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Correio Braziliense

Cientistas anunciam a descoberta de um lago subterrâneo em Marte

A descoberta levanta a possibilidade de haver mais água e, talvez, vida no planeta vizinho


postado em 25/07/2018 11:15 / atualizado em 26/07/2018 12:06


A água é um dos elementos mais procurados em outros planetas do Sistema Solar, já que a presença dela é primordial para a ocorrência de vida. Hoje, frio, árido e deserto, Marte  — que há cerca de 3,6 milhões de anos, era quente, úmido e cheio de lagos — figura entre os principais alvos de astrônomos nessa empreitada. Os esforços surtiram efeito. Graças ao uso de um radar ítalo-americano de baixa frequência, foi identificado um lago permanente de água líquida abaixo de uma camada de gelo no polo sul marciano. A descoberta, detalhada na revista Science, levanta a possibilidade de haver outras fontes parecidas no local, aumentando, assim, as chances de existência de vida.

“Esse é o lugar de Marte onde há o que mais se assemelha a um habitat, um lugar onde a vida poderia existir”, ressaltou Roberto Orosei, astrônomo do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália e líder da pesquisa. Segundo ele, as condições não são exatamente “ideais para férias” ou propícias para ser o hábitat de peixes. “Mas há organismos terrestres que podem sobreviver e prosperar, de fato, em ambientes semelhantes. Existem micro-organismos na Terra que são capazes de sobreviver até mesmo no gelo”, ponderou.

Quanto à sobrevivência desses seres no lago marciano, serão necessários novos estudos. Os resultados de agora, segundo Enrico Flamini, diretor da missão espacial Mars Express, da Agência Espacial Italiana (ASI), são decisivos para os próximos trabalhos. “A água está lá. E não temos dúvidas”, garantiu o coautor do estudo. “Esse é um trabalho surpreendente, que sugere que a água em Marte não é um escoamento temporário, como revelado em descobertas anteriores, mas um corpo de água persistente que cria condições para a vida durante longos períodos de tempo”, avaliou Alan Duffy, professor associado da Universidade Swinburne, na Austrália, e não integrante da equipe de pesquisadores.

Até então, só haviam sido encontradas evidências de água gasosa e congelada no planeta. A água líquida foi localizada pelo radar ítalo-americano Marsis. O instrumento de medição — a bordo da nave Mars Express — enviou pulsos eletromagnéticos ao Planeta Vermelho e mediu como eles ecoavam de volta. As análises mostraram reflexos brilhantes de uma ampla região, com cerca de 20 quilômetros de largura, localizada a cerca de um quilômetro e meio abaixo do gelo da superfície marciana.

Os ecos detectados sob a camada gelada eram mais fortes do que os da superfície. Na Terra, essa condição só acontece quando se observa água glacial,  por exemplo, em arredores do Lago Vostok, na Antártida. “Na Terra, ninguém ficaria surpreso com tal descoberta. A interpretação normal seria que descobrimos um lago subglacial. As pessoas perfurariam e descobririam se isso é ou não verdade”, frisou Orosei. “Em Marte, isso é muito mais difícil, é claro, porque não podemos perfurar o gelo”, completou Jeffrey Plaut, um dos autores do estudo e pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa.
 
Localizado debaixo de uma camada de gelo marciano, o lago é amplo, com cerca de 20km de largura(foto: ESA/DLR/FU BERLIN/CC BY-SA)
Localizado debaixo de uma camada de gelo marciano, o lago é amplo, com cerca de 20km de largura (foto: ESA/DLR/FU BERLIN/CC BY-SA)

Cautela

A escolha da equipe foi trabalhar os dados coletados com muito cuidado. “Passamos muito tempo discutindo se isso também era o caso de Marte. Foi uma longa investigação, que exigiu bastante esforço, mas, depois de muitos anos, conseguimos demostrar que, de fato, esse era o caso (...) Nós descobrimos que qualquer outra explicação não era tangível em face às evidências que tínhamos. Então, tivemos de concluir que há água em Marte hoje”, ressaltou, em comunicado, Orosei.

Segundo os cientistas, a temperatura do lago está abaixo do ponto de congelamento de água pura: cerca de 10 graus negativos. Essa condição se mantém graças a uma mistura de sais dissolvidos: magnésio, cálcio e sódio, conhecidos por compor rochas marcianas. Somando a pressão do gelo, a “salmoura” permite que a água permaneça extremamente gelada, mas, ainda assim, líquida, como ocorre na Terra.

Apesar da massiva quantidade de informações coletadas — foram coletados dados de 2012 a 2015 —, os cientistas ressaltam que mais análises são necessárias para conhecer a fundo o lago marciano. Acredita-se, por exemplo, que ele esteja em um ambiente hostil e que sua água não seja potável. Há dúvidas quanto à possibilidade de existência de vida microbiana no local pelo fato de a água ser muito fria e salobra.

“Essa é uma descoberta de extraordinária importância, e aumentará a especulação sobre a presença de organismos vivos no Planeta Vermelho. No entanto, deve-se ter precaução, já que a concentração de sais necessária para manter a água líquida poderia ser fatal para qualquer vida microbiana similar à da Terra”, disse Fred Watson, do Observatório Astronômico da Austrália.

Nova missão

Cientista-chefe da Nasa, Jim Green adiantou que uma missão chamada dInSight — prevista para pousar no Planeta Vermelho em novembro — levará uma sonda de calor que perfurará até cinco metros o solo marciano e fará medições de temperatura. Essa missão poderá render descobertas ainda mais precisas em relação à presença da água líquida em Marte.

Se existir nos polos marcianos, o recurso também poderá estar presente em outros pontos do planeta. “Não há nada de especial nessa localização (revelada no estudo), o que significa que, provavelmente, haja depósitos de água similares debaixo da terra em todo Marte”, apostou Alan Duffy,  da Universidade Swinburne na Austrália.
 

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