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Correio Braziliense

Pais que sofrem de enxaqueca têm 75% de chance de ter filho com a doença

Os cientistas usaram essa descoberta para criar uma pontuação capaz de avaliar a predisposição genética de uma pessoa para desenvolver o transtorno


postado em 04/05/2018 06:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Uma forte dor de cabeça, sensibilidade à luz, enjoo, quase sempre misturados, são todos sinais de uma enxaqueca. A doença é considerada uma das mais incapacitantes pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e tem na predisposição genética um fator importante para o seu surgimento. Segundo a Fundação Americana de Enxaqueca, se pelo menos um dos seus pais tem o transtorno, sua chance de desenvolvê-lo fica entre 50% e 75%. Para entender melhor quais os mecanismos genéticos que transmitem a doença dentro de uma família, pesquisadores da Universidade Helsinki e do Instituto Broad — que reúne cientistas da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts — realizaram um dos maiores estudos sobre o tema, publicado ontem na revista Neuron.


A pesquisa usou o histórico médico e informações genéticas de 1.589 famílias finlandesas que sofrem com a doença, totalizando mais de 8.300 indivíduos. Um estudo anterior, com 59 mil participantes, realizado pela mesma equipe, identificou 40 variantes genéticas que aumentam consideravelmente o risco de se desenvolver enxaquecas, além de centenas de outras mutações que têm um impacto mais sutil.

Os cientistas usaram essa descoberta para criar uma pontuação capaz de avaliar a predisposição genética de uma pessoa para desenvolver o transtorno, e a aplicaram nas famílias finlandesas. Os resultados mostraram que, para todos os tipos de enxaquecas, os casos familiares são resultado de uma combinação de diversas variantes que se acumulam ao longo do tempo.

“Tanto as variações genéticas raras e de alto impacto quanto aquelas mais comuns, com impacto menor, podem contribuir para a agregação da enxaqueca em uma família”, disse Padhraig Gormley, do Instituto Broad, principal autor do artigo. “Nesse estudo, nós queríamos encontrar quais delas são mais importantes, e se a carga genética é mais alta em alguns tipos do transtorno”, acrescentou.

Combinações

Existem vários subtipos de enxaqueca, entre eles: com ou sem aura; e hemiplégica. A última é uma forma mais rara, causa dor extrema e sintomas parecidos com os de um derrame ou um ataque epiléptico. Entre os participantes do estudo, 2.420 foram diagnosticados com enxaqueca com aura, e 540 com a forma hemiplégica. As informações genéticas dos membros das famílias foram comparados com o de uma amostra populacional de 15 mil finlandeses, com 1.100 casos do transtorno.

Pesquisas anteriores atestaram que a doença pode afetar famílias de duas formas diferentes, de acordo com o seu tipo. Na herança poligênica, a enxaqueca surge como uma combinação de diversos genes que se acumulam de geração em geração. Já na variedade hemiplégica, acreditava-se que duas cópias de um gene herdado do pai e da mãe eram suficientes para o seu surgimento.

Porém, o estudo mostrou que a herança poligênica é o mecanismo mais forte em todos os tipos de enxaqueca, e o fator mais importante para o seu surgimento está na quantidade de variações genéticas, e não a presença de mutações poderosas, que foram identificadas em apenas quatro famílias com casos hemiplégicos.

Os pesquisadores observaram que, nos casos de enxaqueca com histórico familiar, os pacientes possuem uma maior predisposição genética do que nos casos do transtorno presentes na amostra populacional. Além disso, existe uma diferença evidente entre as variantes genéticas comuns presentes nos diferentes subtipos da doença. Indivíduos com o subtipo hemiplégico apresentaram o maior número de mutações. Também foram encontradas significativamente mais variações genéticas em pacientes que desenvolveram o transtorno antes dos 20 anos de idade, em comparação aos casos mais tardios.
“Nosso estudo apoia a hipótese de que os subtipos de enxaqueca são doenças geneticamente heterogêneas, e que a variação poligênica comum contribui significativamente para a agregação do transtorno em famílias, tanto nos casos comuns quanto nos raros”, afirma Aarno Palotie, da Universidade de Helsinki. “Nós nos surpreendemos com o impacto das variantes comuns nas famílias. Porém, grande parte da predisposição genética a enxaquecas permanece sem explicação. É provável que estudos futuros revelem mais variantes de risco”, opinou.

“Está claro que um tratamento focalizado, personalizado baseado nas propriedades individuais dos pacientes será mais seguro, eficiente e econômico do que escolher um medicamento através de tentativa e erro”, disse Mikko Kallela, que também participou do estudo. “Esse trabalho nos deixa um passo mais perto desse objetivo.”

"Nós nos surpreendemos com o impacto das variantes comuns nas famílias. Porém, grande parte da predisposição genética a enxaquecas permanece sem explicação. É provável que estudos futuros revelem mais variantes de risco” 
Aarno Palotie, pesquisador da Universidade de Helsinki e um dos autores do estudo

Sintoma prévio

Cerca de um terço dos pacientes com enxaqueca sofre com um conjunto de sintomas, chamado de aura, que pode se manifestar como flashes de luz, manchas escuras ou dormências e formigamentos em partes do corpo. A aura acontece geralmente antes da dor de cabeça.

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