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Correio Braziliense

Tratamento a sobreviventes de tentativas de suicídio é falho, diz pesquisa

Tratamento dispensado a sobreviventes de tentativas de suicídio nas emergências ainda se resume, na maioria das vezes, aos aspectos físicos dos ferimentos. Familiares e amigos também precisam de atenção, alertam pesquisadores


postado em 26/06/2018 06:00 / atualizado em 26/06/2018 10:29

Tratamento humanizado pode evitar reincidência: acompanhamento por especialistas é indispensável(foto: Kieferpix/University College London/Divulgação)
Tratamento humanizado pode evitar reincidência: acompanhamento por especialistas é indispensável (foto: Kieferpix/University College London/Divulgação)

Coberto pela capa do preconceito e ainda discutido em sussurros pela sociedade, o suicídio tampouco é um assunto com o qual profissionais da área de saúde tenham facilidade de lidar. Na linha de frente das emergências médicas e entre equipes de atenção primária, estudos mostram que o despreparo é grande. Com isso, perde-se a chance de evitar mortes prematuras. “As tentativas de suicídio não são vistas com bons olhos pelos profissionais, pelo menos por boa parte deles. Muitas pessoas não buscam ajuda ou tratamento por medo de serem estigmatizadas pelo comportamento suicida”, atesta o psiquiatra Carlos Eduardo Leal Vidal, professor da Faculdade de Medicina de Barbacena e preceptor da residência médica do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena.

Vidal é autor do estudo Tentativas de suicídio e o acolhimento nos serviços de urgência: a percepção de quem tenta, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, que investigou a forma como 28 mulheres sobreviventes à tentativa de suicídio foram atendidas em hospitais. O resultado está descrito no resumo do artigo: “A baixa capacitação das equipes de atendimento e as deficiências estruturais dos serviços induzem os profissionais a se posicionarem de maneira impessoal e com dificuldade de atuação de forma humanizada”.

Socorridas em hospitais públicos, as pacientes, com idade entre 19 e 49 anos, foram entrevistadas pelo pesquisador e relataram situações de constrangimento e incompreensão por parte de atendentes, enfermeiros e médicos. “No hospital, eu lembro que o médico chegou perto de mim, bateu no meu ombro, falou que eu não tinha nada, que eu era uma moça bonita, pra viver minha vida, que era pra arrumar um namorado”, narrou uma delas. “Eles falaram assim ‘não é possível, tanta coisa pra gente fazer e socorrer e fulano tentando morrer... e tem que fazer lavagem, que frescurada, aí é que dá vontade de matar mesmo’”, contou outra.

No estudo, a postura dos profissionais em relação ao encaminhamento à psiquiatria e à psicoterapia também foi falha. “Não, ninguém encaminhou. Mas eu achava que precisava de atendimento, sim. Aquilo não tava na minha cabeça, era só impulso, eu não aceitava perder, eu precisava de ajuda”, revelou uma paciente. Vidal observa que taxas de suicídio aumentam ou diminuem conforme o atendimento recebido — como mais de 96% das pessoas que morreram por essa causa tinham algum diagnóstico psiquiátrico, conforme um estudo da Organização Mundial à Saúde (OMS), é fundamental que sejam acompanhadas por especialistas em saúde mental.

O outro lado

 


Mestre em Saúde Coletiva e Especialista em Urgência, Emergência e UTI, Emelynne Gabrielly de Oliveira Santos também pesquisou o atendimento prestado aos sobreviventes de tentativas de suicídio, mas sob a perspectiva dos profissionais de enfermagem que trabalham em emergências. O estudo, publicado no Online Brazilian Journal of Nursing, da Universidade Federal Fluminense, foi realizado em um hospital público de referência de Natal (RN), com participação de 13 enfermeiras. As entrevistadas assumiram que os cuidados foram exclusivamente clínicos, sem atenção especial ao contexto psicossocial do paciente. “Eles são tratados de forma que suas vidas não estejam mais em risco, e vão para casa da mesma forma que chegaram. Não há continuidade”, relatou uma delas.

A falta de estrutura foi apontada como um dos impeditivos para o atendimento humanizado. “Geralmente, o setor de emergências é muito cheio (…). Às vezes não temos maca, só uma cadeira”, contou uma enfermeira. “O usuário que chega até o serviço de emergência, vítima de tentativa de suicídio, necessita de um acolhimento e assistência humanizada imediatos”, afirma Emelynne Gabrielly de Oliveira Santos. “Um importante fator de risco para o suicídio é a tentativa pregressa. Oferecer uma assistência especial, sem julgamentos, a uma pessoa que tentou se suicidar, é uma das principais estratégias para evitar a concretização do ato no futuro”, destaca.

O psiquiatra Carlos Eduardo Leal Vidal reconhece que o tema ainda é tabu. “Suicídio, assim como a morte em geral, é um tema ‘pesado’, a maioria dos profissionais não gosta do assunto.” Ele ressalta, porém, que há uma tendência de mudança: “Depois da ocorrência e da divulgação de vários casos de suicídio entre estudantes de medicina, esse cenário está mudando. As entidades médicas profissionais e aquelas ligadas ao ensino médico estão discutindo o tema. E as faculdades também estão tomando iniciativas nesse sentido”, afirma.

O coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro, conta que a pasta fechou um convênio com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para qualificação e atualização de profissionais da rede de urgências e emergências do Sistema Único de Saúde (SUS). O curso tem foco em atendimento de crise, incluindo casos de suicídio, e será oferecido no segundo semestre. “Se realmente queremos prevenir o suicídio, é extremamente importante ofertar um serviço de qualidade à população”, frisa.

Mídias sociais


Um estudo da Universidade Estadual de San Diego e da Universidade Estadual da Flórida indicou que as taxas de suicídio entre adolescentes norte-americanos aumentou de 2010 a 2015, à medida que também houve um incremento no tempo em que os jovens passam nas redes sociais. Os pesquisadores avaliaram duas pesquisas que incluíram dados sobre saúde mental de 506.820 estudantes e avaliaram estatísticas nacionais de mortes por suicídio de pessoas de 13 a 18 anos. “Adolescentes que passaram mais tempo nas novas mídias eram mais propensos a reportar problemas de saúde mental”, escreveram os autores. O risco de suicídio eleva-se no caso dos que passam mais de duas horas por dia conectados (33%) e chega a ser 66% maior quando se comparam jovens que ficam mais de cinco horas usando eletrônicos aos que passam apenas uma hora. Os pesquisadores destacaram que mudanças nas relações sociais, que deixaram de ser face a face para se tornarem virtuais, aumentam a sensação de solidão, mas afirmaram que são necessários mais estudos para se entender melhor essa correlação.

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