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Correio Braziliense

Cientistas concluem que cérebro humano cresceu de forma lenta e consistente

Após analisar 94 crânios, cientistas do EUA concluem que, ao longo de 3 milhões de anos, o órgão cresceu de forma lenta e consistente. A pesquisa se contrapõe a teorias que atribuem o fenômeno a episódios específicos, como a descoberta do fogo


postado em 03/03/2018 08:00 / atualizado em 03/03/2018 00:19

O estudo abrangeu fósseis de 13 espécies, incluindo o mais antigo ancestral humano conhecido, o Australopitecos (foto: Matt Wood, UChicago/Divulgação )
O estudo abrangeu fósseis de 13 espécies, incluindo o mais antigo ancestral humano conhecido, o Australopitecos (foto: Matt Wood, UChicago/Divulgação )


Na longa jornada evolutiva da humanidade, um evento em particular foi fundamental para fazer com que os ancestrais do Homo sapiens pulassem de galho e construíssem uma história própria, diferente da escrita pelos demais primatas. Trata-se do tamanho do cérebro, que cresceu até atingir o volume atual: três vezes maior do que o de chimpanzés e bonobos, os parentes mais próximos do homem moderno. Embora esse seja um fato indiscutível, não há certeza de como isso ocorreu.

Agora, pesquisadores da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, desenvolveram um modelo mostrando que o aumento do cérebro foi gradativo, o que descarta teorias segundo as quais algum acontecimento em particular — como a descoberta do fogo — contribuiu para inflar o volume do órgão e, assim, dar origem ao homem. Existem hipóteses que creditam a determinados fatos o aumento cerebral. O antropólogo Richard Wrangham, da Universidade de Harvard, por exemplo, é um dos mais fortes defensores de que cozinhar os alimentos elevou o consumo energético, dando um empurrão para o crescimento do volume cerebral. “A maximização do consumo de energia através do alimento permitiu que perdêssemos um terço do intestino e sofrêssemos uma enorme expansão do cérebro”, escreveu, no best-seller Pegando fogo — por que cozinhar nos tornou humanos, de 2010.

Contudo, a análise de 94 crânios de 13 espécies, cobrindo um período de quase 3 milhões de anos, mostra que a história pode ter sido diferente. O aumento de volume foi gradual e consistente, começando antes que os primatas ancestrais descobrissem que cozinhar os alimentos facilitaria a ingestão. No estudo, publicado na revista The Proceedings of the Royal Society B, os pesquisadores mostram que, em vez de um fato isolado, a tendência de aumento do volume cerebral foi causada principalmente pela evolução aleatória do órgão de alguns indivíduos dentro de uma espécie. Ao mesmo tempo, novas espécies com cérebro maior começaram a surgir, levando à extinção daquelas com volume inferior.

Andrew Du, paleobiólgo da Universidade de Chicago e principal autor do estudo, começou a investigar o tema ainda na graduação, cursada na Universidade de George Washington, estimulado pelo professor Bernard Wood, autor sênior do artigo. Foi lá, desafiado pelo mestre, que Du rascunhou a base do trabalho. “A sabedoria convencional é de que nosso cérebro grande evoluiu devido a uma série de passos, cada um deles deixando nossos ancestrais mais espertos. Não surpreendentemente, a realidade é mais complexa, com nenhuma associação óbvia entre tamanho do cérebro e comportamento”, diz Wood.

“O tamanho do cérebro é um dos mais óbvios traços que nos fazem humanos. Isso está relacionado à complexidade cultural, à linguagem, à fabricação de ferramentas e a todas essas outras coisas que nos fazem únicos”, observa Du, agora no pós-doutorado. “Os primeiros hominídeos tinham o cérebro do tamanho de um chimpanzé, e eles aumentaram dramaticamente desde então. Por isso, é importante entender como chegamos lá.”

Pesquisa extensa


Para tentar uma resposta, ele e os colegas compararam dados publicados sobre volume da caveira de 94 fósseis, desde o mais antigo ancestral humano já conhecido, o Australopitecos, de 3,2 milhões de anos, a espécies pré-modernas, como o Homo erectus, de 500 mil anos, quando o cérebro já começava a se assemelhar ao do Homo sapiens. Os cientistas perceberam que, quando as espécies foram agrupadas de acordo com uma descendência comum, o tamanho médio do cérebro aumentou gradualmente ao longo de 3 bilhões de anos.

Esse crescimento, segundo os pesquisadores, foi direcionado principalmente por três fatores. Em primeiro lugar, a evolução de cérebros maiores em indivíduos de uma mesma espécie. Depois, a evolução dos cérebros de algumas espécies e, por fim, a extinção daquelas com volume reduzido. A taxa de crescimento cerebral ao longo da história evolutiva foi mais lenta do que se imaginava. “Em outras palavras, à medida que espécies de hominídeos emergiram e outras decaíram, as populações com cérebros menores foram, lentamente, sendo substituídas por aquelas de cérebros maiores”, diz Du. Ao mesmo tempo, dentro de uma mesma espécie, o volume desse órgão foi se expandindo de forma contínua, a cada geração.

1.232 gramas
É o volume médio do cérebro do homem moderno, que é três vezes superior ao de um chimpanzé

"A sabedoria convencional é de que nosso cérebro grande evoluiu devido a uma série de passos, cada um deles deixando nossos ancestrais mais espertos. Não surpreendentemente, a realidade é mais complexa, com nenhuma associação óbvia entre tamanho do cérebro e comportamento”
Bernard Wood, professor da Universidade de Chicago

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