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Correio Braziliense

Escrever angústias referentes a fatos passados ajuda a reduzir o estresse

Colocar no papel angústias de fatos passados ajuda a reduzir o estresse e a melhorar a performance em futuros desafios, mostra estudo americano


postado em 24/03/2018 08:00



Quando uma pessoa confessa que vai enfrentar problemas, um dos conselhos mais recebidos é “tenha o pensamento positivo”. Uma estratégia diferente, porém, parece surtir mais resultado, segundo cientistas americanos. Eles realizaram um experimento com voluntários no qual observaram que escrever sobre angústias referentes a fatos passados reduz a quantidade de cortisol, um hormônio ligado ao estresse. Detalhes do trabalho foram divulgados na revista Frontiers in Behavioral Neuroscience.

Brynne C. DiMenichi, pesquisadora da Universidade de Rutgers, conta que a pesquisa tinha a intenção de aprofundar resultados de trabalhos anteriores da equipe. “Descobrimos que pessoas que escrevem sobre sucessos alcançados não têm desempenho melhor ao realizar uma tarefa estressante logo em seguida. No entanto, foram os participantes que escreveram sobre falhas  do passado que exibiram melhorias significativas no desempenho”, relata. “Portanto, o estudo de agora foi conduzido para examinar por que esse método contraintuitivo, como escrever sobre um erro cometido, leva a um melhor desempenho.”

Também participaram do trabalho cientistas das universidades da Pensilvânia e Duke. DiMenichi e sua equipe dividiram voluntários em dois grupos. Um deles, o do teste, escreveu sobre falhas do passado. O grupo controle relatou sobre um tema não relacionado ao escritor. Pela amostra da saliva, os pesquisadores mediram os níveis de cortisol de todos os participantes. As medições, que servem de indicadores fisiológicos do estresse, foram feitas antes e depois das tarefas e comparadas entre os grupos. Os do primeiro apresentaram menor nível do hormônio do estresse.

Em seguida, mediu-se o desempenho dos voluntários em uma segunda tarefa considerada estressante e envolvendo escolhas emocionais. Neste caso, também houve monitoramento dos níveis de cortisol. Da mesma forma como no primeiro experimento, o grupo de teste apresentou níveis mais baixos de cortisol.

Os resultados surpreenderam a equipe. “Não achamos que a escrita em si tivesse um relacionamento direto sobre as respostas de estímulo do corpo. Em vez disso, nossos resultados sugerem que, em uma situação estressante, ter escrito anteriormente sobre uma falha faz com que a resposta ao estresse do corpo pareça mais semelhante à de alguém que não está exposto ao estresse”, destaca a autora.

Exercício reflexivo


Rodrigo Melo, psicólogo especialista em análise do comportamento do ICS Brasília, destaca que o experimento traz dados   não conhecidos que ajudam a comprovar uma suspeita existente na área psicoterapêutica. “Essa é uma tarefa reflexiva, que ocorre por meio da escrita. Através dela, você enfrenta processos de frustração. Ao escrever, a pessoa materializa a questão, não fica apenas no ‘plano astral’, como uma ideia. Tem um sentido novo e fisicalidade”, explica.

O psicólogo conta que adota a técnica com os seus pacientes. “Em vários momentos, peço para escreverem sobre seu sofrimento, para ter um olhar diferenciado. Isso tudo vai criando um novo sentido para a situação de frustração. Sabíamos que isso funcionava em um nível subjetivo. Agora, temos esse estudo que mostra os níveis de cortisol. É claro que é uma pesquisa que precisa ser expandida, já que a amostra é pequena ainda, mas nos ajuda a entender esse mecanismo”, destaca.

Os pesquisadores também descobriram que os voluntários que escreveram sobre um fracasso fizeram escolhas mais cuidadosas na tarefa seguinte e, em geral, apresentaram resultados melhores. “Juntos, esses achados indicam que escrever e pensar criticamente sobre uma falha pode preparar um indivíduo de forma fisiológica e cognitiva para novos desafios”, diz DiMenichi.

Para a equipe, como todos os indivíduos experimentam contratempos e estresse em algum momento da vida, a descoberta pode fornecer uma visão sobre como é possível usar essas experiências para ter um melhor desempenho em desafios futuros. “Qualquer um pode tentar utilizar essa técnica em um ambiente educacional, esportivo ou mesmo terapêutico”, ilustra DiMenichi. “No entanto, é difícil comparar as medidas laboratoriais de desempenho cognitivo com o desempenho em uma pista olímpica, por exemplo. Nossa pesquisa futura poderá examinar o efeito da manipulação de escrita no desempenho atlético atual, é uma próxima abordagem possível”, cogita a autora.

Uso clínico


Melo também acredita que o trabalho americano poderá ajudar no desenvolvimento de estratégias de aumento de desempenho. “O nível de cortisol de pessoas que experimentaram o estresse antes da segunda tarefa foi quase inexistente, o que não ocorreu no grupo controle.  Esses resultados são bastante interessantes, pois podem servir como uma estratégia terapêutica para atletas, por exemplo, antes de enfrentarem um desafio”, explica. “Acredito que um próximo passo interessante seria escrever sobre medos específicos, problema específicos, a fim de entender melhor questões mais profundas”, opina.

DiMenichi também aposta em aplicações na área médica. “Acredito, absolutamente, que nossos resultados podem influenciar o tratamento psiquiátrico, especificamente para indivíduos com transtorno do estresse pós-traumático e/ou ansiedade generalizada e social”, diz. “Pesquisas futuras devem ser conduzidas para examinar se escrever sobre uma falha longitudinalmente também leva a uma melhor regulação do estresse em transtornos psiquiátricos”, detalha.


"Acredito, absolutamente, que nossos resultados podem influenciar o tratamento psiquiátrico, especificamente para indivíduos com transtorno do estresse pós-traumático e/ou ansiedade generalizada e social”

Brynne C. DiMenichi, pesquisadora da Universidade de Rutgers e autora principal do estudo

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