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Correio Braziliense

Apps que prometem melhorar a qualidade do sono são, em geral, ineficazes

Avaliação é de especialistas reunidos no Congresso Brain 2018, em Gramado (RS)


postado em 23/06/2018 17:49

(foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
(foto: Lucas Pacífico/CB/D.A Press)
 
Gramado (RS) — Aplicativos de celular fazem de tudo: pagam conta, tiram fotos, tocam música, exibem filmes e o que mais os desenvolvedores conseguirem imaginar. Uma categoria de apps também está prometendo ajudar insones a dormir melhor. Os chamados monitores do sono, como Sleep Better, Sleep Bot e Sleep Cycle, foram programados para analisar se o usuário está em estágio de vigília ou dormindo e apresentam gráficos com o relatório completo, o que poderia ajudar os 73 milhões de brasileiros que têm dificuldades para dormir.

Mas eles de fato funcionam? Há duas categorias de aplicativos rastreadores do sono: os não usáveis e os usáveis. No primeiro caso, estão aqueles que dispensam a utilização de dispositivo extra, como pulseiras medidoras, funcionando apenas com base do acelerômetro do aparelho (o mesmo mecanismo pelo qual o celular conta o número de passos dados em um dia). Outros apps exigem que o usuário coloque uma pulseira ou relógio inteligente. 

Independentemente da categoria, porém, o desempenho é igualmente insatisfatório, dizem especialistas. Para Ronaldo Piovezan, neurogeriatra clínico e pesquisador do envelhecimento, apesar de terem potencial para ajudar estudos sobre transtornos do sono, esses apps não devem ser levados tão a sério. “Existem mais de 500 aplicativos do tipo, e o problema é que cada um é desenvolvido de um jeito. Como não são considerados produtos médicos, os fabricantes não precisam apresentar comprovação científica. E não há incentivo da indústria para fazer pesquisas sobre a acurácia dos aplicativos”, observa Piovezan, que fez uma apresentação sobre o tema no Congresso Brain 2018, em Gramado.

De acordo com o pesquisador, os parâmetros registrados por aplicativos já foram comparados a resultados da polissonografia, exame realizado em clínicas para investigar a qualidade do sono, e não passaram no teste. O melhor resultado até agora foi quanto à identificação da apneia (interrupção momentânea da respiração): uma acurácia de 88%, comparado ao teste tradicional. 

Um estudo conduzido pelo Instituto de Neurociências JFK da Universidade de Seton Hall, nos Estados Unidos, avaliou o Sleep Time e o comparou à polissonografia. Os resultados mostraram que os softwares para celular ainda não estão prontos para rastrear o sono apropriadamente. Embora tenha uma alta sensitividade à vigília, acertando que o usuário estava acordado em 89,9% das vezes, o índice de detecção do sono foi baixo: 50%. A acurácia geral foi considerada pobre pelos autores do trabalho - 45,9%. 

“Do ponto de vista clínico, os aplicativos não são satisfatórios”, afirma Ronaldo Piovezan. Ele reconhece alguns benefícios nesses softwares, como mensagens enviadas ao usuário com dicas para dormir melhor, a chamada higiene do sono. O neurogeriatra lamenta que os apps não sejam - ao menos por enquanto - tão eficientes quanto os cientistas gostariam. Como a polissonografia é um exame relativamente caro e de difícil acesso à maioria das pessoas, que dependem da rede pública, Piovezan acredita que os softwares para celular poderiam gerar dados importantes sobre os padrões de sono, que poderiam ser usados em pesquisas científicas. “Mas a expectativa da área médica ainda está muito distante da perspectiva da indústria”, afirma.    

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