Publicidade

Correio Braziliense

Da Paraíba, cientistas brasileiros vão mapear a energia escura do Universo

Radiotelescópio instalado no interior será usado para revelar os segredos do setor escuro, que preenche a maior parte do cosmo


postado em 13/03/2018 12:09 / atualizado em 13/03/2018 14:38

A parte escura do espaço já tinha sido prevista por Albert Einstein, em 1917, ao avaliar a existência de um Universo finito(foto: AFP)
A parte escura do espaço já tinha sido prevista por Albert Einstein, em 1917, ao avaliar a existência de um Universo finito (foto: AFP)
 
Um projeto liderado por cientistas brasileiros pretende usar ondas de rádio para mapear e descobrir detalhes sobre a energia escura, que preenche cerca de 73% do Universo. Há décadas, os mistérios acerca dessa força e da matéria escura, que não reflete nem absorve a luz, intrigam os astrônomos. Apesar de 95% do cosmo ser integrado por esses dois componentes, suas propriedades continuam desconhecidas. Mas uma poderosa antena que será instalada no interior da Paraíba poderá apontar a chave para abrir a porta desse segredo.

A parte escura do espaço já tinha sido prevista por Albert Einstein, em 1917, ao avaliar a existência de um Universo finito. Os pesquisadores notaram, com o passar do tempo, que a energia escura é a responsável pela expansão de forma acelerada do cosmo. Uma força de repulsão faz com que galáxias inteiras se afastem de forma constante. O projeto BINGO (sigla para BAO from Integrated Neutral Gas Observations) pretende utilizar ondas de rádio produzidas pelo hidrogênio para mapear a energia e matéria escura.

O hidrogênio é o elemento visível mais abundante no espaço, espalhado em forma de gás entre planetas, sistemas estelares e galáxias. Esse elemento produz uma onda de rádio hiperfina, que pode ser captada da Terra com o uso de instrumentos como o que será construído no Nordeste do país. O telescópio poderá também revelar detalhes sobre misteriosos sinais de rádio que chegam ao nosso planeta.
 
O local de instalação do equipamento fica longe dos centros urbanos e foi escolhido estrategicamente. Para escutar os sons do Universo, é necessário que a região não tenha quase nenhuma interferência humana, como radiação proveniente de aparelhos de micro-ondas ou de estações de rádio.

O projeto, que é financiado principalmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), prevê a construção de uma astroantena de 40m de altura e dois espelhos, ao custo inicial de R$ 4 milhões. A empreitada é coordenada pelo físico teórico Elcio Abdalla, da Universidade de São Paulo (USP). Ao Correio, o pesquisador conta que descobrir os fenômenos do Universo é sempre uma tarefa difícil (confira entrevista completa abaixo). "O estudo dos Céus envolve dificuldades. Até 100 anos atrás, mal sabíamos da existência de galáxias. Há 50 anos, pensávamos que o Universo fosse constituído apenas daquilo que pudéssemos ver, ou seja, prótons e elétrons”, afirma Abdalla.
 
antena de telescópio que será instalada no interior da Paraíba(foto: USP/Divulgação)
antena de telescópio que será instalada no interior da Paraíba (foto: USP/Divulgação)


Fazem parte do projeto pesquisadores de universidades do mundo todo, como a University College de Londres; o ETH, de Zurique, na Suíça; a Universidade da República do Uruguai; e a Universidade de Portsmouth, da Inglaterra. A parte de tecnologia e desenvolvimento do telescópio está sendo realizada pelo Brasil, que ganha a oportunidade de avançar em sua tecnologia em computação, eletrônica fina, guias de onda e análise de dados, entre outras. A ação também deve gerar emprego para moradores da região. 

Confira a entrevista do Correio com o professor Elcio Abdalla, coordenador-geral do BINGO:

Qual o objetivo do projeto BINGO?
O projeto BINGO visa levantar dados que corroborem ou não certos aspectos teóricos da cosmologia, o estudo do Universo a grandes distâncias, e a observação de misteriosos jatos de rádio vindos do espaço. Em particular, queremos compreender o Setor Escuro do Universo,que representa cerca de 95% do conteúdo material do Universo. A estrutura do Setor Escuro é completamente desconhecida, representando um enorme passo em direção a uma visão cosmológica mais abrangente.
 
Qual a participação da USP e do senhor no projeto?
Sou o coordenador geral do projeto. Lidero um grupo de cerca de 15 pesquisadores e estudantes graduados que estudam várias facetas do projeto. O Brasil tem largo protagonismo neste empreendimento.

Serão instaladas duas antenas na Paraíba, para a captação de ondas de rádio que vem do espaço? Por que foi escolhido este local?
Será um observatório complexo, com dois espelhos e 30 a 50 enormes cornetas de alumínio que vão coletar as informações. O local foi escolhido em vista da pouca poluição eletromagnética na forma de ondas de rádio, transponderes de aviões e outras fontes.

Como a onda de radiação, com comprimento de de 21 cm, correspondente ao sinal do Hidrogênio, pode ajudar na descoberta de características da matéria escura?
A matéria escura, pelo que se tem observado, segue o mesmo padrão da distribuição de bárions (prótons e nêutrons). Além disto, o tamanho das ondas gigantescas de Hidrogênio são parâmetros importantes da Equação de Einstein que levam a vínculos nas características do Setor Escuro.
 
A intenção é mapear a matéria escura existente? É verdade que atualmente se acredita que a energia escura ocupa 73% do Universo?
Sim, a Energia Escura perfaz cerca de 70% do Universo e a Matéria Escura, cerca de 25%. De fato, um dos grandes interesses é saber as propriedades intrínsecas de ambos, mais que a distribuição dos mesmos.
 
É o INPE que está financiando o projeto?
O INPE é co-participante, o Professor Alex Wuensche é co-coordenador. O financiamento é principalmente da FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
 
Qual universidade ou quais universidades brasileiras estão a frente das pesquisas?
São a USP, o INPE e a UFCG (Universidade Federal de Campina Grande).
 
Existe cooperação internacional?

Sim, é grande: Reino Unido (Manchester, Londres, Porthsmouth) Universidade de Paris, ETH (Zurique) Kwazulu Natal (Africa do Sul) YangZhou (China).

 

O senhor sabe o custo da construção das antenas? Qual o legado que o projeto pode deixar para o Brasil e para a ciência?

As cornetas estão orçadas em cerca de 4 milhões de reais, dependendo do número e do tipo de dificuldade a ser encontrado. Para o Brasil, além da ciência a ser encontrada, acima descrita, há um conhecimento tecnológico na construção de filtros de rádio, guias de ondas, eletrônica fina, computação e análise de dados.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade