Publicidade

Correio Braziliense

Consumo de cálcio está bem abaixo do ideal, dizem especialistas

Especialistas da Fundação Internacional de Osteoporose analisam dados de ingestão dietética do mineral em 74 países e se surpreendem com o resultado: em apenas 16, as recomendações são seguidas. Situação do Brasil é considerada alarmante e não chega à metade do necessário


postado em 29/04/2018 08:00

Cracóvia — Em um mundo que envelhece a taxas sem precedentes na história, a longevidade cobra seu preço. Um deles é o aumento na incidência de fraturas, problema que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), rouba 5,8 milhões de anos de vida saudável da população. Entre idosos, esse é o principal indicador de osteoporose, condição que se caracteriza pela perda acelerada de massa óssea, com diminuição da absorção de cálcio. Ainda assim, a ingestão do mineral na dieta está abaixo do recomendado, segundo um estudo da Fundação Internacional de Osteoporose (IOF, sigla em inglês).

Lançado durante o Congresso Mundial de Osteoporose, Osteoartrite e Doenças Musculoesqueléticas, o mapa interativo do consumo dietético de cálcio surpreendeu especialistas por evidenciar índices insuficientes, com variação expressiva, dependendo do país. Das 74 nações com dados inseridos no mapeamento, incluindo o Brasil, em apenas 16, a ingestão por adultos ultrapassa 900mg por dia — a recomendação da OMS é de 1000mg diários. Entre os brasileiros, a média é baixa: 500mg a 600mg.

“Surpreendeu-nos ver que há grande quantidade de países onde o consumo do cálcio na dieta é baixo e médio, seja no Sudeste Asiático, seja no Pacífico, em partes da Europa e na América do Norte. E também no Brasil, que apresentou uma média particularmente preocupante”, observa Cyrus Cooper, diretor associado de pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de Southampton, na Inglaterra, e presidente da IOF. O epidemiologista, cujas pesquisas que lidera ajudaram a estabelecer fatores de risco para fratura de quadril e osteoporose, diz que os estudos estimam que, se o consumo de cálcio na alimentação fosse ao menos de 800mg por dia, haveria uma redução entre 15% e 20% na incidência de fraturas.

No Brasil, o mapa do cálcio foi liderado pelo reumatologista Cristiano Zerbini, diretor do Centro Paulista de Investigação Clínica e autor de 100 artigos científicos nessa área. Os dados nacionais vieram da revisão de dois trabalhos que trazem informações sobre 21.003 adultos de 20 a 59 anos e de 4.322 pessoas com mais de 60. O médico ressalta que, enquanto a genética é responsável por cerca de 70% da saúde dos ossos, o restante depende da prática de exercícios físicos, do hábito de tomar sol e da alimentação. Mas Zerbini constata, no consultório, que o consumo de produtos lácteos pela população brasileira está cada vez menor. “Quando você pergunta, o paciente diz que toma uma xicrinha de leite pela manhã, misturada ao café.”

Reposição 


A grande preocupação do reumatologista é que, como o resto do mundo, o Brasil está envelhecendo. “A pirâmide populacional já está em formato de barril e os estudos científicos indicam que em 2050 haverá um aumento de quase cinco vezes na população com mais de 70 anos, chegando a 34,3 milhões”, alerta. No país, o risco de fratura grave é de 50% entre mulheres acima dos 50, e de 20% a 25% no caso dos homens. Isso acontece porque, depois que se atinge o pico de massa óssea, ou seja, a quantidade máxima de osso acumulado, o que ocorre na terceira década de vida, a tendência é estabilização e, depois, queda. Com a idade, a absorção da substância pelos intestinos também diminui.

Como o organismo não produz o mineral, ele depende de fontes externas para a reposição. “A prioridade do organismo não é cálcio no esqueleto, é no sangue. Para os músculos, inclusive o coração, funcionarem, o nível de cálcio sérico precisa estar normal”, diz Zerbini. “Se esse nível cai, o organismo tira o mineral do esqueleto para colocá-lo no sangue; quem faz isso é um hormônio chamado paratormônio. Se não estou ingerindo cálcio, o nível no sangue vai baixar e, para que isso não aconteça, o hormônio tira o cálcio do esqueleto e coloca no sangue. Quando isso acontece com frequência, o osso vai ficando fraquinho.”

O imunologista francês Phelippe Halbout, diretor executivo da IOF, destaca que não se pode afirmar com certeza que a ingestão do cálcio reduz o risco de fraturas ou de osteoporose. “Mas nós sabemos que o cálcio e a vitamina D têm impacto sobre a saúde dos ossos. Por isso, quando se tem pacientes com ossos frágeis e que já sofreram uma primeira fratura, por exemplo, e os médicos resolvem tratá-los de forma preventiva, a suplementação com cálcio e vitamina D são sempre a primeira opção”, afirma.

Intolerância

O mapeamento da ingestão do cálcio não teve como objetivo investigar as causas do baixo consumo nutricional do mineral. Porém, os especialistas levantam algumas hipóteses. Para Zerbini, no Brasil, pode ser uma questão econômica. Embora o litro do leite longa vida no varejo brasileiro seja um dos menores do mundo, ficando abaixo de R$ 3, ele acredita que diferenças socioeconômicas regionais explicam o baixo consumo. Já Cyrus Cooper, da IOF, aposta nas mudanças de hábito alimentar: “O fast-food, cada vez mais comum, quase não fornece cálcio”, afirma. Já no caso do Sudeste Asiático, o pesquisador inglês afirma que há uma forte associação com o fato de boa parte da população dessa região sofrer de intolerância à lactose.

Em lugares como China, Nepal, Indonésia, Malásia e Cingapura, a ingestão nutricional do cálcio fica abaixo de 400mg/dia. Ao mesmo tempo, estudos indicam que até 90% dos asiáticos não têm a enzima que digere a lactose do leite. Mas Cooper destaca que, nesses casos e no de veganos, que não consomem nenhum produto de origem animal, é possível obter cálcio de outra formas. Uma das ideias é a fortificação de alimentos, como ocorre no Brasil com o sal de cozinha, no qual se adiciona iodo, e com a farinha de trigo, enriquecida com ácido fólico e ferro. Uma opção mais acessível, já que a adição de substâncias nos produtos alimentícios depende de regulamentação do governo, é o uso de suplementos de cálcio.

Para o presidente da IOF, o mapeamento da ingestão do cálcio poderá nortear políticas públicas. “Há um grande impacto porque, geralmente, os formuladores de políticas nutricionais não têm comparações detalhadas de seus países com o restante do mundo. Agora, os departamentos de saúde poderão se perguntar o que podem fazer para alcançar as recomendações de cálcio e, inclusive, focando em populações específicas, como crianças ou idosos”, acredita Cooper.

* A repórter viajou a convite da Sanofi Consumer Healthcare 


Duas perguntas para 
Bess Dawson Hughes, professora de medicina da Universidade de Tufts, em Massachusetts, e diretora do Laboratório de Metabolismo Ósseo do Centro de Pesquisa em Nutrição Humana

Há estudos associando a ingestão dietética do cálcio e menor incidência de fraturas?
Não, porque fazer uma intervenção nutricional com um número suficiente de pessoas por um intervalo de tempo suficiente é impossível. O que temos são comparações de resultados de um ensaio australiano de três braços, onde foram usados placebo, leite em pó e suplemento de cálcio, que investigou as mudanças na densidade mineral óssea ao longo de muitos anos. Esse estudo viu um efeito favorável sobre a densidade do osso no caso do leite em pó e do suplemento. É o mais próximo que temos em estudos de intervenção.

O que pode ser feito para estimular a ingestão de cálcio?
A ingestão do cálcio em diferentes culturas e regiões sempre vai variar. Acredito que um programa que poderia ser altamente efetivo é a fortificação de alimentos, ou seja, adicionar pequenas quantidades de cálcio em alimentos que são muito consumidos e em grandes quantidades, como a farinha. Diferentes governos têm diferentes legislações sobre isso. Na China, por exemplo (onde o consumo de cálcio na alimentação fica abaixo de 400mg/dia), especialistas disseram, no Congresso Mundial de Osteoporose, Osteoartrite e Doenças Musculoesqueléticas, que isso jamais funcionaria, por questões burocráticas. Então, o que eles têm feito é fornecer um copo de leite para crianças nas escolas. As estratégias vão variar muito, de acordo com as realidades. Outra ação seria tentar mudar comportamentos alimentares, isso é algo muito importante de se fazer, encorajar as pessoas a ingerir mais alimentos com cálcio. No Brasil, vocês não têm tanto problema de intolerância à lactose como na Ásia, então isso seria possível. Por fim, temos a suplementação, ajuda muito a solucionar o problema, com pouquíssimos efeitos colaterais e a um custo baixo.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade