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Correio Braziliense

Homem já praticava esportes coletivos 10 mil anos atrás, revela estudo

Descobertas apontam uma data ainda mais antiga do que o imaginado para o surgimento da prática esportiva


postado em 08/07/2018 08:00 / atualizado em 08/07/2018 00:25

(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/CB/D.A Press)

Milhões de pessoas acompanham ansiosas as partidas da Copa para descobrir qual nação ganhará o título de melhor time de futebol do mundo. O mesmo ocorria durante as olimpíadas gregas, onde, diante de grandes plateias, atletas de cidades diversas disputavam uma série de jogos em honra aos deuses. O esporte sempre gerou fascinação entre admiradores e praticantes e tem papel importante na história da humanidade. Até hoje, porém, historiadores não conseguem estabelecer quando começou essa paixão.

Em uma pesquisa publicada na revista Human Nature, pesquisadores dos Estados Unidos começam a desvendar esse mistério. Eles descobriram indícios da prática de esporte coletivo analisando vestígios de caçadores-coletores. No tipo de jogo mais comum descoberto, pedaços de pau eram usados para acertar objetos e, às vezes, pessoas. Também foram encontrados vestígios de jogos coletivos envolvendo chutes e disputas semelhantes ao rugby.

Os resultados do trabalho contrariam teorias anteriores, que apontam as sociedades agrícolas, que surgiram depois, há cerca de 8,5 mil anos, como as pioneiras da prática esportiva. “Somos os primeiros a descobrir que os jogos de contato de equipe são comuns nas sociedades de caçadores-coletores. Nossa constatação sugere que esse tipo de brincadeira pode ser muito mais antiga do que se pensava, datando muito antes do surgimento da agricultura e das cidades”, ressalta ao Correio Michelle Scalise Sugiyama, principal autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Oregon.

A equipe americana analisou registros etnográficos de caçadores-coletores no Atlas Etnográfico, um extenso banco de dados de 1.167 sociedades, construído pelo antropólogo americano George P. Murdock e publicado em 1977. Embora o jogo — ou a ausência dele — não fosse comumente ou extensivamente documentado pelos primeiros etnógrafos, os cientistas encontraram informações sobre jogos de contato em 46 de 100 sociedades caçadoras-coletoras isoladas que viveram no século 20. Segundo os autores, a partir dessas constatações, é possível fazer inferências sobre como se comportavam as comunidades mais antigas.

“Nós encontramos registros de lutas de coalizão, que envolve o jogo de uma equipe lutando contra outra e é diferente da luta diádica, em que uma pessoa luta apenas com outro indivíduo”, conta ao Correio a pesquisadora Michelle Scalise Sugiyama. Ela explica que o primeiro tipo de batalha é mais complexo, envolvendo, por exemplo, a necessidade de monitorar e responder a ações de vários opositores de uma só vez. “Além disso, você deve coordenar a ação com os colegas de equipe e responder a ações de outra equipe, que está fazendo a mesma coisa”, diz.

Segundo Sugiyama, as lutas podem ter servido de base prática para os caçadores-coletores aprenderem a coordenar manobras como golpear, bloquear, chutar, desviar e arremessar projéteis. Essas habilidades os preparavam para invasões de grupos rivais. “Semelhanças entre os esportes de contato e os combates de guerras têm sido observadas há muito tempo, mas, até agora, ninguém havia identificado exatamente quais eram. Somos os primeiros a notar os movimentos corporais usados nos esportes de contato de equipe e aqueles usados em invasões letais — isto é, a guerra conduzida usando lanças, paus e agachamento”, frisa.

Comparações limitadas

O método usado pelos cientistas —  de usar dados de sociedades isoladas que viveram em um passado considerado “recente” para compará-los com os povos que viveram há milhares de anos — é recorrente na área científica, mas tem limitações. Sugiyama ressalta a escassez de registros mais antigos de caçadores-coletores, mas diz que as semelhanças entre os povos analisados ajuda na comparação. “Não temos registros tão consistentes daquela época, mas usamos dados de sociedades que também viviam isoladas, sem influências externas, um cenário que acreditamos ter sido bastante similar ao desses povos do passado”, defende.

Rodrigo Elias Oliveira, pesquisador do Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o método usado é um dos problemas da pesquisa. “O trabalho acaba desenvolvendo uma linha de teoria baseada em dados de sociedades que viveram no século 20. É difícil presumir que os caçadores-coletores mais antigos, que viveram há 10 mil anos, realizavam as mesmas tarefas. Apesar de serem populações semelhantes, elas estão muito distantes na história. Os cientistas, porém, não escondem isso no estudo”, pondera.

Para Oliveira, a pesquisa traz pontos interessantes, mas que precisam ser aprofundados. “É muito interessante analisar os jogos que não são lutas e envolvem um número maior de indivíduos, como o futebol, mas é necessário uma análise mais ampla, com a observação e a comparação de dados arqueológicos, para dar mais validade às comparações. É um pontapé inicial sobre o tema, que precisa ser explorado mais a fundo, com pesquisas futuras”, avalia.

Especialistas acreditam que a prática esportiva tenha evoluído como uma maneira de desenvolver, ensaiar e aperfeiçoar habilidades críticas para a sobrevivência do homem. Os jogos de perseguição, por exemplo, podem ter ajudado a aumentar a resistência e a velocidade, habilidades úteis para fugir de predadores. Da mesma forma, defende-se que disputas de luta desenvolveram habilidades usadas em combates reais.

Aprendendo a trabalhar em equipe

Embora muitos animais brinquem de lutas, apenas os homens praticam esse tipo de atividade em equipe. Segundo Michelle Scalise Sugiyama, a razão para essa peculiaridade pode estar nas diversas maneiras pelas quais os humanos cooperam, incluindo a guerra. “A resposta pode estar nas adaptações que os humanos desenvolveram para possibilitar uma cooperação ainda mais complexa”, diz a pesquisadora da Universidade de Oregon.

Segundo ela, na época dos caçadores-coletores, as disputas de grupo, além de funcionar como treinos para a guerra, proporcionavam a oportunidade de os indivíduos trabalharem em equipe. “Eles aprenderam a antecipar, monitorar e responder estrategicamente a ações de oponentes e parceiros”, diz.

Luis Orione, psicólogo do esporte, acredita que a disputa em grupos tem proporcionado uma série de benefícios para a sociedade durante toda a história. “O interessante do jogo em grupo é fazer com que as pessoas respeitem as regras, saibam aceitar quem perdeu ou ganhou. Está ligado aos valores representados pela sociedade, que é moldada a partir disso”, opina.

O especialista ressalta, porém, que, apesar dos pontos positivos desenvolvidos pela prática esportiva, mudanças nas relações entre os concorrentes mudam ao longo do tempo. “Hoje, vemos coisas que fogem disso: a agressão entre atletas, por exemplo, mas temos que levar em consideração que os jogadores também são moldados pela nossa sociedade atual.” 

 

"Semelhanças entre os esportes de contato e os combates de guerras têm sido observadas há muito tempo, mas, até agora, ninguém havia identificado exatamente quais eram”
Michelle Scalise Sugiyama, principal autora do estudo e pesquisadora da Universidade de Oregon 
 

Palavra de especialista

Como os indígenas
“As atividades realizadas pelas sociedades antigas eram muito semelhantes aos esportes de hoje. A caça, a pesca, ou seja, a busca pela comida, resultava em alta performance física, o mesmo que agora vemos no esporte. É difícil apontar uma data exata para o surgimento dos jogos coletivos, mas podemos ver semelhanças também com as comunidades indígenas. Temos, por exemplo, o caso dos tupis-guaranis, que tinham atividade semelhante à guerra. Não era uma batalha, mas um desafio em que tinham que capturar um ‘inimigo’ e mantê-lo em cárcere. Ser capturado era considerado quase uma honra dentro dessa sociedade.”
Marcos Magalhães, pesquisador em arqueologia social e titular do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém

Para saber mais

Do Egito para o mundo 
Segundo indícios científicos, o início das práticas esportivas se deu por volta de 1850 a.C., quando foi encontrado no Egito, na Necrópole de Beni-Hassan, um mural com imagens que mostravam o passo a passo de lutas. Na Irlanda, em 1830 a.C., também ocorreram arremessos e, por volta de 1160 a.C., salto em altura. Históricos dos primeiros esquiadores e remadores foram registrados na Noruega. Já as olimpíadas da Grécia antiga, uma série de competições disputadas por atletas de diversas cidades, tiveram início em 776 a.C. e foram celebradas até o ano de 393, em Olímpia, tornando-se o evento esportivo mais famoso da história.

Foi também na Grécia que surgiram os primeiros indícios de atividade esportiva semelhante ao futebol. Historiadores explicam que os gregos antigos disputavam um jogo com uma bola feita de bexiga de boi e revestida com uma capa de couro. Já em 1488 surgiu o cálcio fiorentino, na cidade de Florença, na Itália, com a mesma premissa, mas disputado por mais pessoas, duas equipes com mais de 25 jogadores cada uma. O jogo antigo ainda é realizado em Florença anualmente (foto) e sem regras, que teriam surgido apenas em 1660,  com os primeiros registros de gol.

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