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Correio Braziliense

Gripe mata mais de 650 mil pessoas por ano por falta de prevenção

Para especialistas, a influência de fake news e a desinformação têm feito as pessoas evitarem as vacinas e deixado grupos de riscos mais vulneráveis


postado em 20/06/2018 06:00 / atualizado em 19/06/2018 23:13

(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
(foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
Paris — Para a maioria das pessoas, será apenas um incômodo e, dentro de uma semana, sintomas como febre, dores musculares e tosse desaparecerão. Contudo, anualmente, 5 milhões de indivíduos infectados pelos vírus da influenza terão complicações sérias, e 650 mil morrerão de causas diretamente associadas à gripe. A doença é de fácil prevenção: uma dose de vacina por ano protege, em média, 50% dos que foram imunizados — o restante, mesmo se for contaminado, sofrerá sintomas menos severos.

Ainda assim, a cobertura da vacinação em todo o mundo está abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, mesmo com a oferta gratuita da substância, a adesão do público-alvo à campanha nacional ficou abaixo de 80%, levando o Ministério da Saúde a prorrogá-la até a próxima sexta-feira. Especialistas alertam que a falta de informação e as fake news (notícias falsas) estão afastando as pessoas dos postos de vacinação, o que coloca em risco a saúde de crianças, idosos, pacientes de doenças crônicas, gestantes e profissionais muito expostos ao vírus, como os trabalhadores da área de saúde.

“A influenza é o quarto vírus mais importante da humanidade, atrás de HIV, hepatite B e hepatite C”, observa Filipe Froes, pesquisador e chefe da Unidade Médico Cirúrgica do Departamento de Tórax do Hospital Pulido Valente, de Lisboa. “Quando há epidemias de gripe, os hospitais ficam um caos, com muita gente procurando vacinas simultaneamente. Mas, na maior parte do tempo, as pessoas não acham que é uma doença importante. Nem entre os profissionais de saúde há essa conscientização”, lamenta Froes, que participou de um seminário para jornalistas sobre influenza em Paris, há duas semanas.

Pesquisas mostram, porém, que subestimar o potencial da gripe agrava a morbidade da doença e traz perdas econômicas consideráveis. Das seis principais causas de morte em 2015, quatro têm relação direta ou indireta com a influenza — doença cardíaca isquêmica, infecção do trato respiratório inferior, doença pulmonar obstrutiva crônica e diabetes. No Brasil, o boletim mais recente do Ministério da Saúde apontou 2.715 casos de influenza até 9 de junho, com 284 óbitos — no mesmo período do ano passado, foram 1.227 casos e 204 mortes. A mortalidade foi maior no grupo de risco, especialmente idosos com doenças crônicas.

São casos evitáveis, como indicam estudos. Um comentário publicado, neste ano, na revista The Lancet Respiratory Medicine por Ann F. Falsey, da Universidade de Rochester, e Janet E. McElhaney, do Instituto de Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina Northern Ontario, afirma que já se documentou taxa de 43% de hospitalização de idosos que vivem em residências geriátricas durante epidemias de gripe no Hemisfério Norte. Na mesma revista, uma equipe de pesquisadores liderados por Stefan Gravenstein, da Universidade de Brown, nos EUA, reportou redução de 8,5% nas internações por todas as causas de moradores desse tipo de instituição quando recebiam vacina de alta dosagem (60 microgramas de antígeno por cepa viral) contra influenza.

Medo e desconfiança


Pier Luigi Lopalco, professor de Higiene e Medicina Preventiva da Universidade de Pisa, na Itália, atribui parte da baixa adesão à prevenção da gripe ao próprio sucesso das vacinas. O epidemiologista acredita que, como a maioria das pessoas não presenciou as consequências dramáticas de doenças hoje praticamente erradicadas pelas campanhas de imunização, como a poliomielite, elas acabam subestimando a importância de se proteger contra doenças infecciosas.

“Quando, nos anos 1960, minha mãe estava se decidindo se se vacinava ou não contra o pólio, ela não teve nenhuma dúvida: me vacinou porque estava assustada e queria me proteger contra uma doença tão terrível. Quando eu decidi vacinar meus filhos contra o pólio, no fim dos anos 1990, eu estava vivendo na Itália, e o número de casos da doença era muito pequeno. Mas eu os vacinei; primeiro, porque sou profissional de saúde; segundo, porque eu queria que eles continuassem vivendo em um mundo sem pólio”, relatou, no seminário em Paris. “É incrível que, em apenas uma geração, o mundo tenha mudado tanto. Minha mãe estava assustada, e meus filhos já viviam em um mundo sem pólio. Isso é uma revolução. É uma revolução invisível, o que é um problema”, afirma. No ano passado, a Itália teve dois casos de tétano, de crianças que não foram vacinadas.

Assim como no Brasil, o governo italiano oferece a vacinação contra HPV, o que pode evitar câncer de colo de útero. Porém, o epidemiologista afirma que a cobertura é baixa. “Metade da população não está aceitando. Isso é algo estranho. Temos vacinas eficazes, mas as pessoas não querem. Falta de confiança nas vacinas e, o pior, falta de confiança nas instituições, nos médicos, nas universidades, nos pesquisadores”, lamenta. Para ele, isso, em parte, é efeito das fake news. “Grupos antivacina não são um fenômeno recente. A diferença, hoje, é que esses movimentos têm uma ferramenta muito poderosa, que é a internet. E muito facilmente espalham informações erradas. É onde está o poder deles. Espalham medo e especialmente os pais ficam muito assustados com os efeitos colaterais”, observa.

Fórmula universal 


No caso da gripe, o epidemiologista Saranya Sridhar, autor de diversos artigos sobre imunização e diretor-presidente de Ciências Clínicas do setor de Vacinas de Influenza Amplamente Protetoras da Sanofi Pasteur, afirma que o próximo desafio é desenvolver uma substância universal, capaz de atacar diferentes cepas e famílias virais ao mesmo tempo e combater as mutações. Sem a necessidade de vacinar todos os anos — algo necessário hoje por causa do potencial de adaptação do micro-organismo —, a expectativa é de que a adesão à imunização aumente.

“O vírus está sempre em mutação e nós não sabemos exatamente como ocorrem essas alterações. O desafio é conseguirmos fazer uma vacina que funcione mesmo quando o vírus muda”, diz. Porém, ele afirma que a ciência está cada vez mais próxima de descobrir como driblar essa característica evolutiva do causador da influenza sazonal. “Uma das coisas que estamos fazendo é usar diferentes antígenos. Esse é um amplo campo de pesquisa e, atualmente, cientistas da Sanofi Pasteur, de outras companhias e de universidades estão trabalhando para conseguir fazer isso”, conta.

* A repórter viajou a convite da Sanofi Pasteur

Infecções distintas
A gripe é causada pelo vírus influenza, ocasionando mal-estar, febre alta, tosse, falta de ar e extrema prostração e alto risco de complicações, como pneumonia e mortes. Já o resfriado é causado por diversos outros tipos de vírus, para os quais não há vacina. Trata-se de uma infecção mais branda, com febre baixa (ou ausência da mesma) congestão nasal, dor de garganta, espirros e corrimento nasal que pode durar até uma semana.

Economia a longo prazo

No Brasil, a vacina oferecida gratuitamente é a trivalente, que protege contra as cepas H1N1 e H3N2 da influenza A, além do tipo B Yamagata, conforme a recomendação da OMS para este ano. Nas clínicas particulares, é possível optar pela tetravalente, que inclui mais uma cepa da família B. Um estudo da Sanofi Pasteur em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Pierre e Marie Curie, de Paris, e a Iniciativa Influenza Global calculou que substituir, no Sistema Único de Saúde brasileiro, a oferta da trivalente pela tetra na população de até 6 anos resultaria na economia de R$ 1,8 bilhão com tratamento de influenza pelos próximos 10 anos. Além disso, evitaria até 2,1 milhões de casos de gripe e 6,1 mil óbitos associados. “Esse tipo de avaliação requer uma visão de longo prazo”, observa Expedito Luna, pesquisador da USP e um dos autores do estudo. O Ministério da Saúde informou que não considera, por ora, trocar o tipo de vacina oferecida na rede pública.


Duas perguntas para Maisa Kairalla

- Médica geriatra e coordenadora da Comissão de Vacinação da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

Mais de 20% do grupo-alvo da campanha de imunização não se vacinou. A que podemos atribuir esse percentual?
Um dos fatores é um mito que ainda há de que a vacina contra a gripe influenza causa a doença em quem é imunizado. Isso não procede. Esse medo de ficar gripado em decorrência da vacina não tem embasamento, pois ela é feita com o que chamamos de vírus inativado, ou seja, não ocorre a reversão para a forma de gripe. Por isso, ela pode ser indicada também para pessoas com o sistema imune mais fragilizado, como no caso de idosos. Vacinas como a da influenza são seguras e eficazes, além de uma importante ferramenta no que cabe à prevenção e à manutenção da saúde. Por isso, é preciso haver um trabalho de educação nesse sentido para que a população (alvo da campanha nacional e geral) tenha consciência disso. Diabéticos, cardiopatas e pneumopatas são o grupo de maior risco entre idosos.

Por que os idosos são mais afetados pela influenza?
Existe um fenômeno ligado ao envelhecimento chamado de imunossenescência, que nada mais é do que um declínio natural do sistema imunológico do organismo, o que reduz a capacidade de defesa do corpo às infecções, como no caso da gripe por influenza. Isso por si só torna a população de idosos mais vulnerável. Há ainda a questão de doenças crônicas preexistentes, como o diabetes, que contribuem para uma baixa da imunidade natural. Além disso, um estudo publicado no início deste ano mostrou que a vacinação contra gripe e também pneumonia pode proteger o organismo de idosos de complicações decorrentes de ambos os quadros infecciosos, como ataque cardíaco e derrames cerebrais.
 
 

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