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Correio Braziliense

Águas amazônicas têm nível alarmante de compostos tóxicos

Concentração do composto em poços usados por comunidades rurais é 70 vezes superior ao recomendado. Pesquisadores acreditam que o problema ocorra por razões naturais, mas alertam que a ingestão regular do líquido pode afetar a saúde


postado em 11/04/2018 13:34

Temendo a poluição, a população deixou de usar os rios e cavou os próprios reservatórios de água: presença também de manganês e alumínio(foto: Christophe Simon/AFP)
Temendo a poluição, a população deixou de usar os rios e cavou os próprios reservatórios de água: presença também de manganês e alumínio (foto: Christophe Simon/AFP)


As águas dos rios e das chuvas foram suficientes para suprir as necessidades das comunidades rurais da Bacia Amazônica durante muito tempo. Com o avanço da exploração da floresta e com o aumento da poluição oriunda das extrações de plantas e minerais e de outras atividades industriais, essas populações tiveram que recorrer à criação de poços. A solução, porém, pode se tornar um novo problema de subsistência e de saúde pública. Um estudo conduzido por cientistas do Brasil, do Peru e da Suíça mostra que esses reservatórios de pouca profundidade contêm água que supera em até 70 vezes o limite recomendado de arsênico pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Devido aos rios contaminados, muitas comunidades rurais aproveitam a água subterrânea. Em algumas áreas da Bacia do Rio Amazonas, essa água contém elementos em concentrações potencialmente prejudiciais para a saúde humana”, ressaltou Caroline de Meyer, cientista do Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia Aquáticas, durante apresentação de dados preliminares do estudo feita, ontem, na Assembleia Geral da União Europeia de Geociência (EGU), em Viena.

Os primeiros resultados da pesquisa são de amostras obtidas em 250 comunidades da Amazônia peruana, onde também foram detectados níveis perigosos de concentração de outras substâncias. As taxas de manganês estavam até 15 vezes superiores aos limites estipulados pela OMS, e as de alumínio, até três vezes acima do recomendado. “Esse tipo de contaminação não deveria ser subestimado”, frisou Caroline de Meyer, também coordenadora do estudo.

Os pesquisadores acreditam que a presença do composto tóxico derivado do arsênio e dos dois elementos químicos ocorra por razões naturais, e não devido à poluição industrial, e de forma cumulativa ao longo de décadas. “Retiramos amostras de poços que têm mais de 20 anos e outros recentes, de apenas algumas semanas”, informou Meyer. A hipótese é de que os rios que começam nos Andes vão deixando seus sedimentos ao longo dos canais. Depois, esses elementos se infiltram nos poços subterrâneos.

Cânceres e mortes

Na nova etapa da pesquisa, a equipe vai medir as concentrações químicas em amostras de poços utilizados por comunidades brasileiras. Mas, como na etapa anterior, não há o objetivo de examinar os impactos na saúde da ingestão da água contaminada com arsênico e os elementos químicos nem a extensão do problema. “Não podemos afirmar quantas pessoas estão afetadas”, declarou Meyer.

Segundo a pesquisadora, são necessários mais dados para identificar os locais em que os níveis de toxicidade estão especialmente elevados e as comunidades consideradas altamente dependentes dos poços. Em Bangladesh, onde o problema é conhecido há várias décadas, órgãos de saúde calculam que a ingestão de água contaminada com arsênico provoque quase 40 mil mortes prematuras por ano (Leia Para saber mais).

A longo prazo, a exposição crônica ao composto está ligada ao surgimento de cânceres de fígado, rim e bexiga, além de doenças cardiovasculares. Também é associada a abortos espontâneos, pouco peso ao nascer e problemas de desenvolvimento cognitivo em crianças. Em doses tóxicas, o manganês pode provocar danos neurológicos permanentes. Não há efeitos conhecidos sobre a exposição contínua ao alumínio.

Presença mascarada

Como as complicações demoram a aparecer, a ingestão do arsênico pode demorar a ser descoberta. Os pesquisadores alertam que, no caso das comunidades da Bacia do Amazonas, o nível de conscientização sobre o problema é muito reduzido. Além disso, por uma pura questão de acaso químico, o nível de intoxicação talvez tenha sido mitigado pelo fato de, geralmente, a água contaminada com arsênico também conter ferro.

Para Meyer, por se tratar de áreas com saneamento precário, a solução para o problema não é simples. “Você poderia tentar filtrar a água, o que não funcionaria para todos os elementos, ou talvez procurar aquíferos seguros, que, pelo que descobrimos, tendem a ser mais profundos”, sinalizou. A Bacia do Amazonas, drenada pelo Rio Amazonas e por seus afluentes, tem 7.500.000 quilômetros quadrados e atravessa oito países.

Para saber mais

 

Problema de 50 milhões 
A dependência de água contaminada por arsênico não é um problema apenas de latinos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em todo o mundo, cerca de 150 milhões de pessoas o enfrentem. Geralmente, são regiões em que o composto está dissolvido com sedimentos fluviais e material orgânico, como nos deltas do Ganges, em Bangladesh, e do rio Vermelho, no Vietnã.

Uma outra pesquisa do Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia Aquáticas mostra que, no Paquistão, a contaminação dos poços pode estar relacionada à infiltração de água de irrigação através do solo alcalino e de sedimentos minerais e orgânicos. Há regiões no país em que as pessoas estão expostas a mais de 50 micrograma do arsênico por litro de água. A recomendação da OMS é de no máximo 10 microgramas.

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