebês que foram infectados pelo zika vírus e pela análise genética apurada. “É o primeiro estudo no mundo que derivou de células do paciente modificadas para células neuroprogenitoras e com a comparação em gêmeos. É algo único, que demorou mais de um ano para ser realizado, mas que valeu a pena”, orgulha-se Zatz.

Gustavo Guida, médico geneticista do Laboratório Exame, em Brasília, acredita que entender melhor os fatores de risco genético envolvidos na síndrome congênita permite investigar qual o modo de ação do vírus e desenvolver maneiras de interferir nesse mecanismo. “Diversos fármacos já utilizados clinicamente mostraram ter efeito in vitro contra a destruição causada pelo zika. Conhecer quais vias metabólicas são utilizadas pelo vírus permitirá escolher melhor quais fármacos testar, quais seriam mais promissores e com melhor efeito”, explica.

A pesquisadora da USP ressalta que os resultados poderão ajudar também em estratégias de prevenção. “Se o bebê tem esses fatores de suscetibilidade genética, ele não terá microcefalia se não for infectado. Talvez, possamos identificar essas pessoas e priorizá-las em uma futura estratégia de vacinas.”

Guida também acredita que os resultados do estudo brasileiro possam ajudar a definir um grupo prioritário para ações preventivas. “Alguns dos desdobramentos possíveis seriam o desenvolvimento de exames que permitissem apontar quais mulheres apresentam maior risco de terem a gestação afetada e de esquemas de tratamento para a gestação afetada, como já foi feito para as gestantes com HIV, sífilis ou toxoplasmose”, ilustra.


Danos conjuntos

É um padrão de defeitos congênitos encontrados em bebês que são infectados pelo zika durante a gestação. Suas características incluem a microcefalia grave, quando a criança, ao nascer, apresenta o crânio parcialmente afundado; redução do tecido cerebral; lesão na parte de trás do olho e movimentos de alcance limitado, como o pé torto. Algumas crianças acometidas pela síndrome que não têm microcefalia ao nascer podem apresentar, mais tarde, um crescimento lento da cabeça e desenvolver microcefalia pós-natal.

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