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Correio Braziliense

Uso excessivo da Internet aumenta riscos de adolescentes desenvolverem TDAH

Adolescentes expostos a níveis elevados de mídias digitais apresentam probabilidade significativamente maior de desenvolver sintomas de TDAH, mostra estudo americano com 2.587 jovens


postado em 18/07/2018 06:00 / atualizado em 18/07/2018 00:03


A exposição a mídias digitais tem aumentado principalmente pelo maior acesso a tecnologias móveis: especialistas sugerem movimento contrário(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A exposição a mídias digitais tem aumentado principalmente pelo maior acesso a tecnologias móveis: especialistas sugerem movimento contrário (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Se nas gerações passadas os pais se preocupavam em disputar os filhos com a televisão e o videogame, eles, agora, precisam se desdobrar para serem ouvidos por uma prole totalmente imersa na vida digital. Em um universo povoado por mensagens de texto, download de vídeos, música em streaming, selfies e redes sociais, pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (UCS), nos Estados Unidos, resolveram investigar se tantas distrações poderiam significar uma incidência maior de transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Em um estudo realizado com 2,6 mil adolescentes acompanhados ao longo de dois anos, eles descobriram que a resposta é positiva.

A pesquisa, publicada no Journal of the American Medical Association (Jama), é observacional, ou seja, não determina uma relação de causa e efeito. Se o abuso das mídias digitais aumenta o risco de TDAH ou se portadores do transtorno são mais propensos a recorrer a ela é algo que os pesquisadores não têm como afirmar, mas Adam Leventhal, diretor do Laboratório de Saúde, Emoção e Adição da Faculdade de Medicina Keck da USC, destaca que a associação encontrada foi forte.

“Estatisticamente, a relação é significativa. O que podemos dizer, com certeza, é que os adolescentes expostos a níveis elevados de mídias digitais apresentaram probabilidade significativamente maior de desenvolver os sintomas de TDAH no futuro”, afirma, por meio de um comunicado à imprensa. O especialista, autor correspondente do artigo, ressalta que estudos semelhantes foram realizados no passado, mas, como não havia dispositivos móveis como smartphones e tablets para acompanhar o usuário, esses efeitos não podiam ser medidos de forma fidedigna. “Agora, tecnologias móveis fornecem estimulação rápida e de alta intensidade acessível o dia inteiro, o que aumentou a exposição às mídias digitais muito além do que se foi estudado previamente”, observa.

O TDAH é considerado um transtorno neurobiológico e comportamental que se manifesta principalmente na infância e na adolescência, caracterizado pela falta de concentração, associada a outros fatores, como impulsividade e hiperatividade. Segundo os especialistas, não se trata simplesmente de crianças agitadas ou “danadas”, mas de indivíduos com sério comprometimento funcional e do desenvolvimento pela incapacidade de manter o foco da atenção. No Brasil, um estudo epidemiológico do Instituto Glia encontrou prevalência de 4,4% do problema entre a população de 4 a 18 anos, uma estatística semelhante à norte-americana, que é de 4%.

O estudo foi feito com 2.587 jovens de 15 e 16 anos, estudantes de escolas públicas de Los Angeles, de realidades socioeconômicas diversas. Nenhum tinha diagnóstico prévio de TDAH. Eles foram entrevistados pelos pesquisadores sobre a frequência dos seguintes hábitos: checar sites de mídias sociais, trocar mensagens, procurar/assistir fotos e vídeos, baixar ou ouvir música por streaming, comentar o status/fotos de outras pessoas, conversar on-line, assistir filmes por streaming, jogar sozinho ou com amigos em console/computador/smartphone, ler blogs/matérias/livros/conteúdo de fóruns on-line, postar ou compartilhar fotos/vídeos/atualizações de status, comprar ou navegar em lojas on-line e conversar por vídeo.

De acordo com as respostas, os jovens foram divididos em três categorias: sem uso, uso mediano, alto uso. A cada seis meses, eles eram entrevistados novamente, até se encerrar o período de dois anos. No fim, os pesquisadores diagnosticaram sintomas de TDAH em 9,5% dos 114 estudantes que utilizavam metade desses recursos com frequência, e em 10,5% dos 51 categorizados como alto uso. Em comparação, 4,6% dos 495 jovens que não eram usuários frequentes de mídias digitais apresentaram TDAH, o mesmo índice da população em geral. No início da pesquisa, nenhum dos participantes havia recebido esse diagnóstico, o que sugere a relação entre o transtorno e o hábito de se dedicar intensamente ao universo digital.

Intervenção

Ainda que não possam apontar que tablets e smartphones causem o TDAH, os pesquisadores alertam para a necessidade de intervenções que reduzam o tempo de exposição dos jovens a tecnologias. Segundo Leventhal, um estudo recente realizado nos Estados Unidos indicou que os adolescentes passam cerca de um terço do dia, quase nove horas, usando mídias on-line. Outra pesquisa, publicada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doença dos EUA, constatou que 43% dos estudantes do ensino médio ficam mais de três horas por dia imersos no mundo digital. “Isso aumenta nossa preocupação com a possibilidade de a proliferação de tecnologias digitais de alta performance colocar uma nova geração de jovens em risco para o TDAH”, diz.

O psicólogo Kostadin Kushlev, pesquisador da Universidade da Virgínia, encontrou um resultado semelhante entre estudantes universitários e também alerta para a associação entre falta de atenção e uso excessivo de tecnologias digitais. Ele conduziu uma pesquisa com 221 graduandos para investigar se os alertas enviados pelo smartphone podem interferir em sintomas de hiperatividade e deficit de atenção. Na primeira semana, os jovens tinham de manter as notificações ativas e deixar os aparelhos em um local de fácil acesso. Na semana seguinte, deveriam fazer o oposto: desligar o alerta e deixar o telefone o mais longe possível.

Ao fim de cada período, eles completaram questionários para medir o nível de atenção. Os resultados mostraram que, quando o alerta estava acionado, os estudantes apresentaram sintomas significativamente maiores de desatenção e hiperatividade, comparado ao período em que não eram requisitados pelas notificações do celular. “O resultado não quer dizer que os smartphones causem TDAH, mas sugerem que essa estimulação digital constante pode contribuir para aumentar a problemática cada vez maior de deficit de atenção e hiperatividade da nossa sociedade moderna”, afirma.


10,5%

dos participantes que utilizavam mídias digitais com muita frequência apresentaram sintomas de TDAH. O índice da população em geral é de 4%

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