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Correio Braziliense

Exame pode prever surgimento de câncer nos rins com 5 anos de antecedência

Pesquisadores ingleses e americanos identificaram um marcador sanguíneo capaz de antever a ocorrência desse tipo de tumor cinco anos antes de a doença se manifestar. O estudo será ampliado para indicar as formas de uso do prognóstico em cada paciente


postado em 21/08/2018 06:00 / atualizado em 20/08/2018 22:20

Imagine a possibilidade de uma pessoa descobrir que desenvolverá um tumor cinco anos antes de ele se manifestar. Essa previsão extremamente precoce é viável e pode ser feita por meio de um simples exame de sangue. É o que mostra um estudo conduzido por pesquisadores ingleses e norte-americanos. Os cientistas detectaram um marcador sanguíneo que pode ajudar a apontar o risco de um paciente sofrer de um câncer renal. As descobertas foram apresentadas na última edição da revista especializada Clinical Cancer Research e podem contribuir para monitorar o tratamento da enfermidade.

No estudo, os pesquisadores analisaram amostras sanguíneas de 190 pacientes que desenvolveram câncer renal. Elas foram comparadas com o sangue de outras 190 pessoas sem a doença. Por meio das análises, os cientistas constataram que medir os níveis de uma proteína presente no sangue, chamada KIM-1, pode indicar se um indivíduo tem maior probabilidade de ter esse tipo de tumor futuramente.

Os dados mostraram que, quanto maior a concentração de KIM-1, mais acentuado será o risco de desenvolvimento do câncer renal. “Contamos com o trabalho anterior de colegas nossos. Eles indicaram que a proteína KIM-1 se mostrou elevada no momento do diagnóstico dos casos de câncer de rim (comparados com pacientes saudáveis), e que concentrações menores de KIM-1 foram registradas após a remoção cirúrgica do tumor”, detalhou ao Correio David Muller, pesquisador do Imperial College London, no Reino Unido, e um dos autores do estudo. “Confirmamos isso nessa análise. Esse trabalho é um grande passo à frente, o KIM-1 é o único biomarcador sanguíneo que se mostrou capaz de distinguir pessoas com alto e baixo risco de desenvolver esse tipo de tumor”, complementou.

Os cientistas também observaram que, em pessoas com câncer de rim com menor sobrevida, os níveis de KIM-1 eram mais altos no sangue. No futuro, os pesquisadores acreditam que quantificar os níveis dessa proteína possa ser uma medida utilizada com testes de imagens para confirmar suspeitas de câncer renal, ou ajudar a descartar a doença. “Os próximos passos envolvem examinar mais de perto e confirmar se os níveis de KIM-1 podem auxiliar a detectar tumores que estão em um estágio inicial, e descobrir se a técnica pode ser usada como uma ferramenta para rastrear se o tratamento de um paciente está funcionando”, explicou Muller.

Os especialistas ressaltaram que, apesar dos resultados iniciais positivos, o estudo precisa ser aprofundado. “Agora é crucial entender mais sobre como o KIM-1 pode ser incorporado ao tratamento dos pacientes”, ressaltou Rupal Bhatt, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. “Estamos empolgados em continuar esse importante trabalho e testar se a medição de níveis de KIM-1 consegue ajudar a identificar pacientes que podem se beneficiar de tratamento adicional após a cirurgia e, portanto, potencialmente melhorar suas perspectivas”, frisou.

Sobrevida

O câncer de rim está entre os 10 tipos de tumores mais comuns entre homens e mulheres. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estimou que este ano devem ser diagnosticados 6.270 novos casos da doença no Brasil. Diagnosticado precocemente, com possibilidade de cirurgia de retirada do rim doente, o paciente pode levar uma vida normal. De acordo com os especialistas internacionais, quando o tumor é detectado em seu estágio inicial, porém, sem possibilidade de intervenção, mais de 8 em 10 pessoas sobreviverão à doença por 5 anos ou mais. Identificar essa enfermidade mais cedo, portanto, tem o potencial de aumentar a sobrevida. A questão é que a maioria dos tumores em estágio inicial não apresenta sintomas e muitos casos são vistos apenas acidentalmente, durante a aquisição de imagens para uma série de outras condições de saúde.

Por causa desses entraves, os investigadores dizem acreditar que o teste de sangue pode contribuir para uma detecção precoce da doença, que seria extremamente valorosa, mesmo com a necessidade de aprofundamento da pesquisa. “Há uma necessidade de mudar os diagnósticos de câncer renal para estágios iniciais, quando o tratamento tem mais chances de sucesso, e essa pesquisa é um progresso nesse sentido. Esse trabalho ainda está em estágios iniciais, por isso, estudos prospectivos de populações maiores são necessários antes que essa abordagem possa ser amplamente adotada”, adiantou Charles Swanton, um dos autores do estudo e clínico-chefe do Instituto Cancer Research UK, no Reino Unido. “O potencial de exames de sangue para a detecção e monitoramento de cânceres está se tornando cada vez mais aparente. E esse trabalho oferece mais evidências de que eles podem se tornar ferramentas poderosas na clínica”, complementou Muller.

Anderson Silvestrini, oncologista Clínico do Grupo Acreditar/D’or, em Brasília, assinalou que o estudo internacional explora ferramentas que têm sido buscadas na área de combate à doença. “Nós, da oncologia, sempre buscamos marcadores como esse visto pelos cientistas, que podem ajudar em um diagnóstico precoce da doença e que também nos mostrem o nível de agressividade do tumor, para que nós consigamos direcionar o tratamento necessário para cada tipo”, explicou o especialista. Silvestrini avaliou que o estudo precisa ser aprofundado para que o diagnóstico precoce ocorra. “Temos alguns obstáculos, na prática, porque conseguir mostrar anos antes que a doença vai surgir não facilitaria tanto o tratamento, já que não sabemos em que rim isso ocorreria, e não seria indicado tirar os dois. Precisamos saber esses detalhes para que possa ser feito um bom uso dessa técnica, e também para evitar alarmar o paciente sem necessidade”, ressaltou o médico.

Para o especialista, mais pesquisas podem ajudar a aprimorar a eficácia de um exame sanguíneo de previsão precoce. “Acho que é necessário fazer estudos com mais pacientes, para ter a certeza relacionada a esse marcador, para que não tenhamos dúvidas. Mas seu uso no auxílio ao tratamento, para mostrar se o paciente está respondendo bem a determinada terapia, é algo que já traria um grande auxílio e que me parece mais próximo”, opinou.

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