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Correio Braziliense

Pesquisa: empatia é menor diante de imagens erotizadas do corpo feminino

Para especialistas, a descoberta enriquece o debate em torno de um fenômeno de causas múltiplas


postado em 08/03/2018 06:00 / atualizado em 07/03/2018 22:42

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Discussões sobre a objetificação das mulheres passam por abordagens políticas, históricas, sociológicas, econômicas. Mesmo que ainda de forma tímida, a neurociência começa a contribuir com esse debate. Pesquisadores da Áustria e da Itália estão analisando como o cérebro reage a situações em que há banalização da imagem feminina. Entre as descobertas está o fato de que áreas cerebrais ligadas à empatia estão envolvidas nesse processo e de que ele acontece também em mulheres.

“Não somos a primeira equipe a trabalhar no tema da objetificação, mas somos a primeira a investigar a empatia em relação a mulheres objetificadas e personalizadas”, ressalta Carlotta Cogoni, pesquisadora do Departamento de Psicologia e Cognição da Universidade de Trento, na Itália, e principal autora do estudo, divulgado recentemente na revista especializada Cortex. Segundo ela, falta uma demonstração clara da falta de empatia em relação às mulheres objetificadas. “Temos apenas a hipótese”, justifica.

Para chegar a respostas mais contundentes, Cogoni e colegas, incluindo pesquisadores da Universidade de Viena, na Áustria, usaram uma tarefa controlada por computador, envolvendo situações de inclusão e exclusão de um jogo. Os participantes do experimento tinham como tarefa jogar ou não uma bola para diversas atrizes, que estavam vestidas de forma distinta. Durante as partidas, as reações empáticas foram medidas pela ativação cerebral — os voluntários foram monitorados por aparelhos de ressonância magnética. Depois,  por meio de questionários.

Os cientistas descobriram que, ao modificar o tipo de roupa que as atrizes usavam — deixando mais ou menos partes do corpo à mostra —, a confiança para entregar a bola alterava. Ela caia quando as mulheres eram exibidas de forma sexualmente objetificada. “Essa redução dos sentimentos empáticos foi acompanhada por atividade reduzida em áreas cerebrais relacionadas à empatia. Isso sugere que os observadores tenham uma capacidade reduzida para compartilhar as emoções das mulheres sexualizadas”, explica Giorgia Silani, também autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Viena.

Contexto social

As cientistas ressaltam que a pesquisa entra em sintonia com estudos semelhantes, apontando uma reação cerebral ao fenômeno, mas acrescentam que não existe uma explicação única e detalhada sobre ele. “Esse resultado está em linha com trabalho anterior mostrando que as mulheres objetificadas são desumanizadas — mais associadas a termos animais do que termos humanos —, bem como percebidas como menos morais e inteligentes. Não existe um porquê específico, mas mostramos que esse é o resultado de um fenômeno generalizado na sociedade ocidental”, destaca Cogoni.

Vladimir Melo, mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília, avalia que o trabalho é pertinente ao mostrar como a erotização do corpo feminino afeta a percepção das pessoas. Entretanto, ele destaca que a forma como as pessoas se vestem, tanto homens quanto mulheres, reflete a maneira como elas se relacionam. Por isso, no contexto da pesquisa, é difícil dizer se a falta de empatia é um efeito de como o indivíduo lida com a objetificação feminina ou se está por trás da representação sexualizada da mulher.

“É importante lembrar que não estamos falando sobre a intenção da mulher, mas sobre o contexto social em que vivemos. Na época vitoriana, por exemplo, a ênfase da moda no excesso de roupa refletia o rigor dos costumes e a fragilidade feminina. Atualmente, as roupas vendidas para crianças e a maneira como elas são retratadas nas telas refletem uma sociedade que erotiza a infância”, frisa. “Um exemplo é a adolescência ‘repentina’ da atriz Millie Bobby Brown, da série Stranger Things, que repercutiu na imprensa e gerou o debate de como as crianças são tratadas pela indústria cinematográfica”, completa.

Mais estudos

Para Ana Paula de Oliveira Silva, psicóloga doutora em ciências do comportamento pela Universidade de Brasília (UnB), a pesquisa traz dados interessantes, mas “peca um pouco” na forma de avaliação. “Seria interessante ter mais avaliações com outros tipos de vestimenta, pois eles utilizaram trajes esportivos e roupas mais curtas, o que pode significar que as pessoas não confiam também por causa do tipo de roupa usado”, explica. Silva ressalta que pesquisas sobre o tema são extremamente importantes. “Esse é um fenômeno difícil, complexo, uma tentativa louvável, mas precisamos de mais estudos para confirmar esses dados”, completa.

Melo também destaca a importância de novas pesquisas da neurociência sobre a objetificação da mulher. “Um estudo não é suficiente para comprovar cientificamente, mas é uma evidência que merece atenção. Nas ciências humanas, existem muitos estudos acerca da representação da mulher e sobre a relação entre a imagem do corpo feminino e a violência de gênero, por exemplo. Já é um tema amplamente pesquisado. A novidade é que as ciências médicas estão também se interessando pela questão e, possivelmente, essas áreas do conhecimento devem se aproximar cada vez mais a partir de agora”, diz.

Para Melo, a aproximação dos olhares das ciências médicas e das ciências humanas pode permitir uma comunicação com resultados promissores. “Esses estudos podem nos permitir ver o cenário como um todo. Se isso acontecer, é provável que essas descobertas se reflitam nas políticas sociais, e que a sociedade questione cada vez mais propagandas, filmes, séries de tevê, músicas e demais veiculações em que a mulher seja representada como objeto sexual”, acredita.

As autoras do estudo adiantam que a pesquisa terá continuidade. “Estamos trabalhando para ter uma compreensão mais profunda das consequências do fenômeno de objetificação, como ele ocorre e como podemos prevenir isso”, frisa Cogoni. “Em uma época em que a violência contra as mulheres e os comportamentos sexualmente inapropriados são condenados, especialmente com a ascensão do hashtag #metoo e # time’sup (Leia para saber mais), é importante investigar o fenômeno, entender suas raízes para lutar contra isso.”

“Esses estudos podem nos permitir ver o cenário como um todo. Se isso acontecer, é provável que essas descobertas se reflitam nas políticas sociais, e que a sociedade questione (…) veiculações em que a mulher seja representada como objeto sexual”
Vladimir Melo, psicólogo

Para saber mais

Movimentos fortalecidos
O movimento Me Too tomou força em outubro de 2017, após o famoso diretor de cinema Harvey Weinstein ter sido acusado de abuso sexual por atrizes, como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow. Com a hashtag #metoo, termo utilizado em mídias sociais, diversas mulheres compartilharam os casos de abuso sofridos. Apesar de ter se popularizado após os escândalos de Weinstein, o Me Too foi criado em 2007 pela americana Tanara Burke, que também é fundadora da ONG Just Be Inc, que promove o bem-estar de jovens negras.

Por sua vez, o movimento Times Up surgiu depois de acusações de assédio envolvendo grandes nomes de Hollywood, como o ator Kevin Spacey. Um grupo de atrizes, incluindo Emma Stone e Natalie Portam, se reuniu para defender a adoção de diversas medidas em prol das mulheres, como a criação de um fundo de defesa legal para auxiliar vítimas de violência sexual e leis que penalizem empresas tolerantes ao assédio.

 

Julgamento generalizado

Também em busca de um olhar mais completo sobre a objetificação feminina, cientistas do Canadá e da Austrália compararam como homens e mulheres se comportam diante do fenômeno. Em um experimento, participantes de ambos os sexos avaliaram fotografias de homens e mulheres vestidos com roupas distintas e tiveram de responder a três questionários sobre a interpretação que fizeram das imagens.

Os investigadores, liderados  por Duane Hargreaves, da Universidade de Toronto, no Canadá, detectou que, independentemente do sexo, os participantes objetificaram mais as mulheres do que os homens exibidos nas fotografias, embora a objetificação das participantes em relação às mulheres retratadas não tenha sido significativamente diferente da objetificação dos homens retratados.

Os voluntários também foram orientados a avaliar a própria imagem, e os pesquisadores constataram o fenômeno da auto-objetificação. “A pressão percebida para se parecer bem é tão penetrante e forte que muitas mulheres internalizam as atitudes socioculturais. Ou seja, elas se objetificam. Assumem a perspectiva dos outros e, portanto, têm sido definidas por eles”, detalha os autores no artigo, divulgado em 2105, na revista especializada Sex Rules. 

Segundo a psicóloga Ana Paula de Oliveira Silva, a objetificação é um fenômeno complexo, que, por também atingir as mulheres, pode trazer a influência de mensagens relacionadas ao gênero que estão enraizadas na sociedade.  “Na pesquisa italiana (liderada por Carlotta Cogoni), também avaliaram o julgamento de ambos os gêneros. Essa questão se torna geral”, diz. (VS)

Palavra de especialista

Explicação não é só biológica
“Esses dados mostram que há um componente biológico que pode estar associado a alguns comportamentos exibidos por homens. No entanto, o fenômeno social é de uma complexidade tamanha que apenas esses dados não podem ser suficientemente grandes para explicá-lo em sua totalidade. O machismo como instalado no cenário contemporâneo vem se formando ao longo de séculos, já o feminismo como movimento social acontece há apenas algumas décadas, tendo grandes vitórias para o universo feminino. Essa pesquisa, sem sombra de dúvida, pode lançar uma luz importante sobre alguns mecanismos que podem, ou não, influenciar comportamentos sociais, como o machismo. Entretanto, é importante frisar que movimentos culturais e sociais são extremamente fluidos e mutáveis, não podendo, portanto, ser classificados ou ‘respondidos’ apenas por dados de fundo biológico. O ser humano é extremamente complexo e, dentro dessa complexidade, existe uma subjetividade inerente a cada um de nós”

Rodrigo Melo, psicólogo especialista em análise do comportamento do ICS Brasília 

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