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Correio Braziliense

Quantidade de anos que pessoa passa estudando tem influência da genética

Pesquisadores americanos identificam 1.271 genes que interferem, entre 11% e 13%, no tempo que um indivíduo destina à educação formal. Segundo especialistas, o nível de escolaridade é mais influenciado por fatores externos e sociais


postado em 24/07/2018 06:00 / atualizado em 23/07/2018 21:44

O tempo dedicado à formação educacional é preditor de renda e longevidade: cientistas ainda precisam descobrir como se dá a influência dos genes (foto: Philippe Desmazes\AFP - 20/3/18)
O tempo dedicado à formação educacional é preditor de renda e longevidade: cientistas ainda precisam descobrir como se dá a influência dos genes (foto: Philippe Desmazes\AFP - 20/3/18)
A quantidade de anos que uma pessoa passa nos bancos escolares tem influência da genética, segundo estudo realizado com amostras de 1,1 milhão de indivíduos de 15 países publicado na revista Nature Genetics. Os autores ressaltam que essa é a maior pesquisa a investigar os genes associados ao tempo de educação formal, um preditor de emprego, renda, saúde e longevidade. Embora fatores externos e sociais sejam muito mais determinantes nessa questão, os pesquisadores destacam que o DNA também desempenha um papel: 11% da variação da escolaridade pode ser explicada por ele, diz a pesquisa.

Daniel Benjamin, professor do Centro de Pesquisa Econômica e Social da Universidade do Sul da Califórnia e um dos autores do estudo, porém, é categórico: “O nível de escolaridade é um fenômeno complexo, e nosso estudo foca apenas uma pequenina parte de um grande retrato”, destaca. “Nós não encontramos ‘o gene da escolaridade’ ou algo do tipo. Nós identificamos muitas variantes genéticas que estão associadas a isso. Embora se acredite que a ciência descobriria numerosas associações, uma a uma, entre genes e resultados (educacionais), nós já sabemos, há alguns anos, que a grande maioria dos traços humanos é complexa e influenciada por muitos — talvez milhões —  de genes que, sozinhos, tendem a influenciar muito pouco um resultado relevante.”

O objetivo da pesquisa, de acordo com Benjamin, é “lançar luz sobre o papel da genética em comportamentos humanos complexos”. Ela faz parte de um projeto iniciado em 2011, o Consórcio de Associação Genética com Ciências Sociais (SSGAC, sigla em inglês), um grupo internacional que investiga o papel do DNA em características como personalidade, comportamento e preferências — questões geralmente abordadas por economistas, psicólogos e sociólogos, como explicam os integrantes do consórcio.

Para conduzir essas pesquisas, o grupo se vale dos estudos de associação genômica ampla (GWAS), mas, em vez de procurar relacionar genes a doenças, como geralmente se espera desse tipo de investigação, eles buscam variações genéticas que podem influenciar questões como o nível de escolaridade. Todas as informações do estudo vêm de 71 bancos de dados referentes ao genoma de descendentes de europeus com mais de 30 anos, dos quais, além do DNA, os pesquisadores tiveram acesso à informação sobre o número de anos de educação formal completos.

Inédito

Esse é o maior estudo que associa genes e educação, diz Daniel Benjamin. Uma pesquisa prévia havia constatado que 74 variantes — muitas delas envolvidas no desenvolvimento do cérebro — tinham alguma influência sobre o nível de escolaridade. Agora, com uma amostra bem maior, a equipe identificou 1.271 genes. Juntos, eles explicam de 11% a 13% da variação do tempo de estudo entre indivíduos, o mesmo percentual atribuído a alguns fatores sociais, como a renda familiar e o nível educacional da mãe.

“O estudo nos leva a uma direção mais clara no sentido de entender a arquitetura genética desse complexo comportamento. O percentual que encontramos é um efeito grande, especialmente para um resultado comportamental”, observa o co-primeiro autor do estudo, Robbee Wedow, estudante de graduação do Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia em Boulder e pesquisador do Instituto de Genética Comportamental.

Wedow ressalta, contudo, que a influência genética não é determinista. “Ter um baixo escore poligênico (índice composto por muitas variantes genéticas ao longo de todo o genoma) não significa que uma pessoa não alcançará um alto nível educacional. Assim como muitos outros resultados, a escolaridade é consequência da relação entre questões genéticas e ambientais”, diz, destacando que ambição pessoal, situação familiar e status socioeconômico desempenham papel maior que o DNA.

Outra limitação do trabalho, segundo Wedow, é que os dados são todos de descendentes de europeus. Segundo ele, para um retrato populacional mais diverso, seria necessário incluir informações genéticas de outros grupos étnicos. O pesquisador, porém, diz que esses resultados poderão ser usados para explorar como os efeitos das variantes genéticas, aliados aos já conhecidos determinantes ambientais, moldam o nível educacional de um indivíduo.

Interação

Uma questão que os cientistas precisam ainda resolver é entender como os genes influenciam o tempo que uma pessoa passará nos bancos escolares. É possível que isso resulte da interação com outros traços, como inteligência, autoconsciência e resiliência, mas ainda não há nada fechado em relação a isso. “Os genes não afetam a escolaridade diretamente. As variantes que identificamos tendem a ser especialmente ativas no cérebro e estão envolvidas no desenvolvimento neural e na comunicação entre neurônios”, diz Daniel Benjamin.

Segundo o cientista, o poder preditivo dos genes no nível de escolaridade pode ser resultado de um longo processo, que começa com o desenvolvimento do cérebro. “Ele, então, é seguido pela emergência de traços psicológicos, como habilidades cognitivas e personalidade”, diz. “Esses traços podem levar a tendências comportamentais, assim como experiências e tratamentos por parte de pais, colegas e professores. Todos esses fatores podem adicionalmente interagir com o ambiente no qual as pessoas vivem. Por fim, esses traços, comportamentos e experiências podem influenciar, mas não completamente determinar, a escolaridade.”

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