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Correio Braziliense

Exposição mostra trabalhos que combinam ciência e arte para criar peças

Obras ajudam a refletir sobre temas do cotidiano, chamam a atenção pela estética e podem ser usadas fora das galerias


postado em 11/02/2018 08:00 / atualizado em 10/02/2018 18:39

A obra Caravel, criada por Ivan Henriques, tem dois braços robóticos, escovas de carbono e pode ser usada para limpar ambientes aquáticos: dos holofotes a meios poluídos(foto: Gustavo Baxter/ALICATE)
A obra Caravel, criada por Ivan Henriques, tem dois braços robóticos, escovas de carbono e pode ser usada para limpar ambientes aquáticos: dos holofotes a meios poluídos (foto: Gustavo Baxter/ALICATE)

Rio de Janeiro —
O revolucionário Leonardo da Vinci ficou conhecido por pinturas emblemáticas, como a Mona Lisa, e por ter sido um dos maiores inventores da história. O italiano também foi um dos primeiros a misturar dois mundos que, à primeira vista, parecem distantes, mas que conseguem trabalhar muito bem juntos: a ciência e a arte (Leia Para saber mais). Séculos depois, pesquisadores científicos e artistas têm atuado cada vez mais unidos criando obras que encantam e, muitas vezes, têm  aplicabilidade. Com a junção de seus universos, esses profissionais aumentam o alcance de reflexões geradas pelas obras de arte, como a necessidade de preservação do meio ambiente e o impacto da tecnologia no cotidiano.

Ivan Henriques é um dos artistas que utilizam a ciência como mote principal. O brasileiro radicado na cidade de Haia (Holanda) inspira-se na natureza para criar obras para preservar o meio ambiente. A interface Caravel é um exemplo. Chama a atenção pela sua indumentária tecnológica, com um design moderno e repleta de fios e outras estruturas eletrônicas, e também consegue limpar ambientes aquáticos. “Além das plantas que purificam a água, existem bactérias que realizam a mesma tarefa. Muitas delas ‘comem’ a poluição e excretam alguma substância, como os elétrons. Imaginei que essa dinâmica poderia gerar uma estrutura energética autossustentável”, explica ao Correio o cientista-artista, também diretor do programa Estúdio Móvel Experimental (EME), no Rio de Janeiro.

Caravel tem duas estruturas robóticas, compostas por escovas de carbono, que ficam dentro da água, onde bactérias anaeróbicas são cultivadas. Elas começam a se alimentar da poluição e excretam elétrons para a parte de cima da interface, chamada de cérebro. Os elétrons fazem com que a obra funcione e que as duas estruturas movam à medida que o ambiente é limpo. “A máquina funciona como um animal, foi toda criada com o objetivo de purificar a água, de ajudar o meio ambiente”, destaca o brasileiro.

Ivan Henriques explica que a interface foi desenvolvida com base em um grande estudo em que ele visitou locais que poderiam se beneficiar da tecnologia de célula de combustível microbiana (MFC). “Tenho ido a regiões meio tóxicas para repensar o meio ambiente. Pensei, por que não tentamos equalizar um sistema entre a tecnologia e a natureza? Por que não usamos, em vez de fósseis, a energia dos organismos vivos?”, detalha. “Caravel pode ajudar a reduzir a poluição, que é causada por fatores diversos, como a proliferação de algas, um problema que ocorre muito na Holanda.”

Diálogo possível
Colaboraram no desenvolvimento da obra cientistas da Faculdade de Bioengenharia da Universidade de Gante, na Bélgica, e pesquisadores do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), no Rio de Janeiro. A equipe brasileira ajudou na criação do sistema que move a máquina. Guilherme Matos, um dos colaboradores do projeto e professor do Cefet, conta que a parceria foi extremamente positiva. “Quando ele (Ivan Henriques) chegou com essa proposta, nos deu a oportunidade de pensar no papel da ciência dentro da construção social, em como essa máquina poderia influenciar o nosso cotidiano. Ele nos mostrou que não devemos ver barreiras porque a ciência não enxerga limites”, destaca.

Para Guilherme Matos, a arte faz com que os cientistas consigam atingir o público de uma forma diferenciada. “Em algum momento, a ciência foi ficção. Sabemos que a ciência é um ato de fé, que o que move o cientista é muito mais o sentimento do que a razão. É até muito contraditório falar isso, mas o que nos impulsiona a nos envolver em pesquisas é a paixão. Sabemos que a arte gera toda uma diversidade de sentimentos, é exatamente isso que o Ivan Henriques promove com a arte dele, ele leva ao público o que vemos dentro do laboratório”, diz.

Diana Domingues, professora colaboradora da Universidade de Brasília (UnB) no campus Gama, também acredita que a ciência e a arte caminham muito bem juntas. A pesquisadora tem um projeto nesse sentido.“Trabalhamos em uma plataforma que chamamos de Novos Leonardos. Ela trata como os cientistas podem sintetizar a figura do Leonardo, que foi um cientista-artista que misturava vários tipos de arte”, conta. Em um dos projetos, busca-se detalhes do uso de uma bengala, como o ângulo gerado com o instrumento. Depois, os dados se transformam em um projeto visual.

Para a professora, quando unida a temas científicos, a arte pode ajudar na compreensão dos trabalhos exercidos nos laboratórios. “A ciência aproveita a arte para realizar uma expansão científica, uma discussão. Você vai ter um território diferente da experimentação, ficar mais livre, ter liberdade”, detalha. Henriques também faz comparações. “Ambas têm muito em comum, como a curiosidade. Acho que uma das poucas diferenças é o tempo de entrega, já que eu tenho um prazo para finalizar as minhas obras”, brinca o cientista-artista.

Para saber mais


Nascido em 15 de abril de 1452, em Anchiano, uma aldeia toscana próxima à cidade de Florença, na Itália, Leonardo da Vinci foi um dos nomes mais fortes do Renascimento, com obras como Mona Lisa, A anunciação e A última ceia. Além de pintor, o italiano foi arquiteto, matemático, físico, astrônomo, engenheiro, geólogo e cartógrafo. Também dissecou cadáveres, o que era considerado grave crime na época, e sua ousadia rendeu descobertas importantes relacionadas à anatomia.

Com conhecimentos diversos, Da Vinci tentou unir a arte e a ciência em suas invenções. Uma delas, chamada ornitóptero, é uma espécie de máquina voadora que imita o formato de uma ave para poder plainar. Outro projeto que mistura os dois mundos é o Homem vitruviano (foto), um desenho que mostra a forma mais perfeita do corpo humano, criado com base nas proporções definidas por Vitrúvio, um antigo arquiteto romano.

Joe Davis, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e do Departamento de Genética da Universidade de Harvard, ambos nos Estados Unidos, foi um dos primeiros cientistas a unir a arte e a biologia molecular. O americano de 66 anos realiza trabalhos ousados. Já inseriu informações da Wikipédia em forma genética no DNA de maçãs, por exemplo. Outra obra — esta exposta na Bienal de Arte Digital, no Rio de Janeiro — é o casulo bombyx chrysopeia, feito por um bicho-de-seda modificado geneticamente.

O animal produz seda com silicateína, uma proteína mineralizada extraída da esponja marinha. Davis fundiu o gene da silicateína com o da fibroína, proteína principal da seda. “Aproveitamos o fato de a silicateína ser uma proteína ‘promíscua’, ela absorve outros materiais”, explica. A seda produzida pelo bicho modificado geneticamente pelo cientista-artista passa por um processo de redução da sericina, um revestimento natural, e o animal é exposto a soluções contendo materiais metálicos, como o ouro e a prata.

Dessa forma, surge uma seda metálica que pode ser aplicada de diversas formas — tanto no meio artístico, como a bombyx chrysopeia, quanto no científico. “Ela pode ser utilizada para absorver radionuclídeos e outras substâncias nucleares que estão presentes em acidentes químicos, como o de Fukushima e o de Chernobyl”, exemplifica Davis.

Bilíngue

O americano é um dos maiores defensores da linguagem híbrida, em que a ciência e a arte são abordadas de forma conjunta.  “Eu vivo entre ambos os mundos, falo as duas línguas”, destaca. Para ele, tanto a ciência quanto a arte utilizam a mesma linguagem, um dos motivos de os temas se misturarem em sua mente.

Davis também compara as obras criadas pelos artistas híbridos com o trabalho dos magos do passado. “Acho que a unificação de conhecimentos faz parte do destino. Os artistas e os cientistas já estão conectados. Acho também que os artistas não podem ter medo dos algoritmos”, brinca. “Existe uma histórica e uma profunda ligação entre a matemática e a arte, e todos se esquecem disso.” (VS)

* A repórter viajou a convite da Bienal de Arte Digital 

Serviço 

Em cartaz


» Os trabalhos de Ivan Henriques e de Joe Davis estão exposto na Bienal de Arte Digital, que ocorre no Rio de Janeiro, no espaço Oi Futuro. O evento conta com as obras de outros artistas, brasileiros e estrangeiros, que utilizam a ciência 
dentro de suas obras. A exposição fica no Rio de Janeiro até 18 de março e seguirá para Belo Horizonte.

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