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Correio Braziliense

Stephen Hawking deixa legado admirado por leigos e especialistas da ciência

Sob condições de saúde debilitantes, ele trouxe à academia ideias até então restritas à ficção científica e popularizou complexas equações e teorias


postado em 15/03/2018 06:00

(foto: AFP)
(foto: AFP)


Stephen Hawking tomou emprestado de Shakespeare o título de seu segundo livro. É Hamlet, o príncipe dinamarquês, quem diz: “Poderia estar encerrado em uma casca de noz e me sentir rei de um espaço infinito”. No terceiro capítulo do best-seller, o astrofísico, que morreu aos 76 anos na madrugada de ontem, explica a referência. “Possivelmente, Hamlet queria dizer que, apesar da limitação física dos humanos, nossas mentes podem explorar com audácia todo o Universo e chegar aonde os protagonistas do Star Trek temeriam ir se os pesadelos nos permitirem isso.”

Preso em uma casca — um corpo debilitado pela esclerose lateral múltipla, doença degenerativa que tirou dele o movimento, a fala e a capacidade de respirar sozinho —, Hawking foi o mais audacioso explorador do Universo desde Albert Einstein (que, aliás, nasceu no mesmo dia e mês da morte do colega britânico. Outras coincidências: Galileu Galilei morreu exatamente 300 anos antes, e 13 de março é o “dia do Pi”, o mais misterioso número matemático). Com seu “voo de super-homem em microgravidade”, como brincou ao conversar com astronautas da Estação Espacial Internacional, o astrofísico e divulgador de ciência ultrapassou os limites do nosso ilimitado cosmos. Nos últimos 10 anos, dedicou-se como nunca a estudar a teoria do multiverso: os incontáveis universos paralelos, que poderiam ser conectados por espécies de túneis cósmicos, os buracos de minhoca.

 

 


Tudo isso parece muito estranho, mas também soava como ficção científica a ideia de Einstein de que existiriam ondas gravitacionais, uma consequência da ondulação do espaço-tempo. Cem anos depois da formulação da teoria, ela foi comprovada pelos sofisticados observatórios Ligo e Virgo, o que rendeu o Nobel da Física a seus descobridores. “A teoria de Einstein, do ponto de vista teórico, era perfeita, mas faltava a observação, que veio em 2015. Da mesma forma, o legado teórico de Hawking é algo para ser observado nos próximos 100 anos”, acredita o astrofísico Oswaldo Duarte Miranda, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro da Sociedade Astronômica Brasileira.



Stephen Hawking foi um gênio, mas, entre o público, o que fez dele um mito não foram apenas suas ideias e o seu esforço de simplificar teorias complicadíssimas para os leigos. “Não há dúvidas de que ele foi excepcional, mas, no caso dele, particularmente, havia a questão da doença e da história de superação pessoal”, acredita o astrônomo Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional. “A doença o limitou dramaticamente, mas, com força de vontade, ele superou todos os obstáculos, fazendo uma ciência de altíssimo nível. A popularidade de Hawking foi por uma somatória de feitos, e a situação debilitante que ele tinha chamou muita atenção do público”, observa Oswaldo Duarte Miranda.

Além das expectativas

Nascido em janeiro de 1942, o britânico foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA) aos 21 anos, dois anos depois de se formar em física e astronomia em Oxford e Cambridge, respectivamente. A doença neurodegenerativa é rara (dois casos em cada 100 mil por ano) e caracteriza-se pela perda do controle muscular gradativo, começando pelos braços até o ponto em que não é possível respirar sozinho. Na década de 1960, o prognóstico eram dois anos, mas Hawking, embora cada vez mais debilitado, superou todas as expectativas. Hoje, com o conhecimento melhor sobre os cuidados que se deve ter, os pacientes vivem cada vez mais.

Na cadeira de rodas e conectado a um respirador artificial, o astrofísico continuou trabalhando intensamente. Quando perdeu a fala, em 1985, durante uma cirurgia para desobstrução da traqueia emergencial, lançou mão de um sintetizador de voz. O primeiro best-seller, Uma breve história do tempo, foi ditado à secretária um ano antes disso, quando ele ainda conseguia falar, embora debilmente. O livro, lançado em 1988, vendeu 10 milhões de cópias e foi traduzido para 35 idiomas.

O próximo sucesso seria O Universo numa casca de noz, que foi, basicamente, escrito por Hawking por meio de cliques: com os polegares, ele apertava alguns botões que traduziam o que queria dizer. Em alguns anos, esse recurso não seria mais possível. Os únicos músculos que Hawking continuou controlando foram a bochecha e a sobrancelha. Um sofisticado sistema desenvolvido pela Intel permitiu que ele voltasse a “falar” em 1997, com auxílio do sintetizador.

Foi enclausurado nesse corpo que o astrofísico popularizou conceitos como o big bang, os buracos negros, os buracos de minhoca, a teoria de cordas, o multiverso, a teoria do tudo, entre outros. “Ele foi um cientista icônico. Hawking trabalhava com a física de fronteira, com teorias que dependem de uma abstração matemática muito intensa. No meio acadêmico, os cientistas se comunicam com tecniquês, e o desafio de traduzir esse conhecimento para o público é muito grande”, observa o físico e divulgador científico Daniel Ângelo, do Instituto Ciência em Show, que tem como objetivo aproximar a ciência dos leigos. “Ele cumpriu o papel de despertar a curiosidade”, afirma. “Hawking teve a humildade e a sensibilidade de divulgar a ciência, e esse é um grande legado”, diz Ângelo, apresentador de diversos programas de divulgação científica na TV.

Teoria do tudo


Durante toda a vida, Stephen Hawking trabalhou em cima da Teoria do tudo, que tentava encontrar uma ponte entre a gravitação e a mecânica quântica. Os artigos que publicou sobre seus estudos ajudaram a desenvolver outras importantes teorias cosmológicas, como a das cordas e a da gravitação em laços. Para ele, unificar todo o conhecimento da física moderna seria como “comer do fruto proibido”. “Se realmente descobrirmos uma teoria completa (…), todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de por que nós e o universo existimos. Se encontrássemos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo último da razão humana — porque, então, conheceríamos a mente de Deus”, escreveu.

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