Publicidade

Correio Braziliense

Cientistas alemães tentam decifrar o que está por trás do faro de cachorros

Cientistas alemães começam a decifrar o que está por trás do faro apurado de cachorros. Em experimentos com animais treinados e domésticos, descobriram que todos eles criam uma espécie de representação mental do objeto a ser encontrado


postado em 30/05/2018 06:00


(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)
Os melhores amigos do homem também são conhecidos pelo olfato apurado. Habilidade que lhes garante lugar de destaque em equipes especializadas em salvamento e segurança. No campo da ciência, porém, o faro canino desperta curiosidade. Cientistas se perguntam, por exemplo, como esses animais conseguem diferenciar determinados objetos usando o focinho. Um grupo de pesquisadores alemães começou a decifrar esse mistério. Eles descobriram que os cachorros rastreiam elementos específicos por meio de uma “representação mental” do alvo.

“Durante muito tempo, nós testamos os cachorros em nossa modalidade preferida: a visão. Mas, para compreendê-los melhor, devemos tentar descobrir como percebem o mundo através do nariz. Há muito sobre percepção de odor em cães e habilidades cognitivas. Nesse estudo, tentamos vincular essas duas coisas”, diz ao Correio Juliane Bräuer, líder do estudo e pesquisadora do Instituto Max Planck, na Alemanha.

Bräuer e a equipe testaram 48 cães: 25 haviam sido anteriormente submetidos a treinamentos com a polícia ou equipe de busca e salvamento e 23 eram cães de família, sem habilidades especiais. Primeiro, os cachorros participaram de um pré-teste no qual tinham que recuperar dois brinquedos obedecendo à brincadeira de jogar e buscar.

Depois, os cães ficaram expostos a duas situações: sentir o cheiro de um brinquedo e encontrar o mesmo, e sentir o cheiro de um brinquedo e encontrar outro. Para isso, tinham de seguir uma trilha de perfume desenhada com o cheiro do brinquedo em questão. No fim da trilha, os cachorros encontravam o objeto (condição normal) ou o outro brinquedo (a condição de surpresa).

“Da minha experiência em outros estudos,  assumi que a surpresa seria mensurável, na medida em que os cães se comportariam de forma diferente na condição que não era normal”, explica Bräuer. O mesmo procedimento foi feito repetidas vezes, com a sala sendo lavada a cada etapa, para que os cientistas pudessem fazer comparações, e o desempenho dos animais foi filmado durante as rodadas do experimento.

Detalhados no Journal of Comparative Psychology, os resultados mostram que os animais seguiram a busca pelo brinquedo cujo cheiro foi usado para fazer a trilha mesmo depois de se deparar com o objeto que não correspondia ao perfume. “Alguns cães mostraram um comportamento interessante, especialmente na primeira rodada da condição de surpresa, que chamamos de hesitação. Embora, obviamente, notassem o brinquedo, eles continuaram a procurar pelo cheiro, provavelmente buscando o brinquedo que tinha usado para colocar a trilha de perfume”, detalha a autora.

Segundo os pesquisadores, o efeito surpresa foi desaparecendo ao longo das rodadas. Eles acreditam que isso ocorreu porque os cachorros, independentemente do brinquedo que encontravam, foram recompensados por jogar ou porque a sala ainda cheirava aos brinquedos dos testes anteriores, apesar de terem sido limpas. Para a equipe, os resultados da primeira rodada de testes são uma indicação de que os cães têm uma representação mental do objeto-alvo ao rastrear um perfume, o que significa que eles têm uma expectativa concreta do alvo.

Pouca distinção

Os resultados comparativos entre os cães treinados e os não treinados também renderam constatações interessantes. Embora fosse esperado que os animais de resgate e da polícia recuperassem sempre os objetos mais rapidamente, em quatro rodadas, os dois grupos atingiram o objetivo com a mesma velocidade. “A comparação foi interessante, não esperávamos que o desempenho fosse o mesmo”, conta Bräuer.

Natalia de Souza Albuquerque, doutoranda em comportamento animal pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que a pesquisa aborda um tema que sempre gerou curiosidade na área. “Cães domésticos têm um olfato muito desenvolvido, e já sabemos de muitas capacidades que eles apresentam quando se trata de reconhecimento de odores. No entanto, a grande pergunta é: como eles fazem isso? Como eles utilizam o cheiro para encontrar alvos? Quais são os mecanismos envolvidos nessa habilidade?”, detalha.

A especialista conta que uma das investigações feitas por pesquisadores é se, ao sentir um cheiro, o cão “sabe” o que está procurando. “Ou seja, se quando o animal percebe um odor, ele tem alguma expectativa do que vai encontrar”, complementa.  Em 2016, Natália Albuquerque publicou um artigo em que mostrou como os cães são capazes de criar essa expectativa quando se trata de emoções. Segundo ela, os animais têm uma representação de emoções positivas e negativas.

“Nós, humanos, temos representações de emoções. Isso quer dizer que, por exemplo, se estamos em uma sala fechada e ouvimos alguém rindo do lado de fora, criamos a expectativa de ver alguém sorrindo. Isso acontece porque, ao longo da nossa vida, vamos guardando, na memória, informações sobre o mundo social e físico”, explica. “Na minha opinião, as descobertas mais interessantes dessa pesquisa estão exatamente relacionadas a essas representações.”

A especialista destaca também a importância da medida utilizada pelos cientistas para verificar o efeito de estranhamento (surpresa) nos cães. “Quando o objeto encontrado era o mesmo do cheirado, os cães não hesitaram. No entanto, quando a situação era contraditória, os animais demoraram mais tempo para pegá-lo, apesar de ser também um brinquedo.”

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade