Publicidade

Correio Braziliense

Cérebro ativo, hobby e fazer exercícios: a receita para adiar o Alzheimer

Um estudo mostra que o nível educacional é um importante componente da reserva cognitiva


postado em 22/06/2018 11:33 / atualizado em 22/06/2018 11:43

O estudo de Stern mostrou que ler, jogar cartas, ir à igreja, visitar amigos, ir ao cinema, fazer cursos, entre outros, diminui em 38% o risco de demência(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
O estudo de Stern mostrou que ler, jogar cartas, ir à igreja, visitar amigos, ir ao cinema, fazer cursos, entre outros, diminui em 38% o risco de demência (foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)

 
Gramado, RS - Enquanto a ciência não encontra um tratamento para o Alzheimer, o tipo mais comum de demência, pesquisas demonstram que é possível fazer com que o cérebro lide melhor com os danos causados pela doença. O segredo está na reserva cognitiva, explica Yaakov Stern, professor de Neuropsicologia e chefe da Divisão de Neurociências Cognitivas da Universidade de Columbia, em Nova York. 

Stern sempre questionou o motivo pelo qual  pessoas com a mesma patologia cerebral apresentam déficits cognitivos diferentes. “Minha própria pesquisa e as de outros neste campo têm mostrado que aspectos da experiência de vida, como realização profissional ou ocupacional, podem construir reservas contra patologias cerebrais, permitindo que algumas pessoas mantenham as funções por mais tempo que outras”, diz o pesquisador, um dos palestrantes do Congresso Brain 2018, em Gramado. De acordo com ele, estudos de imagem estão explorando como essa reserva é implementada no cérebro.

A reserva cognitiva, segundo Stern, já foi considerada de forma quantitativa, ou seja, referia-se à quantidade de neurônios ou sinapses (comunicação entre essas células) ativas. Contudo, na opinião do pesquisador, descobertas recentes de que o cérebro é capaz de formar novos neurônios em qualquer fase da vida mudaram esse conceito. Hoje, a maioria dos neurocientistas entende que a reserva cognitiva é, na realidade, a forma como o cérebro lida com danos, utilizando abordagens cognitivas preexistentes ou fazendo compensações. 

Um estudo conduzido por Stern mostrou que o nível educacional é um importante componente da reserva cognitiva. O trabalho, que acompanhou ao longo de quatro anos 593 pessoas acima de 60 sem diagnóstico inicial de demência, descobriu que aquelas com menos de oito anos de educação formal têm risco 2,2 maior de desenvolver o problema. 

Yaakov Stern, Neurocientista da Universidade de Columbia(foto: Universidade de Columbia/Divulgação)
Yaakov Stern, Neurocientista da Universidade de Columbia (foto: Universidade de Columbia/Divulgação)
Ter uma ocupação também é importante para blindar o cérebro. Outra pesquisa do neuropsiquiatra mostrou que, independentemente do tipo de habilidade exigida, manter-se ocupado, seja com artesanato ou no planejamento de uma grande empresa, reduz 2,25 vezes a probabilidade de se desenvolver Alzheimer. “Por isso, ao se aposentar, procure fazer alguma coisa que goste; dance, faça tai-chi-chuan, faça tricô”, exemplifica. Dedicar-se a um hobby também protege a cognição. O estudo de Stern mostrou que ler, jogar cartas, ir à igreja, visitar amigos, ir ao cinema, fazer cursos, entre outros, diminui em 38% o risco de demência. 

O tipo mais comum de Alzheimer, doença que afeta 1,2 milhão de brasileiros, costuma se instalar no cérebro por volta de 20 anos antes de os sintomas característicos, como perda de memória, iniciarem. Hoje, já está bem estabelecido que a morte dos neurônios acontece principalmente por duas vias: o acúmulo de placas de gordura formadas pelo excesso da proteína beta-amiloide e os emaranhados da proteína tau, que destroem os neurônios próximos. Embora existam outros mecanismos por trás da patologia, esses são os principais. “Construir uma reserva cognitiva não impede a doença, mas ajuda o cérebro a lidar melhor com ela”, observa Stern. A ideia é que pessoas com cérebro mais resilientes, caso desenvolvam Alzheimer, demorem mais a exibir os sintomas e, quando eles surgirem, se manifestem de maneira mais branda.

Além de participar de atividades sociais e manter-se mentalmente ativo, o neuropsiquiatra destaca a importante dos exercícios físicos e da dieta para a saúde cerebral. Ele conta que estudos já observaram melhoras cognitivas e alterações na própria estrutura do órgão apenas seis semanas depois do início da prática de atividades físicas.  

Stern, porém, é cético em relação aos “exercícios mentais” - jogos e desafios (geralmente online ou em aplicativos) desenvolvidos com a promessa de afiar o cérebro, melhorar a memória e outras funções cognitivas. “Não há evidências suficientes de que eles sejam eficazes. Se você treina muito uma determinada tarefa, no máximo você vai ficar bom naquela tarefa. Isso não quer dizer que esse jogos vão ajudá-los em outras funções”, observa. Ele também desaconselha participar de atividades de maneira forçada, apenas para proteger o cérebro. “Não se force a aprender piano. Tente aprender algo novo de que realmente gosta”, sugere.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade