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Correio Braziliense

Comportamentos e fatores de risco sinalizam vulnerabilidade ao suicídio

Segundo especialistas, esses sinais não são apenas uma "chantagem emocional" e precisam ser levados a sério


postado em 25/06/2018 06:00 / atualizado em 25/06/2018 14:48

Campanha de prevenção: estátuas no alto de prédio de Londres alertam para a necessidade de estar atento ao tema(foto: Tolga Akmen/AFP)
Campanha de prevenção: estátuas no alto de prédio de Londres alertam para a necessidade de estar atento ao tema (foto: Tolga Akmen/AFP)
A cabeleireira pernambucana Sibely Fernanda das Chagas Brito, 40 anos, já se perdoou pela morte do filho, Luan Felipe, 18, ocorrida em outubro de 2015. Mas não deixa de acreditar que deveria ter agido de forma diferente. “Ele chegou para mim e disse que tinha perdido a vontade de viver. Não levei a sério. Se eu tivesse levado a sério, meu filho não tinha partido.” No suicídio, não existem culpados, destacam especialistas. O que se pode fazer é ficar alerta a fatores de risco e a comportamentos que indicam a necessidade de se procurar tratamento.


No caso de Luan, descrito pela mãe como um jovem alegre e extrovertido, Sibely acredita que a ajuda médica chegou tarde. Ele deu sinais de estar com depressão depois de sofrer uma lesão na coluna que o fez acreditar na possibilidade de ficar tetraplégico. “O Luan sentia muita dor, mas não era nada grave, era uma contusão de ter feito exercício errado. Mas ele botou na cabeça que não ia mais andar e entrou em depressão. Levei ao médico, que passou remédios e disse que ele ficaria bom em uma semana. Duas semanas depois da consulta, ele morreu.”

Com base nos atos e nas tentativas, pesquisadores estabeleceram fatores de risco do suicídio (veja quadros abaixo), que, contudo, deve ser entendido como um fenômeno complexo e associado a múltiplas causas. “O comportamento suicida é multifacetado. Sabemos que boa parte dos casos pode apresentar sinais e sintomas de algum transtorno mental, sobretudo de depressão, mas isso não é universal”, observa Érica Assunção Carmo, pesquisadora da Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e autora de dois artigos sobre o tema publicados em revistas científicas. “Às vezes, a ideação suicida pode ser totalmente silenciosa, por isso a importância da atenção e da orientação dos familiares, por serem as pessoas mais próximas desses indivíduos”, alerta.

 

“Queria sumir”

O psiquiatra Humberto Corrêa, presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), recomenda a parentes e amigos que fiquem atentos a alguns sinais indicativos de adoecimento mental, como depressão. Estudos identificaram que mais de 96% das pessoas que morreram por suicídio tinham recebido algum diagnóstico psiquiátrico. “No geral, o indivíduo falou com pessoas próximas sobre o desejo de tirar a própria vida, disse que estava cansado de viver. Muitos pensam que é chantagem emocional. Mas mesmo que seja, a forma que se está fazendo isso já é doentia e merece atenção”, observa.

Algumas frases servem de alerta, diz o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, diretor e superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (APB). “Queria sumir” e “O mundo vai ficar muito melhor sem mim” são algumas delas. No caso de adultos, o especialista afirma que o desejo súbito de “colocar ordem” nas finanças é um importante indicativo. “De repente, a pessoa começa a resolver tudo, paga IPTU, orienta herança”, observa. “Quando a pessoa está deprimida há muito tempo e tem uma melhora súbita, isso também pode ser um sinal”, ensina o médico.

 

Saber dizer

Da mesma forma que é preciso saber ouvir, os especialistas insistem na necessidade de dizer a coisa certa. O diretor da APB recomenda que jamais se fale “tenha força, coragem, fé” ou “deixe de frescura e preguiça” e, ainda, frases motivacionais, como “a vida é tão bonita”. “Em vez disso, diga que está sempre ao lado dela e que vai ajudá-la a procurar tratamento”, sugere. Tão importante quanto não deixar a pessoa sozinha são tirar o acesso a possíveis meios suicidas. “Restringir o acesso a métodos letais, como arma de fogo, funciona. Parte migra para outros métodos, mas sempre em uma proporção menor”, afirma o presidente da Abeps, Humberto Corrêa.

Antônio Geraldo da Silva defende a adoção de medidas coletivas de enfrentamento ao problema. Ele conta que tem um projeto pronto para implementação do selo amarelo nas construções — uma certificação de que as edificações impedem tentativas de suicídio, como janelas que não se abrem totalmente e pontes com proteção — mas, segundo ele, até hoje, nenhum governo se interessou pela ideia. Em março, um prédio no centro de Londres foi usado em uma campanha contra o suicídio. Oitenta e quatro estátuas foram colocadas no topo do edifício para lembrar que, semanalmente, o mesmo número de homens cometem o ato extremo no Reino Unido.

Avanço entre jovens e idosos

Os estudos populacionais apontam que faixa etária é um importante fator de risco para o suicídio. No Brasil, o Mapa da Violência de 2014, publicação organizada pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, informou que, de 1980 a 2012, o número de suicídios entre pessoas com mais de 60 anos aumentou 215,7%. O primeiro boletim epidemiológico nacional sobre o assunto, divulgado pelo Ministério da Saúde no ano passado, mostrou que as taxas de suicídios são maiores em idosos a partir de 70 anos — 8,9  mortes por 100 mil habitantes de 2011 a 2016, contra 5,5 da média nacional no mesmo período.

 

“As altas taxas de suicídio em idosos podem ser reflexo das modificações promovidas pela transição demográfica. Um dos efeitos analisados nesse processo é o envelhecimento populacional”, observa a enfermeira Emelynne Gabrielly de Oliveira Santos, mestre em saúde coletiva pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autora principal de um artigo sobre o tema publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. A pesquisadora lembra que os homens são ainda mais suscetíveis. “Alguns estudos apontam que, na velhice, quando a vida profissional cessa, a maioria dos homens atribui a nova fase da vida à falência do papel tradicional de provedor econômico e de referência familiar.”

 

Convívio familiar

Também preocupa o avanço dos casos entre crianças e adolescentes. Em 2015, essa foi a sétima causa de mortalidade entre brasileiros de 10 a 14 anos, e a terceira entre jovens de 15 a 29, faixa etária que tem taxa de nove ocorrências em cada 100 mil pessoas. Alguns estudos estão ajudando a compreender o fenômeno.

 

No Canadá, uma pesquisa realizada no Hospital St. Michael constatou que adolescentes de 12 a 17 anos retirados do convívio familiar têm risco duas vezes superior de tentar suicídio mais de uma vez, comparado a outros jovens que também já foram atendidos em emergências com lesões autoprovocadas. Da mesma forma, meninos e meninas com diagnóstico de doença mental apresentaram risco dobrado de uma segunda tentativa.

 

Mundialmente, 19,8% dos adolescentes têm ideações suicidas e, entre 3% e 8%, já fizeram tentativas, segundo o psiquiatra Paramala J. Santosh, do Grupo Acadêmico de Saúde Mental da Criança e do Adolescente do King’s College de Londres. Além dos transtornos de humor, do abuso de álcool e outras substâncias e de tentativas anteriores, ele destaca efeitos da mídia, histórico familiar, adversidades familiares, alienação social, disponibilidade de meios e exposição ao comportamento suicida como fatores de risco.

 

Em um comunicado divulgado pelo Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia, Santosh faz um alerta: “A progressão de ideação suicida para a automutilação e, daí, para o suicídio não é absoluta. A automutilação pode escalar, e isso pode ser um marcador para suicídio. O risco de suicídio entre pacientes que se mutilam é centenas de vezes maior do que na população em geral”.  

 

Números no Brasil

De cada 100 brasileiros, 17 já pensaram, em algum momento, em tirar a própria vida. Desses, cinco planejaram o suicídio, três tentaram e um chegou a ser atendido em emergência, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

Principais fatores de risco

1. Doenças mentais: depressão, transtorno bipolar, transtornos associado a abuso de álcool e outras drogas, transtorno de personalidade e esquizofrenia

2. Aspectos sociais: ser do gênero masculino; ter entre 15 e 30 anos ou mais de 65; não ter filhos; morar em áreas urbanas; estar desempregado ou aposentado; viver em isolamento social; ter perdido o vínculo familiar; e pertencer a certos grupos, como indígenas, adolescentes, pessoas em situação de rua

3. Aspectos psicológicos: ter passado por perdas recentemente; apresentar pouca resiliência; apresentar personalidade impulsiva, humor instável ou agressividade; ser vítima de abuso físico ou sexual na infância; vivenciar desesperança, desespero ou desamparo

4. Condições de saúde: doenças orgânicas incapacitantes, dor crônica, doenças neurológicas, trauma medular, tumor maligno, HIV/Aids

Fatores de proteção

  • Ausência de doença mental
  • Bom suporte familiar
  • Laços sociais
  • Religiosidade (independentemente da afiliação religiosa)
  • Conviver com crianças em casa

Mitos sobre o suicídio

Não é verdade que:
  • Suicídio é uma decisão individual e de livre arbítrio
  • Quando uma pessoa pensa em suicídio, terá esse risco para sempre
  • Tentar suicídio é só uma ameaça
  • Não se deve falar sobre o tema
  • A mídia não deve abordar o assunto

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