Ciência e Saúde

Estudo: convencer pessoas contra a imunização a se vacinar é perda de tempo

Pesquisadores recomendam abordagem comportamental para estimular aqueles que simpatizam com a ideia, mas, por motivos diversos, não aderem às campanhas

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 24/04/2018 06:00
Arte sobre vacinação -  (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Arte sobre vacinação - (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Arte sobre vacinação


Em face das epidemias cada vez mais comuns de influenza e outras doenças preveníveis com imunização, pais, educadores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas muitas vezes ficam na dúvida sobre a melhor abordagem para convencer a população a se vacinar. Uma revisão de artigos científicos descobriu que a persuasão pode não ser a opção mais favorável. Em vez disso, os autores do artigo, publicado na revista Psychological Science in the Public Interest, defendem que intervenções comportamentais são mais efetivas que a tentativa de fazer alguém mudar de ideia.

;Um mito comum é que é fácil persuadir as pessoas a se vacinar;, diz Noel T. Brewer, pesquisador da Universidade da Carolina do Norte e primeiro autor do artigo. ;Mas quando foi a última vez que ouvir sobre um fato uma única vez o fez se exercitar regularmente, perder peso ou parar de fumar? É o mesmo em relação à vacinação;, diz. O trabalho de revisão sugere que há pouca evidência da efetividade de campanhas que geralmente se focam em mudar as percepções e atitudes das pessoas sobre imunização.

Para entender os fatores que estão por trás do comportamento associado à vacinação, Brewer e os coautores do artigo examinaram as descobertas mais recentes em uma variedade de campos, incluindo ciência psicológica, saúde pública, medicina, enfermagem, sociologia e economia comportamental. ;Como Brewer e os colegas notam, a ciência psicológica oferece ideias sobre o porquê de as pessoas aderirem a comportamentos de saúde, incluindo a vacinação. Ao publicar esse artigo, os autores estão prestando um serviço à sociedade, pois integram uma literatura desconectada sobre teorias psicológicas e vacinação, que podem servir para intervenções práticas;, observa Victor J. Dzau, presidente da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos.

Adesão


Um dos desafios das campanhas de imunização é que a adesão varia dependendo da vacina. As voltadas às crianças costumam ter um forte apoio do público, com a maioria dos meninos e meninas do mundo recebendo as doses recomendadas. Por outro lado, muitos adultos deixam de se vacinar contra doenças como a gripe sazonal. ;A vacinação é um dos grandes ganhos da saúde pública do século passado. Ainda assim, a cobertura está bem abaixo do ótimo para algumas substâncias, e profissionais de saúde enfrentam pais e pacientes hesitantes sobre elas;, diz Gretchen B. Chapman, pesquisadora da Universidade de Carnegie Mellon e coautora do trabalho. ;Compreender todos os benefícios da vacinação implica uma abordagem comportamental;, observa.

Segundo os pesquisadores, os melhores dados disponíveis indicam que o percentual de pessoas que se recusam ativamente a tomar todas as vacinas é muito pequeno e que nem a negação ou o atraso estão em alta. Isso contradiz a narrativa contemporânea de que está aumentando o número de pessoas que rejeitam a imunização, argumentam os autores. Eles dizem que, na verdade, a maior parte das pessoas recebe a maioria das vacinas recomendadas pelos médicos. Muitas outras têm atitudes favoráveis em relação a elas, mas nem sempre seguem o regime corretamente.

Para contornar esse problema, a pesquisa sugere que as melhores intervenções tiram vantagem das intenções favoráveis da população, empregando estratégias comportamentais simples, como enviar mensagens de lembrança para os pacientes. ;Nossa principal mensagem para os formuladores de políticas públicas é que, surpreendentemente, as evidências mais fortes sugerem que incentivar aqueles favoráveis à vacina é mais efetivo que tentar mudar a cabeça dos que a rejeitam;, diz Chapman.

Em alguns casos, as pessoas encontram informações falsas ou incorretas sobre vacinas. Pesquisas mostram que a melhor forma de corrigir isso é reiterar os fatos verdadeiros claramente e de forma a se encaixar com as crenças intuitivas das pessoas. As conclusões são apoiadas por múltiplas fontes de evidências, mas os pesquisadores notam que muitos dos estudos disponíveis sobre o comportamento em relação à vacinação têm limitações qualitativas e quantitativas. Pesquisas que investigam as atitudes a respeito da imunização são raras e poucas examinam mecanismos e componentes específicos de uma intervenção eficaz, notam os autores.

Apesar dessas limitações, estudos transcontinentais estão convergindo para descobertas em comum. Em geral, essas pesquisas mostram que a aceitação da vacina tende a ser alta, apesar de haver hesitação sobre ela, e que os fatores que motivam a população a aderir à imunização são semelhantes entre os países. ;Vacinação é um assunto de saúde pública, com a ciência psicológica fornecendo uma lente para compreender os fatores que motivam a imunização. As intervenções que têm o maior impacto são aquelas baseadas nas teorias psicológicas e nas evidências comportamentais;, conclui Noel T. Brewer.

Para saber mais


Revolta popular

; Paloma Oliveto
A mais polêmica campanha vacinal brasileira aconteceu há 114 anos, no Rio de Janeiro. Sob o comando do sanitarista Oswaldo Cruz, o governo começou uma imunização obrigatória contra varíola, doença infecciosa gravíssima, eliminada do mundo apenas na década de 1960. A intenção era a melhor, mas a estratégia foi um fracasso. O Brasil da época era pobre e analfabeto. Se, mesmo entre os bem-nascidos, a novidade da vacina gerava desconfiança, o que dizer de um povo para quem a informação era artigo de luxo.

Em 1904, a massa trabalhadora já estava farta do governo que, com a reforma urbana, colocou abaixo as moradias simples, como cortiços e casas populares, para dar lugar a parques, avenidas e construções verticais. Com no nervo à flor da pele, não houve quem segurasse o povo quando agentes de saúde começaram a bater às portas, munidos de seringas e agulhas. De 10 a 16 de novembro, o Rio de Janeiro entrou em guerra.

Na chamada Revolta da Vacina, houve depredação, conflito com forças de segurança, ataques aos profissionais de saúde. O saldo foi de 30 mortos e 100 feridos. Foi preciso decretar estado de sítio e suspender temporariamente a campanha. Quando a paz voltou à cidade, a vacinação obrigatória foi retomada. A consequência: em pouco tempo, a varíola foi eliminada da então capital do país.

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