Publicidade

Correio Braziliense

Artrose pode ser causada por bactérias nocivas da alimentação gordurosa

Micro-organismos presentes na flora intestinal podem causar a inflamação que compromete articulações das mãos, do quadril e dos joelhos, segundo estudo americano. Em testes com ratos, a regulação da microbiota interrompeu o avanço da doença


postado em 21/04/2018 07:00

Os milhões de micro-organismos que habitam nosso trato digestivo exercem papel importante na digestão e ajudam no combate a infecções. Se a composição estiver desregulada, porém, surgem problemas como náusea e diarreia e até alguns que extrapolam os limites do intestino, como complicações nas articulações das mãos e dos joelhos. Segundo estudo publicado na revista JCI Insight, a proliferação de bactérias nocivas causada pela alimentação gordurosa pode ser fator-chave no desenvolvimento da osteoartrite.

Também conhecida como artrose, a doença causa inflamação e degeneração das cartilagens do corpo — principalmente no joelho, nas mãos, no quadril e na coluna —, trazendo dores e dificuldade de movimento. A obesidade é um dos principais fatores de risco, mas outra condição que provocaria o problema seria a presença de algumas bactérias na flora intestinal, segundo pesquisadores americanos. A relação foi detectada em ratos obesos, que apresentaram maior quantidade de micro-organismos nocivos no intestino e desenvolveram a osteoartrite nos joelhos.

A hipótese é de que essas bactérias interferem no sistema imunológico e causam inflamação pelo corpo, incluindo a doença nas articulações. Na segunda etapa do experimento, as cobaias obesas e com osteoartrite receberam um tratamento para regular a microbiota e suas articulações voltaram ao mesmo estado do de roedores magros. O tratamento foi feito com o prebiótico oligofrutose, parte de um grupo de substâncias que servem como alimento para as bactérias benéficas ao corpo.

Segundo Michael Zuscik, da Universidade de Rochester, e um dos autores do estudo, essas colônias podem ter aumentado de tamanho, obtendo vantagem sobre as que causavam as inflamações. “Ou então as bactérias benéficas podem ter produzido subprodutos metabólicos que reduziram a inflamação diretamente nas juntas”, cogita. “Nós não temos certeza sobre qual desses cenários ocorre.”

Os ratos tratados continuaram obesos, mas as articulações voltaram ao estado saudável. Isso sugere que a inflamação causada pela microbiota pode ter um papel importante na osteoartrite e que tratamentos com probióticos podem ajudar a desacelerar a progressão da doença. “A oligofrutose preveniu completamente a aceleração da osteoartrite causada pela obesidade, preservando grande parte da cartilagem na junta”, destaca Zuscik.


Multifatorial


Saulo Castro, ortopedista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho, ressalta que a artrose não é um processo apenas degenerativo, mas também inflamatório. Dessa forma, a alimentação prebiótica, como proposta pelo estudo americano, pode diminuir esse processo. “Temos que pensar que a artrose é multifatorial. Acho que esse estudo combate um ponto específico, o que pode ser agregado ao tratamento”, diz.

O médico pondera que o estudo foi feito em ratos, e que a flora intestinal humana pode não reagir da mesma forma à intervenção proposta. “Apesar de não sabermos se a oligofrutose ajudará humanos, estamos planejando experimentos para descobrir”, adianta Zuscik.“Nós achamos que é possível, já que algumas das bactérias ajudadas pelo prebiótico são conhecidas em humanos e estão presentes até em alguns alimentos.”

Caio Tavares, professor do Laboratório de Interação Microrganismo-Hospedeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que a microbiota humana sofre alterações desde o momento do nascimento e está suscetível aos impactos da interação com vários fatores. “Dependendo do alimento que você consome, você favorece o estabelecimento de determinados micro-organismos e dificulta o de outros”, ilustra.

Para o professor, o estudo americano, além de bem conduzido, tem implicação importante do ponto de vista terapêutico. “Ele sugere fortemente que há outros mecanismos no processo da artrose, além da obesidade”, explica. Segundo Tavares, existe um grande interesse com os possíveis efeitos que a microbiota pode ter sobre o corpo, como alterações na produção hormonal e até no sistema nervoso central.

Até agora, porém, a maioria desses estudos é feita com ratos. “Mostrar que é a microbiota que causa alguma patologia ainda é algo a ser buscado. No futuro, quem sabe, poderemos fazer diagnósticos, prognósticos ou acompanhar algum tratamento ao avaliar os micro-organismos. A ideia é incorporar a avaliação da microbiota a outros tratamentos”, diz.

* Estagiário sob supervisão da subeditora Carmen Souza

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade