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Correio Braziliense

Benéfico contra depressão, eletrochoque enfrenta resistência de pacientes

O uso da eletroconvulsoterapia em casos de depressão grave tem a eficácia cientificamente comprovada, mas esbarra no receio de pacientes em se submeter a um tratamento de indução de correntes elétricas na cabeça


postado em 19/06/2018 06:00

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)


Por 18 anos, Vitor* trava uma batalha contra a depressão. Explorou vários tratamentos, como antidepressivos diversos e terapia cognitivo-comportamental. Apesar de tantos recursos, nenhuma dessas medidas impediu que ele passasse por uma crise grave no início deste ano. Como última opção, tentou a eletroconvulsoterapia (ECT) e conseguiu sair do estado profundo de melancolia em que se encontrava, quando enfrentou até episódios de catatonia. "Tenho estado mais disposto, alerta, com mais energia e ânimo", contou.


O caso de Vitor é um exemplo de como o uso do eletrochoque pode ser benéfico para pessoas que não respondem aos tratamentos médicos mais usados contra o distúrbio psiquiátrico e perdem as esperanças de obter melhoras. A eficácia da ECT é comprovada por estudos científicos, mas ainda enfrenta resistência nos consultórios devido ao medo dos pacientes. Especialistas ressaltam a necessidade de acabar com o estigma desse tratamento que pode impedir problemas ainda mais graves, como o suicídio.

Para contornar essa situação, médicos têm usado como estratégia a inclusão de familiares no tratamento. “Tudo que é feito a portas fechadas vira um mistério e pode ser interpretado de diversas formas. Ao colocarmos uma pessoa de confiança lá dentro, isso passa confiança. Chris Evans, um especialista da Universidade de Honolulu, no Havaí, diz que familiares que assistem a uma sessão de eletroconvulsoterapia se tornam embaixadores do uso da ECT”, explicou João Armando, psiquiatra, coordenador do serviço de Eletroconvulsoterapia do Instituto Castro e Santos, em Brasília, e membro da International Society for ECT and Neurostimulation (ISEN).

Acompanhar as sessões de tratamento de Vitor também ajudou a tranquilizar sua mãe, Mariana*, e fez com que ela concordasse com o uso da terapia. “Conversei muito com a equipe que o atenderia e tudo foi perfeitamente esclarecido. Acompanhei, com muita calma e segurança, todas as sessões realizadas até hoje”, explicou Mariana. Ela acredita que o uso da terapia foi essencial para a melhora de João. “Sem a ECT, meu filho não estaria tão bem. Ele voltou a se comunicar com a família e apresenta interesse em ler, sair com amigos, ir ao cinema e se distrair. Voltou a ser meu filho de sempre.”

Indicação antecipada

 


Assim como João, outros pacientes que acreditavam não ter mais opções disponíveis para tratar a doença têm se beneficiado do uso da eletroconvulsoterapia. Uma pesquisa publicada, em maio, na revista especializada Jama Psychiatry revisou uma série de estudos sobre o uso de ECT e mostrou que o uso da técnica gerou resultados positivos em pacientes que já haviam tentado outras terapias sem ter sucesso. “As pesquisas indicam que a eletroconvulsoterapia pode ser significativamente mais eficaz que a farmacoterapia, com 50% a 60% dos pacientes atingindo a remissão rápida da depressão, em comparação com 10% a 40% com farmacoterapia/psicoterapia”, explicou Eric L. Ross, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Michigan, e um dos autores do estudo.

De acordo com o cientista e sua equipe, os resultados mais positivos foram registrados quando a terapia foi oferecida mais cedo. Essa conclusão é importante porque reflete uma mudança necessária na escolha de tratamentos dos pacientes, ressaltaram. “Embora a definição de um tratamento de depressão seja algo muito pessoal, que cada paciente deve fazer com seu médico com base em suas preferências e experiências, nosso estudo sugere que a ECT deve ser posta na mesa como uma opção realista logo na terceira rodada de tratamento”, frisou Ross. “A ECT é frequentemente considerada um último recurso por pacientes e profissionais, mas isso precisa mudar. Muitas pesquisas mostram que múltiplas falhas de medicação e a longa duração da depressão reduzem a chance de os pacientes atingirem a remissão. Usá-la mais cedo aumenta as chances de melhora”, alertou Daniel Maixner, um dos autores do estudo e também pesquisador da Universidade de Michigan.


Baixa letalidade


Outro estudo de análise de pesquisas já publicada mostrou a baixa taxa de mortalidade de ECT. Cientistas dinamarqueses analisaram 15 estudos, com dados de 32 países, divulgados entre 1976 e 2014. Apenas uma morte relacionada à terapia foi relatada nos 414.747 tratamentos registrados em estudos publicados após 2001. Em comparação, o número de mortes causadas por cirurgia sob anestesia geral foi estimado recentemente em 3,4 a cada 100 mil cirurgias. O trabalho de revisão foi publicado, em maio de 2017, na revista especializada Acta Psychiatrica Scandinavica.

DEPOIMENTO

Segurança e disposição

“Resolvi tentar a eletroconvulsoterapia por sugestão da minha psiquiatra, tendo em vista que o tratamento tradicional não estava fazendo efeito e pelo fato de eu ter tido uma piora no quadro da depressão. A ECT tem me feito sentir e vislumbrar melhoras. Tenho estado mais disposto, alerta, com mais energia e ânimo. Em aspectos mais práticos, o procedimento foi bem esclarecido, e é bem mais simples do que se poderia imaginar. Poder ter minha mãe perto me passa mais segurança. Sobretudo porque tenho a impressão de que o procedimento é feito da melhor forma possível, com a supervisão da equipe de psiquiatra, anestesista e enfermeiros. Na minha opinião, a ECT é uma alternativa suplementar ao tratamento tradicional com medicamentos”
Vitor*, 33 anos

Palavra de especialista

Vilania precisa acabar

“Quando se faz uma cardioversão elétrica, você dá choques no peito, e a pessoa volta à vida. Mas quando o mesmo é feito no cérebro, pela ECT, isso é visto como punição. O primeiro tratamento  é visto como mocinho, e o segundo, como um vilão. O que esse choque da eletroconvulsoterapia faz são pequenas convulsões, que não são nenhum pouco prejudiciais, mas as pessoas se confundem e têm uma visão completamente avessa ao real.  E isso é muito negativo, pois muita gente está morrendo por falta de tratamento. Vemos o aumento de casos de suicídio, e essa é uma alternativa que pode ajudar a evitar esse cenário. Precisamos urgentemente acabar com esse estigma.”

Antônio Geraldo, presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL), diretor e superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

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