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Correio Braziliense

Consumo de ácido fólico na gravidez reduz risco de bebê ter doenças mentais

O trabalho é o primeiro a trazer evidências biológicas da relação entre falta de vitamina B9 na gestação e aumento de distúrbios psiquiátricos


postado em 04/07/2018 06:00 / atualizado em 04/07/2018 11:10

No Brasil, farinhas e grãos precisam ser fortificados com ácido fólico: papel-chave no desenvolvimento do tubo neural(foto: Johannes Eisele/AFP - 1/7/13)
No Brasil, farinhas e grãos precisam ser fortificados com ácido fólico: papel-chave no desenvolvimento do tubo neural (foto: Johannes Eisele/AFP - 1/7/13)


Em 1969, um artigo publicado no extinto Irish Journal of Medicine Science encontrou uma associação entre carência de vitamina B9, mais conhecida como ácido fólico, e psicoses alucinatórias em pacientes com epilepsia. Os autores compararam os níveis do micronutriente em pessoas com esquizofrenia e indivíduos que passaram a apresentar sintomas semelhantes aos da doença depois que começaram a tomar algumas drogas anticonvulsivas. A conclusão do estudo foi de que esses remédios diminuíam a absorção da substância, o que, por sua vez, deflagrava crises psicóticas.  Quase meio século depois, um trabalho do Departamento de Psiquiatria do Hospital Geral de Massachusetts, nos Estados Unidos, confirma o papel protetor do ácido fólico em relação à psicose. Em um estudo publicado na revista Jama, da Associação Médica Norte-Americana, os pesquisadores constataram que a exposição pré-natal a esse micronutriente em alimentos fortificados pode reduzir o risco de doenças mentais. Mais de 80 países, inclusive o Brasil, têm leis que determinam a adição da vitamina B9 a grãos e farinhas porque já se sabe da importância que ela tem para o desenvolvimento do tubo neural — a estrutura do embrião que dará origem ao cérebro e à medula espinhal.

O estudo inclui dados de três pesquisas, que trazem, no total, registros médicos de 1,4 mil pessoas. A primeira delas foi conduzida no Hospital Geral de Massachusetts com informações de 292 crianças e jovens de 8 a 18 anos, nascidos entre 1993 e 2001 e divididos pelos cientistas em três grupos: não expostos à fortificação pré-natal com ácido fólico, expostos parcialmente ou completamente expostos. Entre janeiro de 2005 e março de 2015, esses indivíduos foram submetidos ao exame de ressonância magnética funcional por motivos diversos. As duas outras pesquisas foram realizadas pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA com informações de 1.078 pessoas entre 8 e 18 anos, nascidas antes e depois da lei da fortificação dos alimentos nos Estados Unidos. Os voluntários fizeram ressonâncias magnéticas entre 2005 e 2015 por causas que variavam entre alteração no estado mental a autismo.

Ao comparar as imagens do cérebro dos jovens nascidos antes que os alimentos começassem a ser suplementados com o ácido fólico as daqueles nascidos depois dessa norma, os pesquisadores descobriram que o aumento da exposição à vitamina B9 no útero estava associado a mudanças futuras no desenvolvimento do cérebro. Essas alterações tiveram relação direta ao risco reduzido de sintomas de psicoses.

O autor sênior do estudo, psiquiatra Joshua Roffman, explica que transtornos mentais como autismo e esquizofrenia iniciam-se antes ainda de a criança nascer. Por isso, ele aposta em abordagens que invistam na prevenção pré-natal. “Se ao menos uma fração desses casos pudesse ser prevenida por meio de uma intervenção benigna e já disponível ao longo da gestação, isso poderia ser transformador para a psiquiatria, da mesma forma que as vacinas foram para doenças infecciosas ou a fluoretação da água para a odontologia”, compara. “Nossos resultados com ácido fólico são um importante passo nessa direção”, acredita.

Psicose

Já se sabe que a falta de nutrientes adequados durante a gestação aumenta o risco de psicoses na descendência. Isso ficou muito evidente depois da Grande Fome do inverno holandês de 1944-1945, quando um bloqueio alemão impediu o acesso de alimentos e combustível ao país europeu, afetando 4,5 milhões de pessoas. Estudos mostraram que as taxas de esquizofrenia em crianças geradas durante esse período foram duas vezes maiores que em outras épocas da história holandesa; também houve crescimento de casos de outras anomalias do sistema nervoso central, como espinha bífida. O mesmo ocorreu na China entre 1958 e 1961, quando a política do Grande Salto Adiante deixou uma população de famintos — só de mortos, estima-se 20 milhões. O aumento da incidência da esquizofrenia entre pessoas geradas nesse intervalo foi semelhante ao verificado na Holanda.

Além do ácido fólico, micronutrientes como ferro, vitamina D, ácidos graxos essenciais e retinoides podem desempenhar papel importante no desenvolvimento dos transtornos mentais. Porém, até hoje, nenhum dos estudos que levantaram essa tese se basearam em evidências biológicas que, de fato, indicassem uma relação de causa e efeito entre a falta de vitamina B9 durante a gestação e o aumento de distúrbios psiquiátricos. Com as informações sobre a suplementação e as imagens da ressonância magnética cerebral em mãos, os pesquisadores de Massachusetts agora podem fazer essa associação.

Segundo Joshua Roffman, os exames de todos os estudos avaliados mostram que os jovens nascidos depois da implementação da norma da fortificação dos alimentos com ácido fólico exibem padrões de maturação cortical diferente. Eles apresentam um tecido cerebral mais espesso e sinais de adelgaçamento tardio do córtex cerebral nas regiões do órgão associadas à esquizofrenia, comparados aos que nasceram antes da regra. Já aqueles gerados no início da implementação da suplementação alimentar com B9 apresentam uma estrutura cerebral intermediária entre esses dois cenários. O afinamento precoce e acelerado do tecido do córtex já foi associado, em trabalhos anteriores, ao risco de autismo e de psicoses.

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