Publicidade

Correio Braziliense

Anfíbios da Mata Atlântica ameaçados de desaparecer pelo aquecimento global

Nos próximos 50 anos, 10% das espécies podem desaparecer em função das mudanças climáticas, alertam pesquisadores brasileiros. Cinco variedades do cerrado correm o mesmo risco


postado em 18/08/2018 07:00 / atualizado em 18/08/2018 12:45

Espécies que podem ser extintas: animais ajudam no controle de mosquitos vetores de doenças(foto: Bruno Tayar Marinho do Nascimento/Divulgação)
Espécies que podem ser extintas: animais ajudam no controle de mosquitos vetores de doenças (foto: Bruno Tayar Marinho do Nascimento/Divulgação)

Os anfíbios evoluíram há mais de 360 milhões de anos e, de lá para cá, testemunharam profundas transformações no planeta. Viram os dinossauros surgir e desaparecer; já estavam aqui quando os primeiros mamíferos e as aves despontaram, presenciaram glaciações e derretimentos sucessivos. Porém, agora, enfrentam uma ameaça que pode levar ao fim de várias espécies dessa longeva classe animal: as mudanças climáticas.

Um estudo da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Faculdade Estadual de Goiás publicado na revista Ecology and Evolution mostra que, no Brasil, 10% das espécies de anfíbios da mata atlântica — muitas delas, endêmicas (só existem lá) — podem desaparecer nos próximos 50 anos. No cerrado, cinco variedades também seriam extintas. Para a pesquisa, os cientistas fizeram simulações referentes a 2050 e 2070, com dois cenários de emissão de gás carbônico, um mais otimista e outro pessimista, além de três modelos de circulação global atmosférica e oceânica. Todos os dados são do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) cujas previsões sobre clima foram usadas na base do Acordo de Paris.
 
(foto: Bruno Tayar Marinho do Nascimento/Divulgação )
(foto: Bruno Tayar Marinho do Nascimento/Divulgação )
 

Os pesquisadores investigaram o impacto dos cenários de emissão de CO2 sobre 505 espécies, sendo 350 da mata atlântica e 155 do cerrado. Juntos, os biomas poderão perder 42 espécies de rãs, sapos e pererecas, animais essenciais para o controle de mosquitos vetores de doenças. Dessas, cinco já integram o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). As demais passarão por um rápido processo de perda de áreas climáticas favoráveis.

“Assim como todo organismo vivo, o anfíbio somente ocorrerá em um lugar se ele tolerar as condições climáticas que ocorrem nesse lugar. As preferências climáticas de uma dada espécie são aquelas condições que tornam os organismos dessa espécie altamente favoráveis para ocorrência dela nos ambientes”, explica o biólogo Tiago da Silveira Vasconcelos, pesquisador da Unesp, câmpus Bauru, e autor correspondente do estudo. Ele explica que qualquer mudança no clima pode ter efeitos diretos e indiretos na biodiversidade. “Imagine nós, humanos, quando estamos em uma sauna: aguentamos aquela temperatura alta por alguns minutos e, então, logo tomamos uma decisão de como nos comportaremos àquela temperatura mais elevada”, compara.

Segundo Vasconcelos, os organismos das diferentes espécies podem reagir às mudanças climáticas de três maneiras: respostas comportamentais e/ou fisiológicas, como procurar por abrigos ou ativar algum mecanismo metabólico para aguentar o calor; mudança da época de eventos vitais, como época de reprodução e migração; ou alteração na distribuição geográfica, buscando climas mais favoráveis à existência.


Pele seca

No estudo publicado na Ecology and Evolution, os pesquisadores se debruçaram sobre essa terceira resposta potencial. As simulações demostraram que 10,6% das espécies da mata atlântica, bioma onde 80% de rãs, sapos e pererecas são endêmicos, não conseguirão encontrar climas adequados e, com isso, serão extintos. “Por serem ectotérmicos, os anfíbios não conseguem regular a própria temperatura e, como a pele deles precisa de umidade, são os mais afetados pelas mudanças climáticas. Por isso, as mudanças podem afetar não só a distribuição das espécies, mas a própria existência delas”, observa Diogo B. Provete, pesquisador e professor-assistente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que não participou do estudo.

No cerrado, as simulações indicaram que cinco espécies desse bioma poderão estar extintas em 2050 por não encontrar áreas com clima semelhante à que vivem atualmente. As demais, ainda que enfrentem a redução das áreas de clima adequada, conseguirão sobreviver devido às características fisiológicas. “Os organismos típicos do cerrado são aqueles que toleram temperaturas medianas a altas e também têm adaptações necessárias para tolerar períodos do ano mais secos, devido à sazonalidade climática”, diz Tiago da Silveira Vasconcelos. Em regiões específicas do norte e no nordeste do bioma, em vez de perdas, poderá haver ganhos, devido à imigração de sapos, rãs e pererecas que conseguirão encontrar, nesses locais, condições favoráveis para sobreviver.

O biólogo Diogo B. Provete, da UFMS, observa que o estudo da Unesp é fundamental para nortear políticas de conservação. “De todos os grupos animais, os anfíbios são os mais ameaçados. No mundo, de 28% a 30% das espécies podem ser extintas por fragmentação do habitat, doenças e poluição. Quando se tem um estudo mostrando como as perdas serão pelos biomas e que algumas espécies serão mais afetadas que outras, isso fornece um panorama, mostrando a direção do que pode vir a acontecer.”


DUAS PERGUNTAS PARA


Tiago da Silveira Vasconcelos, pesquisador da Unesp-Bauru


Qual o papel dos anfíbios no ecossistema e o impacto da extinção de tantas espécies?

Os anfíbios têm diversas funções no meio ambiente, servindo como alimento para diversas espécies de animais — por exemplo, aves e serpentes —, mas também são predadores de uma ampla variedade de insetos, inclusive de mosquitos transmissores de doenças importantes para nossa saúde pública, como mosquitos transmissores da febre amarela, dengue e zika. Além disso, os anfíbios são frequentemente explorados como modelos biológicos no ramo da farmacologia, devido ao enorme arsenal bioquímico encontrado nas glândulas de sua pele. Assim, a extinção de espécies ou a redução de suas distribuições geográficas pode causar desiquilíbrios ecossistêmicos de magnitudes ainda incalculáveis, mas, provavelmente, maléficas para a qualidade de vida da população humana.

Qual seria o cenário climático com menos perda de espécies?

Diversos estudos mostram que, se as mudanças climáticas pararem hoje, ainda assim, continuaremos sentindo os efeitos delas devido à inércia dos efeitos/alterações já causados ao ambiente. No entanto, vários estudos também mostram que, se diversas atitudes forem tomadas, as consequências poderão ser amenizadas. Entre as atitudes pessoais, destaco práticas de desenvolvimento sustentável, redução e/ou reutilização de recursos naturais, que, em última instância, reduzirão a emissão de gases do efeito estufa na atmosfera. Entre práticas a serem adotadas por órgãos governamentais, destaco políticas públicas para redução de emissão de gases do efeito estufa como incentivo fiscal para indústrias e/ou estabelecimentos comerciais que utilizem energia renovável, planejamento de seleção de áreas de conservação ambiental considerando a redistribuição provável das espécies dentro dos cenários de mudanças climáticas.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade