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Correio Braziliense

Cientistas usam a inovação no enfrentamento da crise hídrica

Pesquisas buscam medidas para reduzir o consumo e criar fontes alternativas do recurso, entre outras frentes


postado em 04/03/2018 08:00

O engenheiro Jorge Vianna criou esquema de reaproveitamento em um prédio na Asa Norte(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O engenheiro Jorge Vianna criou esquema de reaproveitamento em um prédio na Asa Norte (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Situada ao norte do Cabo da Boa Esperança, a Cidade do Cabo é utilizada, desde o século 17, como importante parada nas principais rotas de navegação com destino à Índia e a outros países asiáticos. A indústria náutica é essencial para a capital legislativa sul-africana. É de cruel ironia, portanto, que ela esteja prestes a ficar sem água. Se as medidas de racionamento não surtirem efeito, a população deve ficar desabastecida até 9 de julho, o que levará a cidade a ser a primeira grande metrópole a ver suas torneiras secarem no atual cenário de crise hídrica global.

Melbourne, na Austrália; Los Angeles, nos Estados Unidos, e Brasília são algumas das outras cidades que enfrentam dificuldade parecida. Enquanto a conscientização da população e o uso racional da água são as ferramentas mais eficientes para lidar com o problema, considerado um dos maiores desafios do século, a tecnologia pode se provar uma grande aliada, ajudando, por exemplo, a reduzir o consumo do recurso e as perdas por vazamento, responsáveis por grande parte do desperdício, segundo especialistas. Cientistas têm se dedicado a buscar soluções nesse sentido e apresentado resultados promissores.

Um dos focos é o uso da água do mar, medida empregada em cidades costeiras e na desértica Arábia Saudita. Sua exploração, porém, nem sempre é viável: o processo de dessalinização, além de difícil, custa caro. Pesquisadores da Universidade Monash, de Melbourne, Austrália, porém, tentam mudar isso. Eles propõem o uso de materiais conhecidos como estruturas metalorgânicas — com cristais porosos, como esponjas — para retirar sais e íons da água de forma eficiente e com baixo custo. A tecnologia, descrita no último dia 9, na revista Science Advances, promete facilitar o emprego em grande escala da dessalinização.

“Podemos usar nossas descobertas para enfrentar os desafios da dessalinização da água. Em vez de confiar nos atuais processos intensivos em energia, essa pesquisa abre o potencial de remoção de íons de sal da água de uma forma mais eficiente e ambientalmente sustentável”, ressalta, em comunicado, Huanting Wang, pesquisador e professor da universidade australiana. A equipe acredita que a solução também poderá ser usada para tratar a água poluída de mineradoras, permitindo a sua reutilização.

Reaproveitamento

Mais perto de casa, Jorge Vianna, engenheiro civil e mestre em recursos hídricos, mostrou que as fontes alternativas podem gerar boa economia para áreas residenciais. Em seu trabalho de mestrado, realizado pela Universidade de Brasília (UnB) e defendido em maio de 2017, ele criou e instalou sistemas de reaproveitamento de água em um prédio da Asa Norte usando bactérias no processo de tratamento. “Foram dois projetos, um para reaproveitamento da água da chuva e outro para reúso da água do tanque. O tratamento é feito só com princípios biológicos, e o único químico usado é o cloro”, detalha Vianna.

O engenheiro explica que a água é coletada dos tanques de lavar e passa por um sistema de tratamento em dois filtros onde estão as bactérias que se alimentam dos nutrientes do esgoto e o limpam. “Mais dois filtros retiram resíduos de terra e outras partículas e, por fim, cloro é adicionado à água já tratada, que sai com boa qualidade”, complementa. Nos sistemas com produtos químicos, há, segundo Vianna, liberação de resíduo sólido, o que acaba poluindo, de alguma forma, o meio ambiente. A escolha pelos micro-organismos evita esse problema. “Com as bactérias, pelo contrário, o que sai dali é adubo. Você acaba ajudando a recuperar solos degradados. Além disso, a maioria dos materiais do meu sistema é reciclável, o que ajuda o meio ambiente também”, compara.

Com a medida, o bloco passou a não utilizar água fornecida pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) para irrigar os jardins e fazer a lavagem das áreas comuns. Mesmo com a ajuda tecnológica, o especialista chama a atenção para a necessidade de mudança de comportamento. “Você economiza mais com a conscientização do que com qualquer tecnologia”, justifica.

Coleta da chuva


Na Austrália, aparelhos como o desenvolvido por Vianna foram importantes para diminuir o consumo de água da rede principal. Em Melbourne, por exemplo, grande parte dos moradores das casas começou a coletar a água da chuva para uso próprio, como um esforço da cidade para recorrer a fontes alternativas e não depender apenas de um sistema central. “Agora, a cidade tem um suprimento de água de um grande número de reservatórios, uma planta de dessalinização e os tanques de coleta da chuva nas casas”, conta Andrew Western, professor do Departamento de Engenharia de Infraestrutura da Universidade de Melbourne.

Segundo Western, a vantagem do processo de dessalinização é que ele não depende da água da chuva. “Isso diminui a dependência das flutuações climáticas”, ressalta. “Por outro lado, a desvantagem da água da chuva é que os sistemas são normalmente mal instalados e malcuidados. Então, eles não vêm sendo tão eficientes quanto se espera”, compara. A cidade australiana enfrentou uma grave crise hídrica entre 1997 e 2010.

Aposta alta


Especialistas acreditam que a água do mar pode ser uma importante fonte no cenário de escassez atual, uma vez que 60% da população mundial vive a menos de 60 quilômetros da costa. Baseados nessa estatística, químicos da Universidade Swansea, no Reino Unido, publicaram, no fim do ano passado, um manual de referência com as principais tecnologias desenvolvidas para a dessalinização. As previsões, segundo a obra, é de que esse mercado global atinja US$ 52,4 bilhões em 2020, um aumento de 320% em relação a 2010.

*Estagiário sob supervisão da subeditora Carmen Souza. 

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