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Correio Braziliense

Áreas marinhas virgens estão ameaçadas devido às ações do ser humano

Um problema grave, segundo especialistas, é que os instrumentos de proteção, como acordos internacionais, são quase nulos quando se trata dos oceanos


postado em 27/07/2018 06:00 / atualizado em 26/07/2018 22:18

Pesca e navegação são as práticas que mais afetam os oceanos virgens(foto: Steven Robles/AFP)
Pesca e navegação são as práticas que mais afetam os oceanos virgens (foto: Steven Robles/AFP)

Eles ocupam 71% do planeta e produzem mais de 90% do oxigênio que garante a vida no globo. Contudo, esses ecossistemas muitas vezes ignorados por quem vive em terra firme estão cada vez mais ameaçados pela atividade humana. Um estudo inédito publicado na revista Current Biology revela que apenas 13% dos oceanos continuam virgens. E mesmo essa pequena fração sofre degradação em ritmo acelerado, alertam os pesquisadores.

“Essas áreas virgens são cruciais para a biodiversidade marinha, mas estão em risco de se perderem para sempre. Como as atividades humanas impactam quase todos os lugares do oceano, é tempo de proteger proativamente os últimos lugares livres da atividade humana intensa”, diz Kendall Jones, biólogo conservacionista da Universidade de Queensland, na Austrália, e principal autor do estudo. No trabalho, os pesquisadores apontam a pesca e a navegação como as ameaças centrais à saúde dos 16 domínios marinhos estudados.

Um problema grave, segundo Jones, é que os instrumentos de proteção, como acordos internacionais, são quase nulos quando se trata dos oceanos. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direto dos Mares está desatualizada desde 1982, quando foi publicada. “O alto-mar contém a maior parte das principais áreas virgens marinhas, mas, atualmente, menos de 2% dessas áreas são protegidas. Desenvolver meios de protegê-las pode ser, portanto, crucial para sua conservação”, diz. De acordo com ele, a Organização das Nações Unidas (ONU) está negociando um acordo nos moldes do Acordo de Paris que, diferentemente do climático, seria um tratado legalmente vinculante. “Isso será uma ferramenta crucial para a conservação dos oceanos selvagens uma vez estabelecido”, aposta.

Últimos refúgios

O biólogo conta que as regiões livres de atividade humana intensa têm níveis de biodiversidade marinha e espécies endêmicas sem paralelos no planeta, assim como abrigam altíssima diversidade genética e, em alguns casos, são os últimos refúgios de grandes predadores que ocupam o topo das teias alimentares, como tubarões. Segundo Jones, nem as mais exemplares áreas de proteção marinha se comparam a elas, no sentido da riqueza biológica.

Além disso, essas porções intocadas são refúgios de resiliência face às mudanças climáticas, permitindo às espécies se recuperar mais facilmente dos efeitos do aquecimento do planeta, comparados àquelas de regiões em que há atividade humana. “Em uma era de ampla perda de biodiversidade marinha, áreas virgens também funcionam como uma janela para o passado, revelando como o oceano se parecia antes de a pesca excessiva e a poluição fazerem o estrago. Isso é uma informação crucial para a conservação marinha. Se vamos restaurar áreas degradadas para seu estado anterior, precisamos saber o que almejar”, destaca.

Jones conta que a devastação oceânica constatada no estudo é maior do que esperado pois, como o acesso às regiões mais afastadas da costa requer barcos especializados, os cientistas imaginavam que haveria abundância maior de refúgios selvagens nos mares abertos. De acordo com o biólogo, o resultado do estudo não apenas demonstra que as atividades humanas no mar estão muito difundidas, mas é um alerta para o fato de que há muito poucas áreas restantes que não despertam o interesse econômico. “A pesca comercial, agora, cobre uma área quatro vezes maior que à da agricultura, e subsídios governamentais massivos tornam essa atividade lucrativa mesmo no alto-mar (águas além da jurisdição nacional). Combinada a navegação comercial, escoamento terrestre e mudanças climáticas, quase não há lugar no oceano totalmente livre dos impactos humanos.” (PO)


“Áreas virgens (revelam) como o oceano se parecia antes de a pesca excessiva e a poluição fazerem o estrago. Isso é uma informação crucial para a conservação marinha” 
Kendall Jones, biólogo conservacionista da Universidade de Queensland e principal autor do estudo

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