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Correio Braziliense

Estimulação cerebral é tratamento promissor contra a depressão

De 10% a 20% dos pacientes que sofrem com a doença não respondem ao tratamento convencional e precisam ser submetidos a estimulação cerebral profunda


postado em 21/06/2018 14:30 / atualizado em 21/06/2018 14:35

(foto: Universidade de Freiburg-Divulgação )
(foto: Universidade de Freiburg-Divulgação )


Vinte por cento da população sofrerá, em algum momento da vida, um episódio de depressão, doença que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), já é a mais incapacitante do globo. Embora o tratamento convencional - psicoterapia e medicamentos - beneficie a maioria dos pacientes, de 10% a 20% deles não responderá às intervenções. Para essas pessoas, a estimulação cerebral profunda (ECP) tem sido apontada como uma das abordagens mais promissoras, com a vantagem de ter poucos efeitos colaterais.

O psiquiatra Thomas Schlaepfer, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Freiburg, na Alemanha, estuda a ECP há 15 anos e explica que, diferentemente do que se acreditou por muito tempo, a depressão não é apenas uma questão de alteração nas sinapses (a comunicação entre os neurônios) e na produção dos neurotransmissores, as substâncias cerebrais responsáveis pela sensação de prazer. “Isso é um grande mito. Nós acreditamos que você está deprimido, toma algumas pílulas e ela vai embora, mas esse não é o caso. A depressão é muito mais complexa, provavelmente crônica, e está associada ao circuito cerebral da recompensa”, afirma o pesquisador, um dos palestrantes do Congresso Brain 2018. “A ECP estimula e ativa esse sistema. Desde a introdução dos primeiros antidepressivos, não há nada tão revolucionário no tratamento da doença”, acredita.

Para fazer essa ativação, o cirurgião implanta no cérebro pequenos eletrodos, conectados ao neuroestimulador - um equipamento semelhante ao marcapasso, posicionado sob a pele e perto da clavícula. A cada quatro anos, o aparelho precisa ser trocado e, uma vez por mês, deve-se recarregá-lo, um procedimento simples, feito pelo próprio paciente, com um dispositivo externo. O marcapasso envia estímulos contínuos à área onde está implantado - a intensidade dos pulsos, que pode variar de 20 a 200 por segundo, é definida pelo médico. 

O procedimento é considerado simples e, segundo Schlaepfer, o efeito colateral mais comum é a infecção hospitalar, o mesmo de qualquer cirurgia.  “Em minutos,o sistema de recompensa do cérebro começa a funcionar normalmente”, diz o pesquisador, esclarecendo, contudo, que não se trata de uma técnica “milagrosa”. “A depressão exige um tratamento de longo prazo.”

Desde a década de 1990, o procedimento é indicado para doença de Parkinson. Estudos feitos com pacientes que têm indicação cirúrgica mostram uma melhora significativa nos principais sintomas do mal neurodegenerativo, como tremores, rigidez e movimentos involuntários. Contudo, centros de pesquisa também investigam os benefícios da DBS no tratamento de depressão refratária, epilepsia, Alzheimer leve, síndrome de Tourette (transtorno caracterizado por tiques impossíveis de serem controlados), Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), dependência química, ansiedade e anorexia, entre outros. No Brasil, além dos fins para pesquisa, o procedimento tem autorização para ser realizado nos casos de Parkinson.

Schlaepfer lamenta que o uso da ECP para depressão ainda não seja tão amplo quanto o número de pacientes que lutam contra a doença dia após dia, sem obter melhora. “São pessoas para quem não temos nada a fazer porque o tratamento convencional não funciona para elas”, diz. Além do preconceito de parte da comunidade científica que, de acordo com o pesquisador alemão, antipatiza com o método  (“Ninguém critica abertamente, mas muitos psicólogos e psiquiatras têm antipatia. É ridículo, falam nas costas dos pacientes”, observa), o preço é um dos grandes impeditivos. No Brasil, uma cirurgia de ECP pode chegar a R$ 100 mil, sem incluir os gastos hospitalares.

Schlaepfer conduz, há mais de uma década, pesquisas sobre a eficácia da neuroestimulação em pacientes com depressão refratária e diz que os resultados são animadores. “Tivemos uma paciente que fez o implante e, cinco horas depois, fomos entrevistá-la. Ela estava lendo e nos disse que há uma década não conseguia ler nada, por causa da depressão”, conta. 

Um dos estudos realizados pela equipe do psiquiatra no ano passado, publicado na revista Brain Stimulation, avaliou a técnica em oito participantes, todos diagnosticados com depressão refratária. Um ano depois do implante, seis (75%) tiveram redução de mais de 50% dos sintomas da doença, sendo que quatro chegaram à remissão. Dos dois restantes, um jamais obteve melhora e o outro começou a apresentar avanços quatro meses depois. “Precisamos fazer mais estudos, com números maiores de pacientes”, observa o pesquisador. “Mas parece que essas pessoas não despertam interesse”, critica.

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