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Correio Braziliense

Substância testada em células humanas é nova opção contra o herpes

Em teste com células humanas, molécula consegue expurgar o vírus HSV-1


postado em 15/02/2018 06:00 / atualizado em 15/02/2018 16:36

O vírus do herpes simples (HSV-1) é um dos mais comuns na população mundial. Tem contágio fácil, pois ocorre por meio de fluidos corporais, como a saliva; e poucas opções terapêuticas disponíveis. Por isso, cientistas buscam criar medicamentos com potencial para melhorar o combate a esse micro-organismo. Nessa linha, uma equipe americana encontrou uma substância capaz de eliminar o patógeno em células humanas e de ratos. Os resultados promissores foram publicados na última edição da revista Science Translational Medicine e poderão render opções de tratamento para outros subtipos da enfermidade (veja infográfico).

Os investigadores explicam que, além da oferta limitada no tratamento do herpes, outro problema enfrentado no combate à doença é a resistência dos remédios prescritos. Os medicamentos disponíveis para tratar a infecção HSV-1 impedem o vírus de produzir proteínas que se replicam, conhecidas como análogos de nucleósidos. O uso contínuo dessas substâncias, porém, tem reduzido o efeito delas. “Essa é uma demanda antiga. Precisamos de medicamentos alternativos, que funcionem em novos alvos, porque os pacientes que desenvolvem resistência aos análogos de nucleósidos têm poucas opções eficazes para tratar a infecção”, explicou, em comunicado, Deepak Shukla, professor de microbiologia e imunologia na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e autor principal do estudo.

Shukla e a equipe resolveram estudar a molécula BX795, usada em experimentos científicos diversos. Ela age como um inibidor da TBK1, uma enzima envolvida na inflamação. A substância foi aplicada em células da córnea humana e de ratos contaminadas pelo vírus do herpes simples, e os resultados foram extremamente positivos: a BX795 “limpou” as células infectadas. “Nós encontramos uma molécula que funciona de uma maneira totalmente nova. Em vez de trabalhar com o vírus, funciona nas células hospedeiras e ajuda a limpá-lo”, explicou Shukla.

Outro ponto positivo detectado na pesquisa foi o fato de a concentração necessária da molécula para tratar a infecção ter sido bastante baixa. “Vimos que a depuração do vírus em concentrações de BX795 foi cinco vezes menor do que as concentrações de compostos antivirais nos análogos de nucleósidos disponíveis”, comparou Shukla. Os pesquisadores também descobriram que a BX795 só funcionava em células contaminadas pelo vírus. “Não houve toxicidade discernível ou efeitos colaterais negativos nas concentrações terapêuticas em células que não estavam infectadas”, destacou Shukla.

(foto: Valdo Virgo/CB/DA Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/DA Press)


Aplicação ampla

Segundo os autores, a BX795 bloqueia a ação inflamatória de outros vírus, o que justifica o aprofundamento da pesquisa. Os cientistas americanos acreditam que a droga poderá ser igualmente eficaz no tratamento do HSV-1, que atinge a boca, e do HSV-2, que afeta principalmente os órgãos genitais. “Como a BX795 visa uma via comum que muitos vírus usam para se replicar dentro da célula, pode ser um novo tipo de antiviral de amplo espectro, que poderá ser usado para tratar outras infecções virais, incluindo o HIV, embora ainda não o tenhamos testado em vírus diferentes do HSV-1”, frisou Shukla.

Para a equipe, os futuros testes clínicos, com humanos, poderão render resultados ainda mais satisfatórios. A intenção é começar essa parte da pesquisa em breve. “Por causa da baixa toxicidade da BX795, ela tem um grande potencial para uso sistêmico, bem como aplicação tópica”, ressaltou Alex Agelidis, pesquisador da Universidade de Illinois e coautor do estudo.


Risco de complicações


O HSV-1 infecta principalmente a boca e os olhos, embora os casos genitais de infecção por esse patógeno estejam em alta. A infecção pode ser temporariamente eliminada no olho usando medicamentos antivirais orais e tópicos, mas a inflamação da córnea pode persistir indefinidamente, exigindo tratamento contínuo com gotas oculares à base de esteroides. Outro problema da terapia atual são os graves efeitos colaterais, como o surgimento de glaucoma (aumento da pressão intraocular que pode levar à cegueira).

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