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Correio Braziliense

Cientistas comprovam cruzamentos entre espécies humanas antigas

Descoberto na Rússia o fóssil de um descendente direto dos primos próximos do homem moderno. Os restos de uma menina que morreu aos 13 anos são a primeira evidência científica de que houve cruzamentos entre as espécies humanas antigas


postado em 23/08/2018 06:00

Caverna em que o osso foi encontrado: acredita-se que os denisovanos viveram apenas em uma região onde hoje é a Rússia (foto: Sergei Zelensky )
Caverna em que o osso foi encontrado: acredita-se que os denisovanos viveram apenas em uma região onde hoje é a Rússia (foto: Sergei Zelensky )


Há mais de 50 mil anos, na região das Montanhas Douradas do Altai, na Rússia, uma mulher conheceu um homem e, dessa união, nasceu uma criança que morreu precocemente, aos 13 anos de idade. Não se sabe nada sobre os pais da menina: se viveram juntos ou se apenas tiveram um encontro fortuito. Mas, de uma coisa, os cientistas já têm certeza: eles pertenciam a espécies humanas distintas. A mãe era neandertal, e o pai, denisovano. Esses primos próximos do homem moderno se separaram de um ancestral comum 390 mil anos atrás e, por milhares de séculos, coabitaram a Eurásia.

Já se desconfiava que, dividindo um continente por tanto tempo, neandertais e denisovanos teriam tido filhos juntos, muito embora os denisovanos provavelmente ficassem restritos à região onde hoje é a Rússia, pois jamais foram encontrados outros exemplares da espécie fora de lá. Essa é, porém, a primeira vez que se descobre o fóssil de um indivíduo descendente direto das duas espécies diferentes. A criança em questão era do sexo feminino e, dela, só resta um pequeno fragmento de osso, com 2,5cm, encontrado em 2012, na Caverna Denisova. Foi nesse local que os primeiros restos mortais do Homem Denisovano foram escavados e, por isso, ele empresta o nome à espécie, desconhecida até seis anos atrás.

“Sabíamos, por estudos prévios, que os neandertais e os denisovanos deveriam ter procriado, mas nunca pensamos que teríamos a sorte de encontrar um filho de verdade dos dois grupos”, comemorou, em nota, Viviane Slon, pesquisadora do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (MPAE), responsável pelas análises genéticas que apontaram para as origens da menina. “Se tivessem me perguntado, eu teria dito que nunca encontraríamos isso. É como achar uma agulha no palheiro. E, então, nos deparamos com ela. Fiquei muito surpreso”, comenta Svante Pääbo, diretor do MPAE e responsável por reabilitar a imagem dos neandertais — antes tidos como primitivos — graças a seus estudos genéticos.

Peças usadas no estudo sobre cruzamento das espécies: resultado inédito (foto: Ian.R.Cartwright/Universidade de Oxford )
Peças usadas no estudo sobre cruzamento das espécies: resultado inédito (foto: Ian.R.Cartwright/Universidade de Oxford )

Marcas no DNA

Segundo Fabrizio Mafessoni, também do Max Planck e coautor de um estudo sobre a descoberta publicado na revista Nature, o sequenciamento inicial do fragmento de osso indicou que a menina tinha genes neandertais e denisovanos, mas, nessa fase, o quebra-cabeça ainda não estava montado. “Esse indivíduo, que chamamos de Denisova 11, poderia ter quantidades equivalentes de genes neandertal e denisovano por ter pertencido a uma população com ancestralidade mista dessas espécies ou porque cada um de seus pais pertencia a um desses dois grupos”, explica. Para determinar qual dos dois cenários se encaixava, os cientistas realizaram novos testes, que confirmaram a segunda hipótese.

Além do aspecto curioso dessa história e, claro, de se comprovar com um fóssil algo que já se desconfiava, Mafessoni destaca que a descoberta vai ajudar a entender mais sobre as duas populações — a família neandertal por parte de mãe, e a denisovana, por parte de pai. Segundo o pesquisador, a linhagem materna tem origem mais próxima do oeste Europeu do que dos neandertais que viviam perto da Caverna de Denisova. “Isso mostra que os neandertais migraram entre oeste e leste da Eurásia dezenas de milhares de anos antes de desparecerem”, aponta. Essa espécie foi extinta por volta de 40 mil a 50 mil anos atrás e, antes disso, conviveu com o Homo sapiens por um curto período — o suficiente para deixar sua marca no DNA do homem moderno.

As interações entre neandertais e denisovanos também foram poucas, mas marcantes o suficiente para deixar traços no genoma um do outro. O fato de o pai da criança que foi objeto desse estudo ter traços neandertais em seu DNA mostra que gerações antes da dele já haviam procriado. “Desse simples genoma, fomos capazes de detectar múltiplas instâncias de interações entre neandertais e denisovanos”, diz Benjamin Vernot, terceiro coautor do artigo. Agora, os cientistas avaliam novos sedimentos da Caverna Denisova para tentar identificar traços de DNA que possam ajudar a descobrir quais diferentes grupos humanos utilizaram esse refúgio. Contando com a boa sorte que acompanhou o grupo até agora, Pääbo já sonha com mais uma possibilidade: “Quem sabe não encontramos os pais da menina?”.


“Isso mostra que os neandertais migraram entre oeste e leste da Eurásia dezenas

de milhares de anos antes de desparecerem"

Fabrizio Mafessoni, pesquisador do Max Planck e coautor do estudo


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