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Correio Braziliense

Uso de analgésicos opioides intensifica sintomas da demência em idosos

Pesquisa britânica mostra que consumo de analgésicos opioides pode intensificar os sintomas da demência, síndrome que causa o declínio cerebral progressivo. Cientistas defendem a redução das doses receitadas aos idosos e a busca por terapias alternativas


postado em 25/07/2018 06:00

 

Problemas de memória e habilidades sociais e cognitivas limitadas são alguns dos sintomas da demência,  enfermidade que atinge grande parte da população idosa. Os tratamentos voltados para essa doença, que ainda não tem cura, consistem em evitar o avanço desses danos. Pesquisadores ingleses observaram que o uso de analgésicos opioides, frequentemente receitados, pode agravar ainda mais o quadro dos pacientes com o distúrbio cognitivo. O estudo, que acompanhou mais de 100 idosos, foi apresentado na Conferência Anual da Associação Internacional de Alzheimer (AAIC, na sigla em inglês),  que acontece até o fim da semana em Chicago, nos Estados Unidos.

Segundo os autores do estudo, cerca de metade dos que sofrem com demência sente dores significativas, mas que não são levadas em conta de forma adequada. “Pesquisas anteriores mostraram que a dor é frequentemente subdiagnosticada e mal administrada em pessoas com demência”, explicou ao Correio Clive Ballard, pesquisador da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que participou do trabalho, realizado na Noruega.

Ballard ressaltou que os analgésicos à base de opiáceos são prescritos para até 40% dos pacientes com demência que vivem em casas de repouso no mundo inteiro. O especialista assinalou que o uso do analgésico paracetamol melhora efetivamente a dor, a agitação e a depressão, mas que uma proporção significativa de idosos precisa de um tratamento mais forte. “Aqueles que não respondem ao paracetamol geralmente recebem buprenorfina, medicamento feito à base de opioides. A ideia do estudo foi avaliar os benefícios e a segurança dessa abordagem”, detalhou o cientista.

Testes

Para o experimento, os pesquisadores selecionaram 162 noruegueses com demência avançada e depressão, que foram tratados, de forma aleatória, com analgésicos paracetamol e buprenorfina ou com placebo, durante 13 semanas. Como resultado, os cientistas observaram que os pacientes que receberam o analgésico opioide apresentaram três vezes mais sintomas psiquiátricos relacionados à demência — como alterações de personalidade, confusão e sedação — em comparação com os outros idosos. O uso de paracetamol não mostrou efeitos relevantes.

Os cientistas constataram ainda que os pacientes que tomaram buprenorfina foram significativamente menos ativos durante o dia. Na avaliação de Ballard, os resultados obtidos nos testes apontam para a necessidade de se repensar o uso de opioides em pacientes com demência. “Precisamos parar de sedar pessoas idosas e frágeis. Agora temos provas contundentes de que esse tipo de medicamento prejudica as pessoas com demência. A dor é um sintoma que deve ser tratado, mas precisamos de caminhos melhores”, frisou o pesquisador.

Ballard lembrou que pesquisas anteriores mostraram um quadro semelhante com os antipsicóticos. Estudos revelaram que, usada em excesso, essa classe de remédios intensificava problemas cognitivos, o que levou a uma redução de 50% na prescrição dessas substâncias. “Precisamos de mais foco em abordagens não medicamentosas para o tratamento da dor. Dependendo do tipo de dor e do indivíduo, podem ser adotadas práticas como a aplicação de compressas, por exemplo, e a fisioterapia”, opinou.

Priscilla Mussi, médica geriatra e coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, considerou o trabalho britânico importante por contemplar um campo pouco explorado na área geriátrica. “Esse estudo ressalta um viés pouco abordado, que é o efeito dos medicamentos em pessoas com demência. A maioria das pesquisas sobre remédios até exclui esses pacientes, mas é importante conhecer os efeitos gerados nesses indivíduos, pois podem envolver danos”, comentou a especialista.

Dosagem

Para entender por que o uso de opioides prejudicou pacientes com demência, os pesquisadores ingleses realizaram um segundo estudo. Eles analisaram camundongos com Alzheimer e constataram maior sensibilidade a esses analgésicos em comparação com medicamentos sem a substância. “Os roedores com doença de Alzheimer responderam a uma dose muito menor para aliviar a dor, e experimentaram mais efeitos adversos quando a dose foi aumentada para um nível normal”, relatou Clive Ballard. Uma observação ainda mais detalhada mostrou que os ratos com Alzheimer produziam mais opioides endógenos naturais do corpo, como as endorfinas. “Nosso trabalho com camundongos indicou que as pessoas com demência podem ser particularmente sensíveis, possivelmente porque produzem mais de seus próprios opioides naturais, o que pode significar que precisam de uma dose muito menor”, detalhou o cientista. “Isso nos mostra que é necessário repensar a dosagem desses medicamentos”, reforçou o britânico.

A geriatra Priscilla Mussi também defendeu que a questão seja reavaliada. “Acredito que esse estudo abre novas vias de pesquisa, e uma das mais importantes é essa: entender se a diminuição da dose pode ajudar a evitar danos. Dessa forma, o uso do medicamento ainda é uma saída, mas seria adaptado para ser usado de uma forma mais eficaz e sem causar o agravamento dos sintomas nesses pacientes”, ressaltou. Para ela, novas estratégias para tratamento da dor em idosos devem ser adotadas. “Temos algumas possibilidades. Podemos usar medicamentos, como cremes tópicos e compressas, e até mudar o colchão, algo que parece simples, mas que pode fazer diferença para quem sente dor”, elencou.

 

Alívio

São drogas que atuam no sistema nervoso para aliviar a dor. Os primeiros opioides foram produzidos a partir da papoula, mas, hoje em dia, a maioria deles é desenvolvida sinteticamente. São semelhantes a substâncias naturais, como a endorfina, que é fabricada pelo organismo para controlar a dor. Normalmente, tem uso receitado para o controle da dor moderada a severa.

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