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Correio Braziliense

Esquizofrênicos têm risco duas vezes maior de desenvolver diabetes

Especialistas alertam para a importância do monitoramento da glicemia


postado em 17/07/2018 06:00 / atualizado em 17/07/2018 06:26

(foto: Thiago Fagundes/CB/DA Press)
(foto: Thiago Fagundes/CB/DA Press)

 
Tanto o diabetes quanto os transtornos mentais exercem grande impacto sobre a vida dos pacientes: os tratamentos requerem mudança de hábitos e o uso de medicamentos controlados. A ligação entre as complicações, porém, não acaba aí. De acordo com estudo da Universidade da Califórnia, São Francisco, nos Estados Unidos, pessoas com distúrbios mentais severos — como esquizofrenia e transtorno bipolar — apresentam risco duas vezes maior de desenvolver a doença metabólica.

Segundo o estudo publicado na revista Diabetes Care, 28,1% desses pacientes têm diabetes tipo 2, quando a insulina produzida pelo corpo não é suficiente para processar a glicose consumida. Na população em geral, a taxa de incidência da doença metabólica é de 12,2%. O estudo constatou ainda a prevalência de pré-diabetes em quase metade das pessoas com transtornos mentais, contra apenas um terço da amostra geral. Para os autores, as descobertas indicam que é preciso incorporar testes regulares de glicemia ao tratamento de pacientes com distúrbios mentais, além de aumentar o cuidado com a saúde física deles.

“As causas para o risco aumentado incluem efeitos colaterais das medicações, mas também consequências do próprio distúrbio”, afirma Christina Mangurian, principal autora do artigo. “A maioria das pessoas com transtornos mentais severos perde componentes sociais — como emprego e moradia —, e isso também tem um impacto na saúde. Elas são também mais propensas a fumar”, complementa.

Participaram da análise mais de 15 mil pessoas, moradoras da Califórnia e submetidas a tratamento com antipsicóticos. Os pesquisadores analisaram todos os casos diagnosticados de diabetes tipo 2 e pré-diabetes do grupo e compararam os resultados com os dados gerais da população dos Estados Unidos.

Os antipsicóticos são usados para tratar sintomas de perda de contato com a realidade causados por alguns transtornos mentais. Um exemplo clássico é a esquizofrenia, que gera delírios e alucinações. Entre os efeitos colaterais dessas drogas, porém, estão ganho de peso, impactos na taxa de colesterol e resistência à insulina — os principais fatores de risco para o desenvolvimento de diabetes.

Essas pessoas ainda enfrentam condições instáveis de vida e baixa renda, o que dificulta o comprometimento com o estilo de vida saudável necessário para prevenir a doença. Segundo especialistas, um grande sinal de alerta é o aparecimento do pré-diabetes, caracterizada por um nível alto de glicose no sangue. Se percebida com antecedência, é possível controlar e evitar que a condição evolua.

Prevenção

Porém, poucos desses indivíduos são monitorados quanto à maior vulnerabilidade à doença metabólica. Dois estudos anteriores também publicados por Mangurian — em 2015 e 2017 — mostram que apenas 30% dos que utilizam o sistema público americano de saúde, o Medicaid, e 55% daqueles que têm um plano particular são examinados com esse intuito. “Se não estamos fazendo exames, estamos perdendo oportunidades de tratar e prevenir a doença”, diz a pesquisadora. “No nosso trabalho atual, vimos que 43% dessas pessoas têm pré-diabetes, e começa cedo, aos 20 anos. Se fizéssemos um trabalho melhor com os testes, poderíamos detectar e prevenir o diabetes.”

Airton Golbert, médico membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), também ressalta a importância da realização de exames regulares. Segundo o especialista, as complicações de longo prazo podem, muitas vezes, ser evitadas se detectadas a tempo. “São necessários mudança de estilo de vida, dieta saudável, foco na perda de peso e exercícios físicos. Para algumas pessoas, já se recomenda medicações usadas para o diabetes pelo fato de elas não conseguirem adotar esses hábitos. É muito difícil para pacientes com distúrbios mentais segui-los.”


Complicadores

Segundo Fábio Aurélio Leite, psiquiatra do Hospital Santa Lúcia Norte e professor da Universidade de Brasília (UnB), há outro complicador. Geralmente, os pacientes com distúrbios psiquiátricos graves têm a expectativa de vida menor, obesidade e doenças cardiovasculares. “A gente usa com muito cuidado os medicamentos que aumentam o peso e causam resistência à insulina. Mas o diabetes altera o funcionamento do cérebro também, é uma doença degenerativa.”

Para o médico, a pesquisa corrobora algo que é visto na prática, e as ações para minimizar o problema devem ser tomadas em várias esferas. “A grande questão é a participação da família dos pacientes, que tem um envolvimento muito grande. Além disso, os psiquiatras têm que se preocupar em usar medicamentos com menos impactos, o Estado deve dar acesso a esses medicamentos melhores e entender que investir em tratamento psiquiátrico é diminuir o gasto em outras áreas, evitar outros problemas. Para a sociedade, é importante entender que os transtornos mentais são como qualquer outra doença e diminuir esse preconceito.”

* Estagiário sob supervisão da subeditora Carmen Souza

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