Publicidade

Correio Braziliense

OMS alerta que uma em cada 10 pessoas respiram ar contaminado

Respirar a sujeira invisível que contém uma infinidade de substâncias tóxicas custa um preço alto: 7 milhões de mortes prematuras anuais, sendo 55% delas na forma de doenças cardiovasculares, como infarto e derrame


postado em 02/05/2018 06:00 / atualizado em 01/05/2018 22:27

(foto: /Getty Images/AFP)
(foto: /Getty Images/AFP)

Para 91% dos habitantes do planeta, o ar não é só um elemento vital, mas também um veneno em potencial. Esse é o percentual da população exposta a partículas poluentes, seja no ambiente externo, seja no doméstico. Respirar a sujeira invisível que contém uma infinidade de substâncias tóxicas custa um preço alto: 7 milhões de mortes prematuras anuais, sendo 55% delas na forma de doenças cardiovasculares, como infarto e derrame.

Segundo um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), embora global, o problema expõe a desigualdade socioeconômica. Mais de 90% dos óbitos associados à poluição ocorrem em países pobres e em desenvolvimento, especialmente na Ásia e na África, seguidos por nações de renda baixa e média do Mediterrâneo, da Europa e das Américas. O documento se baseia em mensurações de material particulado (MP) — resíduos da queima de combustíveis fósseis suspensos na atmosfera — de 4,3 mil cidades de mais de 108 países, incluindo o Brasil.

O maior banco de dados mundial sobre poluição atmosférica traz as concentrações anuais de MP 10 e MP 2,5, sendo esse último o que oferece maiores riscos à saúde humana: refere-se aos perigosos sulfatos, nitratos e carbono preto. As recomendações de qualidade do ar da OMS estipulam que os valores aceitáveis são 20 micropartículas por m³, no caso dos MP 10, e 10 micropartículas por m³ para os MP 2,5. A variação global dessas concentrações é enorme, mostra o relatório.

Por exemplo, em Ludhiana, na Índia, as medições apontam 228 micropartículas por m³ de MP 10. Já em Dublin, na Irlanda, esse valor é de 16 micropartículas por m³. No Brasil, segundo informações de quatro anos atrás, o Distrito Federal é um destaque negativo: a população está exposta a 118 micropartículas por m³ de MP 10 e 54 de MP 2,5, enquanto na industrial São Bernardo do Campo (SP) as concentrações são, respectivamente, 36 e 17. Os dados brasileiros (395 municípios de sete estados, além do DF) foram fornecidos pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) e são conhecidos desde a divulgação do 1º Diagnóstico da Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar no Brasil, de abril de 2014.

Monitoramento

“Sete milhões de mortes por ano devido à poluição do ar é uma cifra totalmente inaceitável. O fato de 91% da população respirar ar sujo é realmente dramático”, disse, em uma coletiva de imprensa por telefone Maria Neira, diretora do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Sociais e Ambientais de Saúde da OMS. Ela ressaltou que, desde o último relatório, de 2016, não houve mudanças no número de óbitos associados nem ao percentual da população que vive nessas condições. Neira, porém, diz que o fato de o levantamento trazer dados de mais mil cidades em relação ao anterior deve ser comemorado. “Grande parte das cidades agora faz esse monitoramento, e isso é uma ótima notícia, porque quando você começa a monitorar, é mais fácil fazer políticas públicas para enfrentar o problema”, considera.
Os dados compilados e ajustados pela OMS mostram que as áreas com maiores níveis de poluição atmosférica são o leste do Mediterrâneo e o sudeste asiático, onde a média anual geralmente excede mais de cinco vezes os limites considerados seguros. Em seguida, aparecem cidades de renda baixa e média da África e da Oceania. Contudo, nessas duas regiões, há uma “séria falta de dados”, destaca o órgão das Nações Unidas. No continente africano, embora o mapeamento atual tenha duas vezes mais municípios que o de 2016, só há monitoramento disponível de oito dos 47 países. Em contraste, a Europa é a parte do mundo com maior número de cidades reportando dados.

Embora os países ricos, de forma geral, tenham qualidade do ar acima do registrado em nações de renda baixa e média, eles não escapam da mortalidade associada à poluição. Em municípios desenvolvidos da Europa, dependendo do nível de partículas tóxicas no ar, a expectativa de vida pode ser reduzida entre dois e 24 meses, aponta o relatório da OMS.

Derrame, infarto, doença pulmonar obstrutiva crônica (incluindo asma) e câncer de pulmão são as enfermidades associadas, mas, na coletiva de imprensa, Sophie Gumy, técnica do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Sociais e Ambientais de Saúde da OMS lembrou que esses não são os únicos problemas de saúde causados pelo material particulado no ar. “Há evidências científicas robustas sobre a influência da poluição nas doenças neurodegenerativas, como Alzheimer”, ressaltou. “Exceto nas Américas e países de alta renda, não há região do mundo onde mais de 35% da população esteja respirando ar limpo, e isso não é aceitável.”
 


Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade