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Correio Braziliense

Número de mortes de mulheres devido ao câncer no pulmão pode crescer em 43%

Projeções feitas com dados de 52 países, incluindo o Brasil, mostram que, entre 2015 e 2030, o número de mortes da população feminina em decorrência da doença pode aumentar 43%. No mesmo período, a mortalidade por tumor de mama deve cair 9%


postado em 01/08/2018 06:00 / atualizado em 01/08/2018 10:36

O tabagismo responde por 60% das mortes de mulheres por câncer de pulmão: efeitos da dependência comprometem o corpo a longo prazo(foto: Caren Firouz?Reuters)
O tabagismo responde por 60% das mortes de mulheres por câncer de pulmão: efeitos da dependência comprometem o corpo a longo prazo (foto: Caren Firouz?Reuters)
A boa notícia: até 2030, a mortalidade por câncer de mama diminuirá 9% no mundo, comparada aos dados de 2015. A má: óbitos por câncer de pulmão entre mulheres aumentarão 43% no mesmo período. As projeções são de um estudo financiado pelo Ministério de Universidades e Pesquisa do Governo da Catalunha, com dados de 52 países, incluindo o Brasil. Em 15 deles, as mortes por tumores pulmonares já ultrapassaram as decorrentes da enfermidade nas mamas e, no caso de 11 nações, isso ocorrerá antes de 2030. O trabalho foi publicado na revista Cancer Research. 

Segundo os autores, que fizeram as estimativas a partir de dados sobre mortalidade e tendências populacionais, embora multifatorial, a mortalidade associada ao tabaco entre a população feminina é reflexo da intensificação desse hábito nas últimas décadas. “Mais de 60% das mortes por câncer de pulmão em mulheres são atribuídas ao tabagismo”, diz o estudo. “Para o câncer de pulmão, os homens em países desenvolvidos passaram por uma epidemia dramática, que agora está em declínio, embora os tumores de pulmão ainda sejam a causa principal da mortalidade por câncer. Ao mesmo tempo, nas mulheres, a epidemia de câncer de pulmão começou mais tarde, e as taxas estão aumentando em muitos países desenvolvidos”, continua. Além disso, o envelhecimento da população está contribuindo para o crescimento do número de óbitos.

Para fazer as estimativas, os pesquisadores usaram dados de  2008 a 2014. A partir disso, desenvolveram cálculos para avaliar o avanço do número de óbitos pelas duas doenças (câncer de mama e de pulmão), com base nos padrões de crescimento e envelhecimento da população. De forma geral, as mortes por câncer de mama em 100 mil mulheres passarão de 11,2 em 2015 para 16 em 2030, com o pior cenário no continente europeu: de 15,5 para 20,8.

Na América, as taxas apresentadas no estudo são de, respectivamente, 10 e 13. Na Oceania, onde a mortalidade câncer de pulmão na população feminina já é alta (17,8 em cada 100 mil), a previsão é de leve decréscimo: 17,6. O estudo não traz dados da África porque nenhum país do continente estava dentro dos critérios de inclusão (população acima de 1 milhão de pessoas e envio de dados para o banco de mortalidade da Organização Mundial da Saúde por pelo menos quatro dos sete anos do período estudado).

Os óbitos por câncer de mama, quando avaliados no conjunto dos 52 países, cairão de 16,1 em 100 mil para 14,7. As maiores reduções acontecerão na Europa (17,1 para 15,4) e na Oceania (16,2 para 14,7). A Ásia é o único dos quatro continentes estudados em que essas taxas sofrerão aumento, passando de 10,3 para 10,7. Segundo José M. Martínez-Sánchez, professor da Universidade Internacional da Catalunha e principal autor do artigo, isso pode ser atribuído à ocidentalização do modo de vida oriental. “Essa cultura está adotando esse estilo, que geralmente leva à obesidade e ao aumento no consumo de álcool, sendo que os dois fatores podem desencadear o câncer de mama. Por outro lado, testemunhamos uma redução da mortalidade na Europa, o que pode estar associado à atenção sobre o câncer de mama, estimulando a participação ativa da população em programas de rastreamento, além da melhoria nos tratamentos.”

Quando os pesquisadores usaram categorias de renda, os países mais ricos (33 dos 52) ficaram no topo do aumento da mortalidade por câncer de pulmão (15,6 contra 19,1, de 2015 a 2030), ao mesmo tempo em que registraram os maiores decréscimos nos óbitos por tumor de mama (16 e 13,6). Contudo, as outras duas faixas de desenvolvimento  — médio e baixo — também terão crescimento nas mortes por câncer de pulmão (9,1 para 11,8 e 5,1 para 6,5, respectivamente) e queda nas causadas por câncer de mama (16,2 para 15,8 e 14 para 13,6).

Com isso, nos próximos 12 anos, a mortalidade por tumores de pulmão ultrapassará a decorrente da doença nas mamas em 50% dos países investigados. “Enquanto fizemos grandes progressos na redução da mortalidade por câncer de mama globalmente, as taxas de mortalidade por câncer de pulmão entre mulheres estão aumentando em todo o mundo. Se não implementarmos medidas para reduzir os comportamentos de tabagismo nessa população, as mortes pela doença vão aumentar em todo o mundo”, diz Martínez-Sánchez.

Prevenção

O oncologista Lucianno Santos, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), lembra que, hoje, o acesso a medidas preventivas do câncer de mama é mais comum mesmo entre populações mais pobres. “Até a mulher mais simples já sabe que tem de fazer a avaliação com o ginecologista, fazer o autoexame das mamas, a mamografia e a ecografia mamária. Mais de 90% das mulheres sabem o que fazer para detectar o câncer de mama precocemente”, diz, ressaltando que as campanhas governamentais e as matérias sobre o tema na mídia costumam ser numerosas, diferentemente do que ocorre em relação ao câncer de pulmão. “Um dos problemas com a mortalidade alta do câncer de pulmão é que, geralmente, se descobre a doença quando ela já está avançada e a paciente apresenta sintomas.”

Santos diz que, nos últimos cinco anos, as recomendações para o diagnóstico precoce do câncer de pulmão já se consolidaram entre as sociedades médicas. Pessoas que fumaram um maço de cigarro ao dia ao longo de 30 anos ou deixaram de fumar há 15 o equivalente a essa quantidade deveriam ser avaliadas por um pneumologista ou um cirurgião torácico e submetidas à tomografia com baixa dose de radiação a uma frequência definida pelo médico. Porém, mesmo em países ricos, essas medidas são pouco praticadas. “Estima-se que, nos EUA, a população-alvo para o escaneamento precoce do câncer de pulmão seja de 5 a 6 milhões de pessoas. Dessas, apenas 1,9% consegue fazer a tomografia, por falta de equipamentos suficientes. Isso tem um reflexo direto na mortalidade”, diz.


“Um dos problemas com a mortalidade alta do câncer de pulmão é que, geralmente, se descobre a doença quando ela já está avançada e a paciente apresenta sintomas.“

Lucianno Santos, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc)

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