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Correio Braziliense

Aulas de música podem melhorar alfabetização de crianças, diz estudo

Aulas de música podem melhorar a consciência fonológica de crianças e ajudar na alfabetização, mostra estudo americano feito com meninos e meninas matriculados no jardim de infância


postado em 03/07/2018 06:00 / atualizado em 03/07/2018 09:54

As crianças que tiveram aulas de piano mostraram vantagem significativa em relação às crianças do grupo de leitura extra em discriminar palavras que se diferem por uma consoante(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
As crianças que tiveram aulas de piano mostraram vantagem significativa em relação às crianças do grupo de leitura extra em discriminar palavras que se diferem por uma consoante (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Além de todos os benefícios usufruídos pela vivência musical, aprender a tocar um instrumento pode ajudar crianças no entendimento de palavras e na alfabetização. É o que mostra pesquisa realizada por cientistas americanos com meninos e meninas matriculados no jardim de infância. Os investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) descobriram que aulas de piano têm um efeito positivo sobre a capacidade de distinguir níveis sonoros, o que auxilia em uma melhoria na discriminação das palavras. As descobertas foram apresentadas na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas).

Os pesquisadores realizaram a investigação em uma escola chinesa, em parceria com cientistas da Universidade Normal de Pequim. Participaram do estudo 47 crianças, que foram divididas em três grupos: um recebeu aulas de piano com duração de 45 minutos, três vezes por semana; o segundo recebeu instruções extras de leitura pelo mesmo período de tempo; e o terceiro não foi submetido a nenhuma intervenção, funcionando como grupo controle. Todas as crianças tinham 4 ou 5 anos e o mandarim como língua nativa.

Após seis meses, os pesquisadores testaram os participantes quanto à capacidade de discriminar palavras com base em diferenças de vogais, consoantes ou tom, já que muitas palavras em mandarim diferem apenas em tom. Segundo os cientistas, uma melhor discriminação de palavras, geralmente, corresponde a uma melhor consciência fonológica — relacionada à estrutura sonora, um componente-chave na aprendizagem da leitura.

As crianças que tiveram aulas de piano mostraram vantagem significativa em relação às crianças do grupo de leitura extra em discriminar palavras que se diferem por uma consoante. E, ao discriminar palavras com base nas diferenças vocálicas, as crianças do grupo de piano e do grupo de leitura extra apresentaram melhor desempenho do que as do grupo de controle. “Não houve diferenças mais amplas nas medidas cognitivas, mas as crianças mostraram algumas melhorias na discriminação de palavras, particularmente para consoantes. O grupo de piano apresentou a maior melhora”, destaca Robert Desimone, um dos autores do estudo.

Os pesquisadores também usaram aparelhos de eletroencefalografia (EEG) para avaliar o funcionamento cerebral dos voluntários e descobriram que as crianças do grupo de piano apresentaram atividades cerebrais mais fortes ao ouvir uma série de sons com tons diferentes. Os resultados sugerem maior sensibilidade a diferenças de altura sonora, o que pode ter ajudado na melhor distinção de palavras.

Em tempo real

Estudos anteriores mostram que, geralmente, músicos têm melhor desempenho que os não músicos em tarefas como compreensão de leitura, distinção de ruído de fundo e processamento auditivo rápido. No entanto, a maioria dessas pesquisas, segundo a equipe do MIT, foi feita perguntando aos participantes sobre o treinamento musical que haviam recebido. Desimone e os colegas decidiram acompanhar os efeitos do contato regular com música.

Para eles, os resultados atestam a importância de as escolas investirem nos ensinamentos musicais. “As crianças que receberam treinamento musical fizeram tão bem ou melhor do que aquelas que receberam instrução acadêmica adicional. Isso significa que as escolas deveriam investir em música e não se livrar da educação artística para oferecer aos alunos mais aulas tradicionais”, ressalta Desimone.

Contra transtornos

Rafael Martins, psiquiatra do Centro de Neuropsicologia Aplicada (CNA), do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, no Rio de Janeiro, destaca que o estudo é interessante e pode contribuir com estratégias de aperfeiçoamento da aprendizagem. “É importante para a área de educação e para profissionais que trabalham com crianças, pois traz evidências de que a música, algo tão presente nas mais diversas culturas, pode ajudar no desenvolvimento de linguagem e de algumas habilidades escolares”, destaca.

Para o psiquiatra, o trabalho americano deve avançar, considerando, por exemplo, a análise de outros idiomas. “Seria importante avaliar se o mesmo efeito ocorre além do mandarim, pois esse idioma depende muito mais do desenvolvimento adequado da discriminação de sons e tons na fala”, justifica

Martins sugere também avaliar se outros aspectos importantes para a aprendizagem da música, como a percepção de passagem de tempo, podem ajudar no tratamento adjuvante de crianças com transtornos específicos de aprendizagem. “Seriam estudos com metodologia semelhantes, mas que foquem em pessoas com transtorno de deficit de atenção (TDAH), dislexia e discalculia, esclarecendo se o treinamento musical pode ajudar no tratamento desses grupos específicos”, complementa.


“Isso significa que as escolas deveriam investir em música e não se livrar da educação artística para oferecer aos alunos mais aulas tradicionais” 
Robert Desimone, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts

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