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Correio Braziliense

Pesquisadores explicam como uma crise de epilepsia pode matar

Pesquisadores tentam entender os mecanismos que matam epiléticos logo após uma convulsão generalizada e desenvolver melhores estratégias preventivas. A complicação é responsável por cerca de 50 mil óbitos por ano


postado em 30/06/2018 06:23 / atualizado em 30/06/2018 06:47

(foto: Valdo Virgo/CB/DA Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/DA Press)

 
Gramado (RS) — Conhecida há pelo menos 4 mil anos, quando textos assírios já descreviam seus sintomas, a epilepsia foi, por muito tempo, incompreendida, a ponto de doentes serem considerados possuídos por espíritos malignos. Embora hoje seja possível controlar as crises com remédios e, em alguns casos, cirurgia, alguns aspectos dessa patologia continuam a desafiar a medicina. É o caso da morte súbita inesperada (Sudep), uma condição pouco falada e sem causa completamente esclarecida.

Um dos maiores especialistas mundiais em epilepsia, o neurocientista francês Philippe Ryvlin, professor da Universidade de Lyon e diretor do Grupo de Pesquisa Translacional e Integrativa em Epilepsia da instituição, diz que a Sudep é responsável por 50 mil mortes anuais. “A maior parte das pessoas que morrem por essa causa tem mulher, marido, filhos, família... Elas têm crises de tempos em tempos, mas levam uma vida normal. Então, de repente, são encontradas mortas. É uma situação devastadora e dolorosa. Temos de encontrar uma forma de preveni-la”, afirma Ryvlin, que participou do congresso Brain 2018, na semana passada.

Essa é a forma mais comum de morte de pessoas com epilepsia refratária, ou seja, aquelas que não respondem ao medicamento, estimadas em 30% dos pacientes. Nessa população, a taxa de óbitos pela condição é de três a nove a cada mil pacientes ao ano. Já naqueles com a doença controlada, a incidência é menor: de uma a duas pessoas em cada mil. O risco individual aumenta anualmente: “É de 0,5% a 1% ao ano, mas, se a pessoa vive 20 anos, pode ter um risco 20% maior de morrer por Sudep”, observa Ryvlin.

O médico afirma que, recentemente, pesquisas aumentaram o conhecimento a respeito da Sudep, o que poderá levar a mecanismos preventivos. Segundo ele, na maioria dos casos, o indivíduo dormia sozinho e sofreu uma convulsão generalizada, quando os dois hemisférios do cérebro são afetados. Nessa situação, diferentemente das crises parciais, o paciente fica com rigidez muscular, cai inconsciente, seu corpo debate-se rapidamente, ele pode urinar ou defecar por descontrole dos esfíncteres, além de espumar e morder a língua. Isso pode levar até três minutos. Ao acordar, a pessoa se sente muito cansada e não se lembra do que ocorreu. No caso das vítimas de Sudep, logo após o fim da crise generalizada, elas param de respirar, o funcionamento do coração sofre alterações e, em poucos minutos, ocorre a morte.

Atualmente, a única forma de prevenção é tentar fazer com que se tenha o mínimo de crises possível. “É muito improvável que pessoas com crises normais e controladas sofram de Sudep. Então, a primeira coisa é ter um tratamento adequado”, explica Philippe Ryvlin. “Os tratamentos antiepilépticos geralmente conseguem evitar que a crise iniciada se generalize no cérebro. Muitas pessoas poderiam ter convulsões, mas não têm porque a medicação, mesmo não evitando todas as crises, controla pelo menos a propagação do ponto em que ela inicia até virar uma convulsão generalizada”, observa o neurologista André Palmini, diretor científico do Programa de Cirurgia da Epilepsia do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).


Controle vestível


Hoje, sabe-se que, se o paciente que sofre uma crise generalizada não está sozinho, a chance de sobrevivência aumenta. “Na maioria dos casos, quando alguém consegue agir no fim da crise, isso pode ser suficiente para evitar o ataque cardiorrespiratório. Mudar o paciente de posição, por exemplo, é importante porque muitos morrem sufocados pelo travesseiro. Essa não é a única razão, mas se houver alguém por perto, isso pode ajudar”, destaca.

Por isso, se o paciente for de alto risco para Sudep, é recomendado ter em casa algum equipamento que dê o alarme, como uma babá eletrônica. Embora não existam estudos indicando uma redução de óbitos associada à presença desses aparelhos, Ryvlin destaca que eles poderiam ser um arsenal a mais na prevenção da morte súbita. Uma estratégia que tem sido pesquisada são os dispositivos vestíveis, como pulseiras e relógios inteligentes. “Eles ainda não são bons o suficiente para acusar todo tipo de crise epilética, mas são muito bons para detectar convulsões generalizadas”, conta o neurologista.

Nos Estados Unidos e na Europa, existem alguns modelos no mercado. De acordo com Fernando Cendes, professor do Departamento de Neurologia da Universidade de Campinas (Unicamp), a instituição brasileira também trabalha no desenvolvimento de um acessório do tipo. Ryvlin explica que os dispositivos funcionam detectando alguns aspectos, como o movimento, a contração muscular ou, ainda, condutores da pele. Ao perceber a crise,  mandam um alarme para um familiar, o que pode ajudar na intervenção. Nenhum equipamento é mais importante, porém, do que seguir o tratamento adequado, ressalta André Palmini. “Ainda que o paciente continue tendo crises, o tratamento é fundamental para que essas crises não cheguem a convulsões generalizadas”, diz.

*A repórter viajou a convite da organização do Brain 2018

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