Publicidade

Correio Braziliense

Mix de medicamentos já aprovados ajuda a combater bactérias resistentes

Método criado por brasileiros harmoniza partes de medicamentos já prescritos para criar substâncias capazes de matar bactérias resistentes. Versão testada em ratos combina o mosaico antimicrobiano com molécula presente na goiaba


postado em 03/04/2018 06:00 / atualizado em 03/04/2018 10:37

As infecções causadas por bactérias resistentes são um dos grandes desafios do século. Os micro-organismos respondem pouco aos antibióticos disponíveis, agravando a situação do paciente e podendo levá-lo à morte. Preocupada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado sobre a importância de combater esses patógenos, que adoecem cerca de meio milhão de pessoas, estima a entidade. Nesse sentido, um grupo internacional liderado por brasileiros desenvolve um método de produção de antibiótico capaz de matar as superbactérias e que poderá ser usado, inclusive, para a remodelar a fabricação de remédios já existentes.

Os cientistas utilizaram um algoritmo que imita o processo natural de como os genes se recombinam durante a reprodução — um mecanismo importante na evolução dos seres vivos. Para formar um antibiótico potente, o programa junta características de diversas substâncias antimicrobianas a uma molécula encontrada na semente da goiaba. Batizado de guavanin 2, o produto foi testado em ratos e se mostrou eficaz contra bactérias resistentes aos medicamentos comuns.

A substância funcionou contra infecções pulmonares, cutâneas e intestinais e, segundo os criadores, poderá ser usada clinicamente. O método desenvolvido para criá-la também tem potencial para ser uma nova ferramenta para a produção de antibióticos, criando alternativas às classes mais comuns de antimicrobianos, usadas há mais de 30 anos.

“Todo o mundo usa compostos naturais. É um hábito da nossa e de muitas culturas. A novidade é a melhoria dos compostos naturais. Turbinamos um dos antibióticos para transformá-lo em algo 10 vezes mais potente”, resume Octávio Franco, um dos autores do artigo e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Genômicas e Biotecnologia da Universidade Católica de Brasília.

A substância retirada da semente da goiaba chama-se Pg-AMP1 e faz parte dos peptídeos antimicrobianos de planta. A eficácia desses peptídeos, porém, é limitada e nenhum deles havia sido usado para tratar infecções em humanos. O algoritmo foi a solução encontrada para aumentar a potência da Pg-AMP1.

Cem opções


Na recombinação genética  — processo natural que o algoritmo imita —, partes de dois códigos genéticos de indivíduos diferentes são misturadas, dando origem a uma terceira sequência de genes, distinta das originais. A solução criada modifica a estrutura da Pg-AMP1 com pedaços de outras substâncias antimicrobianas, gerando 100 opções de peptídeos, nomeados como guavanin 1 a 100.

“Esse é um método que nós chamamos joker, ou curinga. Ele pega proteínas escolhidas com fragmentos de outras para dar origem a uma nova. É como se fosse uma troca de cartas: nós trocamos cartas que não queremos por outras melhores. Transformamos um antibiótico não muito potente em outro”, ilustra Franco.

As 15 melhores combinações foram testadas em ratos, e o guavanin 2 mostrou-se o mais promissor. Ele é eficaz contra bactérias gram negativas, associadas a casos de pneumonia e de infecção urinária. “Algumas vezes, ele reage um pouco mais lentamente, mas é efetivo contra bactérias resistentes, que não são controladas com antibióticos comuns. E também no controle de biofilmes, que são colônias muito resistentes”, detalha Franco.

Novas práticas


Adriana Oliveira Guilarde, professora e médica infectologista do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (UFG), explica que bactérias resistentes a medicamentos sempre existiram. “O pior problema é o aumento da mortalidade e do tempo de internação. Morrem mais pessoas, mas não porque a bactéria é mais virulenta, mas porque o tratamento inicial para esses pacientes não será adequado”, diz.

Segundo Guilarde, o arsenal de antibióticos disponível é limitado, e novas opções são necessárias. Porém, é preciso usar os remédios de forma racional, já que a aplicação indiscriminada é o grande fator que contribui para o surgimento de variedades resistentes de bactérias, alerta a médica.

“A luta não se resume a ter novos antibióticos”, concorda Werciley Júnior, infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Santa Lúcia. “Temos que usar o antibiótico certo para o paciente certo, e tratando a bactéria certa pelo tempo certo. A dose tem que ser calculada, e apenas para o tempo necessário para controlar a infecção.”

O médico afirma que as infecções comuns devem continuar sendo tratadas com os remédios disponíveis e que as novas possibilidades precisam ser guardadas para os casos resistentes. “Se as usarmos para bactérias comuns, elas ganharão resistência a eles também”, explica.

O uso correto dos recursos atuais é importante, segundo especialistas, também porque a chegada de novos medicamentos é demorada. Se vencer todas as etapas dos testes científicos, o guavanin 2 deve chegar às prateleiras daqui a pelo menos uma década. “Conseguimos tornar a substância mais perto de um fármaco, mas a capacidade de fazê-la comercial leva muito tempo, de 10 a 15 anos no Brasil. É sempre muito difícil saber se isso chegará ao mercado”, diz Franco.

A pesquisa conta com a participação de cientistas de outras faculdades brasileiras, como a UFG e a Universidade Federal do ABC, de São Paulo, além de instituições dos Estados Unidos, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, e da Universidade de Pari. Segundo Franco, o artigo com os resultados mais recentes foi aceito pela revista Nature Communications e aguarda publicação.

* Estagiário sob a supervisão da subeditora Carmen Souza.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade