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Correio Braziliense

Especialistas alertam que aquecimento dos oceanos ameaça vida marinha

O agravamento das mudanças climáticas deve fazer com que, até o fim do século, os mares sofram com temperatura extrema durante 30% dos anos


postado em 16/08/2018 06:00 / atualizado em 15/08/2018 23:11

(foto: Nasa/Divulgação)
(foto: Nasa/Divulgação)

 

Na terra, as ondas de calor já bateram recorde neste mês e, até agora, mataram três pessoas na Europa. Ontem, um estudo francês alertou que os próximos quatro anos serão ainda mais quentes. Porém, enquanto o mundo se preocupa com as temperaturas extremas que têm atingido os continentes, poucos sabem que o fenômeno também afeta os oceanos. Essa tendência, inclusive, vai se intensificar com o agravo das mudanças climáticas, colocando em risco o ecossistema marinho e a pesca.

Em um artigo publicado na revista Nature, pesquisadores da Universidade de Bern, na Suíça, afirmam que, entre 1982 e 1996, o número de dias com ondas de calor nos mares duplicou e, caso os termômetros subam 3,5ºC até o fim do século, a probabilidade de esse problema ocorrer será 41 vezes superior, tendo como base a época pré-industrial. Os cientistas alertam que, em média, a extensão física do fenômeno aumentará 21 vezes, com 112 dos 365 dias do ano sob calor intenso e temperatura extrema máxima 2,5ºC a mais do que a registrada atualmente.

Menos alardeadas do que as ondas de calor que afetam as porções continentais do planeta, aquelas que atingem os oceanos têm efeitos devastadores para a vida marinha, sustenta Thomas Frölicher, professor de modelos oceânicos da Universidade de Bern e autor correspondente do estudo. “Um aumento nas ondas de calor marinhas vai elevar provavelmente o risco de impactos severos e de longa duração nos organismos marinhos, especialmente naqueles que vivem em baixas latitudes, onde muitas espécies já estão perto de seus limites termais máximos”, observa.

Frölicher destaca que, devido às especificidades das diferentes populações e dos sistemas marinhos, as respostas aos eventos extremos são variáveis. Ele afirma que o conhecimento que se tem até agora sobre os impactos das ondas de calor nos ecossistemas oceânicos vem de casos recentes, três dos quais foram mais bem estudados pela ciência: o fenômeno que atingiu a Austrália em 2011, o ocorrido no noroeste do Atlântico em 2012 e os observados entre 2013 e 2015 no nordeste do Pacífico. Em todas essas ocasiões, as implicações foram desastrosas.

“A onda de calor na Austrália em 2011 resultou em uma alteração completa no regime de temperatura do ecossistema dos corais, incluindo uma redução na abundância da formação de algas marinhas, uma mudança subsequente na estrutura da comunidade e uma redistribuição para o sul nas comunidades de peixes tropicais”, diz Thomas Frölicher. No Atlântico, o fenômeno de 2012 provocou uma migração precoce anormal das lagostas para essa região, em uma época quando a cadeia de fornecimento do crustáceo não estava pronta para a pesca, e os consumidores tampouco costumam comprar o produto. “A captura recorde (de lagosta) superou a demanda do mercado e contribuiu para um colapso nos preços e nas perdas de milhões de dólares para a indústria pesqueira.”

No caso da longa onda de calor do Pacífico entre 2013 e 2015, o pesquisador destaca o aumento da mortalidade de leões-marinhos, baleias e pássaros marinhos, baixa produtividade primária oceânica (matéria orgânica produzida), elevação na quantidade de espécies dos pequenos crustáceos copépodes no sudeste da Califórnia e composições de novas espécies. “Além disso, foi observado o florescimento de diatomáceas (organismos unicelulares) tóxicas por toda a costa, o que resultou em toxinas elevadas nos mamíferos marinhos e no encerramento da pesca de caranguejo”, revela Frölicher.

Por fim, o cientista destaca que um aumento na temperatura oceânica em regiões tropicais e subtropicais registrado entre 2014 e 2017 desencadeou um episódio de branqueamento de corais sem precedentes, o terceiro mais grave em escala global, depois de acontecimentos semelhantes em 1997-1998 e 2010. “O estresse causado pelo calor nesse evento foi suficiente para causar o branqueamento de 75% dos corais globais.”

Irreversível


Os modelos climáticos estudados pela equipe da Universidade de Bern mostram que, se não houver uma redução substancial da temperatura até o fim do século, eventos como esses podem ter consequências muito mais dramáticas. “Eventos extremos no oceano podem levar a uma mudança completa nos ecossistemas marinhos. E, em alguns casos, eles não voltarão mais às condições iniciais, mesmo depois de longos períodos de tempo. Isso pode ocorrer também com ondas de calor marinhas muito abruptas”, alerta Nicolas Gruber, professor de física ambiental do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, que também assina o artigo.

Para fazer as previsões, a equipe analisou mudanças passadas e avaliou tendências de diferentes características das ondas de calor, como número de dias em que podem ocorrer, duração, intensidade, extensão espacial e média de intensidade cumulativa. No modelo, os cientistas utilizaram temperaturas diárias da superfície global registradas entre 1982 e 2016. O banco de dados combina observações feitas por diferentes plataformas, como satélites, navios e boias. Além disso, foram usadas simulações da fase cinco do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, do Programa de Pesquisa Climática Mundial. Segundo Thomas Frölicher, todas as simulações de modelos foram executadas dentro do período histórico de 1861 (pré-industrial) a 2005, e considerando de 2006 a 2100 sob dois cenários: de altas emissões e de baixo lançamento de CO2, compatível com o Acordo de Paris.


“Eventos extremos no oceano podem levar a uma mudança completa nos ecossistemas marinhos. 
E, em alguns casos, eles não voltarão mais às condições iniciais” 


Nicolas Gruber, professor de física ambiental do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique e um dos autores do artigo

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