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Correio Braziliense

Álcool favorece a proliferação de bactérias nocivas na boca

Consumir mais de três drinques diários pode levar a cânceres e infecções


postado em 16/05/2018 06:00

(foto: Hoang Dinh Nam/AFP)
(foto: Hoang Dinh Nam/AFP)

Assim como o cigarro, a ingestão regular de bebidas alcoólicas pode comprometer a saúde bucal. Um estudo americano mostra que, em contato frequente com o álcool, o microbioma oral tem a composição de bactérias alterada, deixando o corpo mais suscetível a uma diversidade de doenças, de infecções a cânceres. Detalhes do trabalho foram divulgados, neste mês, na revista Microbiome. 

Para chegar à conclusão, os investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque estudaram 1.044 voluntários, com idade entre 55 e 87 anos e classificados conforme o hábito de ingerir álcool: 270 não consumiam bebidas alcoólicas, 614 bebiam moderadamente (de um a três drinques por dia) e 160 bebiam em grande quantidade (no mínimo três drinques diários).

Jiyoung Ahn, uma das autoras do estudo, conta que todos os participantes estavam saudáveis no início da investigação, quando forneceram amostras do microbioma da boca e informações sobre a ingestão de álcool. “As amostras foram estudadas para que as bactérias orais fossem classificadas e quantificadas geneticamente”, explica. Analisando o material, a equipe conseguiu identificar quais micro-organismos estavam mais concentrados na boca dos participantes, conforme os hábitos de ingestão de álcool.

Entre as descobertas está a de que o alto consumo de álcool causa aumento de bactérias prejudiciais no microbioma oral, como Actinomyces, Leptotrichia, Cardiobacterium e Neisseria, que estão relacionadas a doenças bucais, câncer de pâncreas e inflamações pelo corpo (Veja infográfico). Por outro lado,  a bactéria Lactobacillales, comumente usada em suplementos alimentares probióticos, foi detectada em menos quantidade naqueles que ingeriam álcool em maior quantidade.

“Nossos estudos oferecem evidências claras de que beber é prejudicial para manter um equilíbrio saudável de micróbios na boca. Também ajuda a explicar por que beber, assim como fumar, leva a alterações bacterianas já ligadas a câncer e doenças crônicas”, ressalta Jiyoung Ahn.

 

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Vinho ou cerveja? 

A equipe também avaliou os impactos no microbioma conforme a bebida ingerida — vinho, cerveja e licor. Os participantes que bebiam vinho, quando comparado ao grupo de controle (que não bebia álcool),  apresentaram diminuição da bactéria Peptococcus, que pode causar infecção oral. No caso dos consumidores de cerveja, a redução atingiu micro-organismos do gênero Porphyromonas, associados a alguns tipos de periodontite, e houve aumento de Parascardovia, patógeno encontrado em placa e cáries dentárias. O consumo de licor diminuiu a abundância de Lachnospiraceae, também encontrado no sistema digestivo e responsável por ajudar a digerir fibras.

Para Michel Messora, chefe do Departamento de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial e Periodontia da Universidade de São Paulo (USP), esse detalhamento é o que mais chama a atenção no trabalho norte-americano. “A novidade desse estudo é associação considerando a quantidade de consumo de álcool e o tipo de bebida alcoólica consumida”, diz.

Segundo Vagner Rodrigues Santos, professor de patologia Bucal da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o trabalho confirma resultados anteriores relacionando ingestão de álcool e saúde bucal. Sobre a maior suscetibilidade a doenças, ele explica que, no caso do câncer de boca e de esôfago, o fenômeno pode estar relacionado ao processamento do álcool no corpo.

“Sabe-se que o metabolismo do álcool feito pelos micro-organismos leva a um produto final chamado acetaldeído, que altera o comportamento das células normais do epitélio. Com o tempo, isso pode provocar mutação gênica nas células, que poderão se modificar em cancerosas”, detalha o professor. Santos acrescenta que os micro-organismos metabolizadores do álcool também estão associados a doenças periodontais, como a gengivite e a periodontite. “Além disso, há as doenças infecciosas envolvendo os dentes e a mucosa bucal, como a candidíase, e o câncer oral”, complementa.
A postos

A condição de vulnerabilidade devido a alterações no microbioma oral significa que as bactérias estão prontas para desencadear uma infecção ou se juntar a outros patógenos para se espalhar pelo corpo. Messora explica que, nesses casos, acaba a consonância entre o hospedeiro e os micro-organismos. “Quando há uma desarmonia nessa relação, caracterizando um estado de disbiose (desequilíbrio da flora bacteriana), o microbioma de um ambiente específico do organismo humano se torna patogênico, ou seja, tem a capacidade de mudar o estado de saúde para o estado de doença”, diz o professor da USP.

Santos chama a atenção para o fato de que fenômenos desse tipo não acontecem apenas entre aqueles que exageram na ingestão de bebidas alcoólicas. Segundo o professor da UFMG, as bactérias patogênicas sempre estão a postos para agir em benefício próprio caso haja alteração bucal favorável. “Portanto, não existe  dizer que ‘eu bebo muito’ ou ‘eu bebo pouco’, ambas as quantidades de bebidas alteraram o microbioma oral temporariamente ou permanentemente, dependendo do hábito de cada pessoa”, alerta.   

 

Palavra de especialista

Combinação de cuidados

“O caminho certo é buscarmos sempre uma harmonia entre o hospedeiro e seu microbioma, e isso pode ser atingido com adoção de hábitos saudáveis de vida. Em se tratando de saúde bucal, é essencial realizarmos controle regular de biofilme com hábitos corretos de higiene bucal, reduzirmos a exposição do ambiente bucal aos fatores de risco envolvidos na patogenia de cáries e periodontites — dietas ricas em açúcares e carboidratos, tabagismo e álcool — e controlarmos o estado de saúde geral, evitando diabetes, obesidade, síndrome metabólica e uso indiscriminado de anabióticos.”
Michel Messora, chefe do Departamento de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial e Periodontia da Universidade de São Paulo.

 

 

* Estagiária sob supervisão da subeditora Carmen Souza 

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