Publicidade

Correio Braziliense

Obesidade é segunda principal causa de morte no mundo

Segunda principal causa de morte no mundo é um problema multifatorial, que precisa ser combatido em diversas frentes, defendem especialistas. A OMS declarou guerra à gordura saturada, enquanto cientistas também apostam na redução do tamanho das porções


postado em 13/05/2018 08:00 / atualizado em 15/05/2018 10:52

Ao mesmo tempo em que avançam os tratamentos contra doenças desafiadoras, como câncer e Aids, o homem moderno se vê ameaçado por um elemento sem o qual não se vive: a comida. A epidemia de sobrepeso/obesidade já afeta 39% da população adulta e 18% das crianças e adolescentes entre 5 e 18 anos, com consequências consideradas devastadoras para a saúde. Algumas estimativas indicam que o excesso de peso é a segunda causa de morte no mundo, perdendo apenas para as doenças associadas ao tabagismo. Com a maioria das estratégias de contenção do problema até agora infrutíferas, especialistas, governos e associações buscam novas soluções capazes de, ao menos, reduzir parte dele.

A Organização Mundial  da Saúde (OMS), que desde 2004 tem ações específicas de combate à obesidade, agora declarou guerra à gordura saturada, aquela presente em alimentos de origem animal. Na semana passada, o órgão das Nações Unidas abriu consulta pública para debater novas recomendações sobre o consumo desse ingrediente. Em uma teleconferência de imprensa, Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para a Saúde e Desenvolvimento da OMS, afirmou que, com base em 15 anos de produção científica, a ingestão de gordura por crianças e adultos por dia deveria representar, no máximo, 10% das necessidades diárias.

Dessa forma, um homem saudável com recomendação de 2,5 mil calorias por dia consumiria 250 calorias na forma de gordura saturada, o que daria um pouco menos de 30g. Essa é a quantidade de gordura presente em 50g de manteiga, em 130-150 gramas de queijo ou em um litro de leite integral. “Gorduras saturadas e gorduras trans são de particular preocupação devido à correlação entre alta ingestão e risco aumentado de doenças cardiovasculares”, afirmou Branca. Setenta e dois por cento das 54,7 milhões de mortes anuais de pessoas com menos de 70 anos são provocadas por essas enfermidades. Até 1º de junho, qualquer pessoa poderá opinar sobre o assunto na página internacional da OMS (www.who.int). Ao mesmo tempo, a organização alerta que menos de 1% das calorias deve vir das gorduras trans, responsáveis, sozinhas, por 500 mil óbitos por ano.
 
 
 

Sódio


“Altos níveis de ingestão de ácidos graxos saturados e trans estão correlacionados com o aumento do risco de doenças cardiovasculares, principal causa de mortalidade entre as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que, atualmente, representam 74% do total de mortes no Brasil”, afirma a nutricionista Luiza Torquato, da Unidade Técnica do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN). “Desse modo, medidas que incentivem a redução no consumo de gorduras saturadas e trans, associadas a recomendações de ingestão de alimentos saudáveis e incentivo à atividade física, são estratégias que podem ter impactos positivos na saúde pública”, opina.

Reduzir a quantidade de ingredientes do cardápio diário e do preparo de industrializados tem sido uma das estratégias adotadas por países como o Brasil, que assinou, em 2011, um acordo com a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) para reduzir o teor de sódio dos produtos alimentícios. Desde então, foram retiradas 17 mil toneladas do elemento químico da dieta dos brasileiros, segundo o Ministério da Saúde. Há um ano, a pasta fez uma nova parceria com a Abia para redução voluntária de níveis de sódio de pães, bisnaguinhas e massas instantâneas até 2020.

O endocrinologista e metabologista Flávio Cadegiani, membro da Associação Brasileira para Estudos da Obesidade (Abeso) e especialista da The Obesity Society, ressalta que as políticas públicas de combate à obesidade têm apresentado resultados conflitantes. “Nos Estados Unidos, a oferta de alimentos mais saudáveis nas escolas apresentou um desperdício acima de 80%. A oferta de supermercados ‘saudáveis’ em bairros mais pobres dos EUA, na maior parte das vezes, não melhorou o comportamento alimentar daquela população. Por outro lado, no México, a sobretaxação de refrigerantes resultou em uma redução importante do consumo desse produto”, observa (leia artigo nesta página).

Calibragem


O problema é que, de acordo com os especialistas, a obesidade não pode ser atacada em uma só frente, pois envolve múltiplos fatores — inclusive, genéticos. Luiza Torquato, do CFN, lembra que, por trás do excesso de peso, há causas biológicas, ecológicas, econômicas e sociais. “Controlar e reverter a situação exige atuação conjunta dos diferentes setores do governo e participação social”, defende. Como parte das soluções, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Liverpool sugere reduzir a quantidade de alimentos das embalagens, indo na contramão da tendência de agigantar as porções, como acontece, por exemplo, com refrigerantes e pipocas vendidos em cinemas.

Em um estudo conduzido no Instituto de Psicologia da Universidade, Eric Robinson procurou saber se a oferta de porções menores altera a percepção do consumidor sobre o tamanho “normal” que um produto deve ter, fazendo com que, no futuro, ele passe a comprar e ingerir quantidades mais modestas que o habitual. A pesquisa foi feita em três partes, sendo que, na primeira delas, os participantes foram divididos aleatoriamente em grupos, servidos com quiche e salada nas versões grande ou pequena. Os voluntários não sabiam que o objetivo real do experimento tinha relação com o tamanho dos alimentos. No segundo teste, eles deviam se servir o quanto quisessem dos mesmos pratos do dia anterior. No último, feito uma semana depois, os participantes eram questionados sobre o tamanho de porção que preferiam.

Os resultados mostraram que, quando servidos inicialmente com porções menores, as pessoas associam aquela quantidade ao que seria um tamanho normal de comida. Assim, passam a escolher comer menos. “Isso indica que, se o tamanho dos alimentos disponíveis comercialmente for reduzido, essas porções menores e mais apropriadas podem recalibrar a percepção do que é uma quantidade normal de comida. Já se sugeriu anteriormente que encolher o tamanho das porções de industrializados pode ser uma estratégia para reduzir o consumo excessivo de alimentos e, consequentemente, a obesidade em nível populacional”, afirma Robinson.

Artigo - Catástrofe humana
Por Flávio Cadegiani 

A epidemia da obesidade gera gastos atuais perto de meio trilhão de dólares (por estimativas recentes da Organização Mundial da Saúde, começou a reduzir a expectativa de vida em alguns países (em especial nos Estados Unidos da América), e pode ser a grande causa de uma falência de todos os tipos de sistema de saúde atuais em 15 a 20 anos, devido às epidemias de doenças decorrentes da obesidade. Não obstante, a obesidade também apresenta diversas associações a princípio inesperadas, como aquecimento global e o crescimento da poluição. Por isso, a prevenção da piora destes dois desastres naturais também passa pela contenção da obesidade. 

Alguns trabalhos recentes têm mostrado que a obesidade está começando a estagnar. Porém, a sua prevalência está parando de crescer lá no alto, ou seja, estagnar está longe de ser suficiente, o que devemos é derrubar essa curva da forma mais íngreme possível, se quisermos evitar uma catástrofe humana, sem qualquer exagero. 

Desta forma, políticas públicas em obesidade devem ser urgentemente discutidas e implementadas, e apresentam atualmente diversos caminhos: 1. Sobretaxar alimentos com adição de açúcar branco, farinha branca, gordura saturada, refrigerantes, entre outros; 2. Subsidiar alimentos saudáveis (hortaliças, legumes, frutas, alimentos 100% integrais, carne branca); 3. Campanhas maciças de conscientização da obesidade, em proporções muitas vezes maior do que existe hoje; 4. Aumento de oferta de alimentos saudáveis em mais fácil acesso a toda a população; 5. Proibição da propaganda e de marketing de alimentos calóricos e não saudáveis; e 6. Educação médica para todos os profissionais da área, parar que todos estejam aptos a tratar devidamente, porque somente 2% dos pacientes com obesidade recebem tratamento hoje; dada a altíssima prevalência de sobrepeso e obesidade, já não se trata mais de uma doença a ser abordada por especialistas, mas sim por todos os médicos. Estas possibilidades não são excludentes; pelo contrário, devem agir em conjunto pois somente desta forma teremos um combate possivelmente eficaz contra obesidade. 

Como exemplo, no início de 2018, o Chile apertou o cerco contra a indústria alimentícia, ao barrar o marketing infantil e a obrigar a colocação de avisos bem destacados quando o alimento contiver alto teor calórico, de açúcar ou de gordura.

Os resultados científicos de políticas públicas em obesidade infelizmente foram controversos. Nos Estados Unidos, a oferta de alimentos mais saudáveis nas escolas apresentou um desperdício acima de 80%. A oferta de supermercados "saudáveis" em bairros mais pobres dos EUA na maior parte das vezes não melhorou o comportamento alimentar daquela população. Por outro lado, no México a sobretaxação de refrigerantes resultou em uma redução importante do consumo deste produto. 

Além dos resultados conflitantes, existem diversos obstáculos para a implementação desta política, que incluem o lobby da indústria alimentícia, a dificuldade de classificação do que é um alimento "apropriado" e saudável, a resistência da própria população, principalmente com obesidade, que em grande parte apresenta uma relação emotiva e química com a comida de alta densidade calórica, a quebra de paradigmas, incluindo a de que trata-se de impedir o acesso a um direito universal (o alimento), entre muitos outros. 

O caminho para conter a epidemia da obesidade deve ser semelhante aos caminhos tomados contra o tabagismo, cuja conscientização progressiva dos governos e das populações foram permitindo condutas cada vez mais rigorosas contra o tabaco (veja, se logo no início das campanhas anti-tabagismo, quando a conscientização ainda não era plena, apresentassem propostas de medidas extremas, como apresentar imagens degradantes dos efeitos do cigarro nas caixas dos maços, jamais seriam aceitas). 

Não podemos nos manter inertes, como temos estado, nesta guerra contra um inimigo tão poderoso. Quando entendermos que obesidade não se trata apenas de "más escolhas alimentares", fraqueza ou de "fechar a boca", e sim de uma doença que faz acumular mais gordura, ter vícios alimentares, impedir perda de peso, e reganhar tudo o que perdeu, devido ao componente genético de até 70%, iremos começar a tratar a obesidade como ela merece. Antes da conscientização do paciente com obesidade (não se usa mais o adjetivo "obeso/a/os/as"), temos que ter a conscientização real do governo, dos médicos, da população e da mídia sobre o que é obesidade - e somente acreditaremos que estamos mais conscientes sobre esta doença quando pararem de tratar com preconceito o paciente com obesidade, o tratamento da obesidade, e de achar glorioso tão e somente aqueles/as que perdem "apenas com dieta e atividade física". Daí começaremos a ter propostas de políticas verdadeiramente eficazes, cuja aceitação será resultado natural da conscientização real de todos. 

* Flávio A. Cadeginani é endocrinologista/metabologista, especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e doutor em endocrinologia clínica pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM)

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade